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Esta é a imagem-síntese da história de Marina Oliveira de Souza. A mais de uma década, ela abre a janela do barraco onde mora pra Liberdade. O monumento de bronze, uma réplica da estátua símbolo dos Estados Unidos, carrega consigo a contradição da sua vida. Repousando sobre um pedestal, bem ali, em frente ao imponente prédio que abriga o Museu da Imagem e do Som (Misa), desde a década de 1990 a figura acompanha indiferente o drama das famílias que residem na comunidade pesqueira de Jaraguá. A oposição entre a liberdade versus a coerção serve como alegoria para o conflito travado entre os moradores da Vila e a municipalidade. Isto é, a permanência versus a remoção. “Uma ironia do destino”, observa Marina.

A dama da liberdade é a primeira imagem que Marina se depara, todas as manhãs, quando coloca os pés fora de casa. Moradora da Vila há mais de três décadas, a marisqueira de 40 anos de idade fala sobre passado e futuro demarcando a sua existência no tempo. “Dos meus nove anos pra trás eu não tinha história.” Foi nessa idade em que chegou a Vila dos Pescadores trazida pelo seu pai, o pescador hoje aposentado Dioclécio, 74.

Antes de fixar residência em Maceió, a família Oliveira de Souza vivia no Rio Grande do Norte. Dioclécio veio para cá a convite do seu irmão. Na bagagem, além de alguns trapos, levava o sonho de uma vida melhor para sua esposa e seus filhos – um garoto e cinco meninas. O mar, segundo Marina, foi bom pro seu pai. Assim como recompensa a todos da comunidade que daquelas águas tiram o sustento.

Nick, o vira-lata, é o primeiro a recepcionar os visitantes. No barraco de somente um vão, cuja cortina separa a sala,  a cozinha e os dois quartos, Marina vive ao lado dos seus três filhos e do marido, o pescador Adalberon, mais conhecido como Dal. A família tem o luxo de ter um banheiro com sanitário e chuveiro. Luxo, pois a regra é os moradores fazerem suas necessidades em saquinhos ou dentro de garrafas pet, que são jogados na lixeira.

Numa das paredes, está pendurado o tripé da sua existência: a foto de Vitória, embarcação do marido; os retratos de Marina e dos seus filhos – Adriele, 19, e Adriel, 16 –, cada um segurando o canudo que contém o diploma da sua respectiva formação escolar; e o símbolo do Flamengo, time no qual o caçula, Adrian, de 10 anos, sonha vestir a camisa. “A minha vida foi construída aqui”, afirma a marisqueira, “Pra gente não existia o mundo lá fora. Eu acho injusto quererem nos tirar daqui, do nosso convívio”.

Desde 2004, Marina é um desassossego só. Foi naquele ano em que o embate entre municipalidade e os moradores da Vila se instalou. O conceito abstrato de liberdade nunca foi tão concreto em sua vida como agora.

É preciso também enfrentar, diariamente, o olhar insensível e deturpado “dos de fora” sobre os Filhos da Vila. “A gente fica magoado com o que ouve, porque eles só nos conhecem pela mídia e pela aparência do barraco”.

“Certa vez, um superintendente municipal declarou que as mulheres daqui só sabiam fazer criança”, desabafa ela, como quem esperou uma vida inteira para dizer o que está por vir: “Minha filha mais velha estuda Ciência Contábeis e tem seu emprego com carteira assinada, assim como eu tenho o meu. Meu marido é um trabalhador, e meus dois filhos estudam”. Marina relata as conquistas de sua família para desfazer preconceitos. Antes de encerrar a conversa, com a voz tímida, tal qual se fala uma confidência, me relevou: “Por incrível que pareça, minha filha de 19 anos ainda é virgem”.

A história de Marina Oliveira de Souza é, na verdade, a imagem-síntese da resistência. Deveras superior em significados do que a imponente dama da liberdade, que jaz enferrujada, bem ali, enquanto assiste impassível o drama da vida dos homens e das mulheres que fazem a comunidade pesqueira do bairro de Jaraguá.

AS IRMÃS
Vizinho da moradia de Marina fica o barracão em que residem suas duas irmãs, Francinete, 42, e Francineide, 36. Bastou à reportagem se aproximar para que Neide desatasse a contar o que há muito precisava ser dito. “Vivemos numa situação que não é como o povo fala”, diz a marisqueira, “Eu convido a qualquer um conhecer a verdadeira história da Vila. Esse aspecto tão feio que ela tem é culpa do poder público”.

Casada e mãe de dois meninos, Francineide se vê perplexa ao tentar compreender o porquê de a opinião pública manter-se presa a ideia de que os apartamentos doados pela Prefeitura representam o sonho de uma vida para todos os moradores da Vila.

Segundo ela, o projeto mais recente divulgado pela atual gestão municipal tem a pretensão de transformar a Vila em um Centro Pesqueiro. Neide, assim como é mais conhecida pelos amigos, parece duvidar do compromisso do órgão em cumprir tudo o que está expresso no papel. O receio vem de longa data. “Existiu o projeto Pascoal, que visava à revitalização daqui. Os moradores foram transferidos para o conjunto Carminha e nada foi feito na Vila. Além do que, lugar de pescador não é no Benedito Bentes”.

Neide, da mesma forma que suas irmãs, acredita que ao longo dos anos ocorreu um processo intencional de favelização da comunidade. Um exemplo disso, diz ela, foi o programa de reurbanização da orla, cujas obras não se estenderam a comunidade.

“Se a gente sair, quem vai tomar conta das embarcações durante um temporal? Nós sabemos que o mês de agosto é de temporal. De uma hora pra outra o tempo se forma e daqui que a gente saia dos apartamentos e chegue aqui, o barco já tem se acabado. E o prejuízo, quem é que vai pagar? Eles dizem que se sairmos daqui irão fazer os depósitos. Mas quem vai garantir se não vão engavetar, assim como fizeram com o projeto Pascal?”, questiona.

Francinete ouvia atenta tudo o que a irmã tinha a dizer. E quando decidiu falar, reafirmou uma certeza: “A vila é tudo pra mim. Principalmente, pra minha família que criei aqui dentro. Eu não me vejo fora daqui. Todos os dias o barco sai pra pescar. Quando chega, tenho o meu ganha pão.” Mãe de quatro filhos e avó de dois netos, as raízes da marisqueira são profundas.

— O tudo a que me referi agora a pouco é isto, ó: — neste momento, Francinete apontou ao seu redor, repousando o olhar por um instante em direção a réplica da estátua da Liberdade, sem notar a ironia que resultou de tal gesto, e repetiu: “Tudo isso!”

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Francisco Ribeiro

É jornalista. E-mail: chicoribeiro@msn.com

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