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Como as bordas, os meios e as quinas – tipos de cortes em cerâmica – a existência de Maria Zélia Nogueira, mosaicista natural de Manaíra, na Paraíba, é um encontro de peças que se encaixam e às vezes, não. De peças coloridas, outras vezes, não. De fragmentos bem acabados, divididos, bonitos, quebrados e infinitamente adjetivados, uma vez que são muitas as medidas, os encaixes e os desenhos de uma vida inteira a colar peça por peça. Vidro por vidro. Isto sem contar com os espaços em que somente a lasca amorfa do vazio preenche e só a cola de madeira flue.

Irmã de 8 irmãos, Zélia Nogueira (50), como é conhecida artisticamente, orgulha-se de ser paraibana. Quando adolescente, fazia crochê e conta que os pais tinham uma preocupação com ela. A menina Zélia não se identificava com a roça, nem se mostrava interessada em trabalhar “em casa de família”.

Ao perceber que na palma da mão de sua filha o destino não se escrevia em forma de inchada, o pai de Zélia tomou a iniciativa de colocá-la em um cursinho de crochê, onde ela também aprendeu a fazer “fuxico” – tipo de flor artesanal, feita de tecido, linha e agulha, como toda boa história.

Aos “17 anos e 6 meses de idade” casou e desde então mora em terras arapiraquenses, onde aos 22 anos deu vida ao primeiro de seus 8 filhos – peças insubstituíveis no quebra-cabeça de sua trajetória – dos quais 4 são mosaicistas, como a mãe. O restante da prole também tem um pé ou duas mãos e uma linha na arte de significar o delírio da vida por meio do barbante, da jardinagem ou das tintas que enlameiam o pincel.

Durante 5 anos, Zélia trabalhou no lixão de Arapiraca para sobreviver às faltas de uma dura vida. Às 8h da manhã costumava ser partida. Deixava em casa o marido, vítima do alcoolismo, e o filho mais velho tomando conta das 4 irmãs menores. Os rebentos diziam “Vá não, Mainha!”, mas Zélia não tinha outra escolha, senão a de complementar a renda atando todos os pontos, fossem eles feitos de pipoca ou segredo, do crochê.

A catadora Zélia preocupava-se em dar aos filhos algo digno de comer e não os restos, o desperdício incomestível. Não levava para suas crias a comida do lixão, porque tinha medo de intoxicá-los, de perdê-los por um minuto de desespero ou imprudência. Infelizmente, essa é uma prática comum entre as mães que habitam as toneladas de porcarias e objetos inúteis, muitas vezes, para quem já tem coisas de sobra.

Um dia, durante uma conversa com os colegas catadores, um deles disse que vez em quando apareciam umas pernas no meio do lixo. Zélia, na hora, duvidou. Não podia ser! Pernas não deveriam ser coisas descartáveis, ao alcance de mãos em busca de uma vida digna. Mas quando um dos caminhões despejou sua quota de imundícies, surgiu entre os entulhos o inacreditável. Naquele dia, enquanto desviava os olhos assustados, Zélia soube que não tardaria sua ida. Ao engravidar, tomou a decisão de, enfim, ir embora daquele lugar de muitas chegadas, algumas partidas e desejo nulo de voltar. Foi costurar com a filha para depois se encontrar na arte de embutir peças. Ou pedras.

Em 2010, quando o programa Bolsa Família ofertou aos seus beneficiários o curso de mosaico, Zélia descobriu-se em cada corte da turquês de Marta Arruda, a “artista-soldadora” e professora do curso. Para a artista em ebulição, era tempo de dificuldades e de pedaços de cerâmica a alinhar. Hoje, quando aparecem interessados, a professora responde por Zélia Nogueira, que embeleza os espaços públicos arapiraquenses com suas obras. Há porções de Zélia em alguns cantos da cidade, como no gabinete da prefeitura de Arapiraca e no Palácio do Planalto, em Brasília. Por lá, uma tulipa floresceu, como a “Santa Ceia” entre os pertences de Marta.

Embora faltem peças de sua autoria entre os cômodos de sua própria casa, Zélia e os filhos sabem, no fundo, que o mosaico mais importante está completo e presente: o da família. Na verdade, na casa de Zélia não falta nada. Como todo bom mosaicista, ela sabe em que lugar cada peça deve estar. E não estar.

Glória Damasceno

É uma das, muitas!, pessoas que não está na deselegante lista das 100 personalidades mais influentes do mundo, segundo a Forbes. Outro dia sonhou que era esposa do Jon Bon Jovi e acredita que isso é prenúncio para essa vida, ou para a próxima. Sabe-se lá. Escreve também, quando quer, no blog Apenas uma Fresta.

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