Neste exato momento, Maria sente frio num quarto de hospital, acompanhada apenas de seus 83 anos e das lembranças que a idade acumulou. Desolada, procura uma mão que a sustente quando a dor aperta, mas encontra apenas a aspereza dos lençóis. Ela só está em paz quando pensa na morte. Tão temida por algumas pessoas, a morte para ela é quase uma amiga. É sua verdadeira companheira.

Maria é uma personagem fictícia. Diria que ela é um espelho. Um espelho que reflete a vida de tantas outras Marias. Mulheres reais que, neste minuto, estão sendo abandonadas em hospitais e abrigos. Há também as Marias que são encontradas e acolhidas, como Dona Luzinete – resgatada no mercado da produção. E são porque existem pessoas como Cícera, Cleonice e Dilma que, movidas pela vontade de ajudar e pela capacidade de encarnar na pele do outro, uniram forças e fundaram um abrigo para acolher pessoas que precisam e que não podem contar com mais ninguém. 

Assim como o mundo abriga gente que escolhe abandonar, existem aquelas que decidem acolher. Cícera, Cleonice e Dilma decidiram acolher. E é através da voz de uma das acolhedoras que iremos contar esta história.

Cícera conta que tudo começou com um grupo de oração formado por 20 mulheres. Entre as 20, uma tinha câncer e foi curada do tumor após alguns encontros com as colegas. Durante as reuniões, era rotina pedir às forças divinas que trouxessem de volta a saúde de Dilma Pereira de Morgado Santos. Se foi pelo poder da fé e da amizade, não se sabe, mas a doença saiu do cenário deixando o sentimento de gratidão enraizado na xará da recém reeleita presidenta do Brasil que, assim como a Dilma alagoana, curou-se de um câncer.

Como forma de agradecimento, Dilma — a Santos, não a Rousseff — decidiu usar uma pequena casa para construir com as amigas Cícera Lisboa e Cleonice Bezerra Pimentel a entidade filantrópica Acolhimento Mãe das Graças, localizada no conjunto habitacional Village Campestre II, próxima a um canavial. No início a entidade era composta por dois cômodos e uma árvore. Hoje tem quartos maiores, banheiro, cozinha, jardim, sala de jantar e até mesmo uma capela.  Agora as amigas estão planejando um cantinho para que suas hóspedes possam praticar fisioterapia.

As mudanças na estrutura do local foram alcançadas com esforço. Foi necessário que as três abrissem mão de alguns bens para que conseguissem expandir a casa. Na época, Cícera tinha uma butique de roupas, e Dilma e Cleonice eram proprietárias de uma lojinha de aviamentos. Elas venderam tudo, pagaram suas dívidas e começaram o trabalho que há pouco mais de seis anos acolhe vidas abandonadas. Algumas vidas amparadas por elas permanecem aos seus cuidados desde o início, outras deram as mãos à morte e foram embora deixando saudades.

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Até hoje Cícera recorda cada segundo daquele momento, tão vivo quanto a sua vocação para a caridade. Era um dia feio, chuvoso, e quem chegava da rua vinha com lama subindo pelas canelas. Foi assim que um homem entrou na casa de acolhimento, molhado dos pés à cabeça, com os olhos arregalados e tão tempestuosos quanto o dia. Sem perder tempo com cumprimentos, o desconhecido manifestou os motivos para estar ali: “Olhe, dona Maria, eu tive no Frei e ele disse que lá era apenas pros homens e que aqui é pra mulher. Tome essa mulher que eu não quero vê-la nunca mais.” Entregou os documentos da irmã indesejada à Cícera, girou nos calcanhares, saiu pela porta e nunca mais voltou.

O porquê de o homem ter agido daquela forma, não se sabe. As possibilidades são tão numerosas quanto os pontinhos que iluminam o céu noturno. Cícera se questiona diariamente sobre os motivos e nunca encontrou respostas, por mais que as procurasse. “Aqui não há espaço para julgamentos, mas os porquês são bem-vindos”, pensa em voz alta.

92, 94, 101, 110. A idade das hóspedes varia, mas a maioria, com exceção de quatro, já não consegue contar as primaveras.  E o que esses quatro brotinhos estão fazendo no meio de tanta maturidade? “Estão descansando a mente”, é o que responde Cícera observando o movimento circular de uma de suas hóspedes portadora da juventude.

Descoberta pela imprensa, a menina que rodopia em seu próprio eixo se chama Sandra e foi encontrada amarrada por detrás da penitenciária masculina Baldomero Cavalcanti. Passado o tumulto, quando a garotinha amarrada já não servia mais como notícia, levaram-na para o Hospital Psiquiátrico Portugal Ramalho. “Ela foi amarrada pelo pai alcoólatra num coqueiro. Eles moravam numa barraca de lona. Quando ela chegou aqui não andava, se arrastava. Comia papel, mato e o que aparecesse, como um animal”, lamenta Cícera.

Foi nessas condições que Sandra Pereira atravessou as portas do Acolhimento Mãe das Graças. Uma pessoa que trabalhava no Portugal Ramalho, ia devolver a criança ao lugar em que foi encontrada e decidiu ligar para Cícera contando o caso. Apesar de ser voltada apenas para idosos, Sandra foi acolhida na entidade.

— A gente criava um cachorro aqui, daí a gente colocava comida pra ele e ela se arrastava até a vasilha pra comer a comida do cachorro. Quando alguém chegava na porta e ela via que era homem, ela se arrastava até lá e abaixava a calcinha — lembra Cícera.

Sandra fez 24 anos e sua grande companheira é uma boneca que ganhou de um dos visitantes da entidade. “Meus pais vêm me visitar?”, “Tem pipoca?”, “Quando vou ao dentista?”, “Que horas vamos passear?”, faz as mesmas perguntas duas ou três vezes seguidas, irritando constantemente as outras hóspedes que, no fastio da vida e na flor da pele, cutucam a menina com o que podem. Afinal, elas não entendem que a memória é curta para quem só apreciou uma paisagem durante muito tempo.

Outra hóspede acolhida pelas três amigas foi Tereza Barbosa, retratada por nós do Vidas Anônimas no texto A bela da Tarde. Cícera garante: “Aqui, todo mundo é bem-vindo, mas a nossa responsabilidade é muito grande. Não é fácil. Por sorte podemos contar com pessoas que conhecem e confiam em nosso trabalho. Elas ajudam bastante.”

Cícera, Cleonice e Dilma sentem como se estivessem nas entranhas de cada mulher abandonada no mundo e, por esse motivo, as três colhem essas vidas que foram jogadas como frutas em decomposição, impróprias para o consumo. Elas reconhecem, por trás de cada rosto enrugado, o valor inestimável da existência. Suas hóspedes têm a carne viva como prova de que ainda estão aqui. São lembranças, dor e vontade.

Algumas dessas vidas são encontradas num estado lamentável, fragilizadas não só pela falta de saúde ou de discernimento, mas pela ausência de família, de afago. Cheias de piolhos, violentadas sexualmente, sujas, elas rastejam debilitadas pela carência de ternura, porque foram anuladas antes mesmo de partirem. Antes do descanso eterno, enfrentam ainda o abandono que chega quando mal há forças para se manter em pé, e chega com tudo, sem pedir licença. Invade com brutalidade os minutos já tão raros, quem sabe os últimos minutos.

Mas Cícera e suas amigas estão determinadas:

— Nós não vamos parar e não vamos deixar de pedir por elas e por quem está precisando.

 


Deseja visitar o Acolhimento Mãe das Graças? A entidade fica na Rua Cristina Braga, Nº 49, Loteamento Cidade Universitária, Village Campestre II. Caso tenha interesse em ajudar com doações ou trabalhos voluntários, pode ligar para (82) 4141-4513 ou 8861-3979 (Cícera).

 

FOTO: Fecomércio/AL

 

Elayne Pontual

Idealizou o Vidas Anônimas porque acredita que as histórias mais extraordinárias ainda não foram contadas e que as pessoas mais incríveis nunca foram ouvidas.

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