É assustador perceber que somos finitos. Mais assustador ainda é saber que alguns veem nesse destino a única salvação para suas vidas. Uma espécie de vida através da morte.  Ninguém se desapega da vida de forma natural, ninguém parece conformado com essa perspectiva, com a possibilidade de dormir e não mais acordar ou quem sabe sair na rua e não saber se vai voltar pra casa. Alguns preferem não falar, outros têm medo, quase ninguém a admite como um processo natural da vida. Mas nada me surpreende mais que os idosos, em especial, alguns que desejam de forma muito íntima que suas horas sejam abreviadas.

– Dona Tereza, o que é envelhecer?

–  É uma angústia, um nó no peito, não sei bem explicar….

– A senhora é feliz?

– Sou, tenho que dizer que sou. Com 90 anos de idade não me restam muitas coisas, então ainda posso mentir que sou feliz.

– A senhora tem sonhos?

– Tenho não minha filha! Já passei dessa fase faz tempo…

– E medo da morte?

– Medo nenhum. Quero mais é que Deus se lembre de mim e me leve logo desse mundo.

Tereza Barbosa nasceu na praia de Boa Viagem. Em 1930 começava sua vida, ao lado de seus 3 irmãos, filhos de pai carpinteiro e mãe costureira. Era uma moça jovem, loira, de olhos azuis, que cabe perfeitamente na canção do poeta pernambucano Alceu Valença: Eu lembro da moça bonita da praia de boa viagem, a moça no meio da tarde de um domingo azul, azul era a belle de jour, era a bela da tarde…

Desde cedo aprendeu o ofício materno.  Era uma moça cheia de sonhos, sempre desejou ter sua própria família. E aos 20 anos de idade conheceu aquele que seria seu marido e veio com ele para Maceió. Teve dois filhos. Eduardo e Paulo.

Na capital alagoana, continuou trabalhando como costureira, trabalhando muito, na tentativa de dar uma vida digna para seu seus filhos. Fato que lhe rendeu problemas de coluna e uma aposentadoria por invalidez aos 40 anos de idade. Para o Estado era considerada inválida e por um bom tempo Tereza se sentiu assim. Inadequada, ainda jovem, mas sem um lugar no mundo.

A doença fez o espírito jovem e sonhador de Tereza se sentir menor. Ainda mais quando 10 anos depois seu companheiro morreu. Morte prematura, morte dolorida, daquelas que deixa a vida menos doce. Foi a segunda vez que Tereza lidou com a morte tão de perto, tristeza igual só sentiu quando seus pais foram embora.

Ainda tinha seus filhos e por eles iria viver. Eduardo se formou engenheiro e Paulo, dentista. “Eu tinha conseguido encaminhar bem os meninos, eles eram tudo pra mim, só queria que eles fossem felizes”, diz Tereza com um sorriso no rosto.

Paulo foi morar em São Paulo e Eduardo tinha ficado em Maceió. Tereza morou com Eduardo e a nora por um bom tempo, até que a terceira “morte” a atingiu. Teve um derrame que lhe roubou os movimentos das mãos e dos pés. Agora tinha uma alma presa a um corpo inerte. Além da doença, a velhice também chegou para Tereza. Seu rosto foi adquirindo cada vez mais cavidades e entradas. Os cabelos iam ficando brancos e apareciam a cada ano no mês de dezembro.

A vida ia ficando mais difícil. Todas as atividades básicas que costumava fazer com rapidez foram ficando cada vez mais penosas. Não podia comer sozinha, nem tomar banho e nem andar. Cansada de dar trabalho para seu filho, decidiu que era hora de partir. Iria para um abrigo.

A princípio seu filho não concordou, mas Tereza o convenceu que ele precisava viver a vida dele e que no abrigo iria ficar bem, teria alguém que cuidasse dela. Eduardo iria embora para Recife e Tereza achou melhor partir porque não queria dar trabalho e morria de medo de morar em apartamento. “Aquelas casinhas, uma em cima da outra, tão alto, tenho muito medo. E se cair?”, diz bem humorada.

Hoje, com 90 anos, Dona Tereza não tem mais sonhos, nem saúde. Vive em um abrigo, junto a outras senhoras. Umas mais moças, outras mais velhas, outras que não aguentaram esse mundo e sucumbiram à loucura, outras nem sequer sabem que ainda vivem, parecem à espera da morte com o olhar perdido no horizonte.

Tudo ali tem aquele cheiro característico dos idosos, tudo ali cheira a saudade, a tempo, a lembranças. Cada pedaço daquela casa traz alegria e tristeza em suas paredes. Cada olhar traz uma história. Tereza é mais um pedaço de solidão. Ela é mais uma. Como cada uma daquelas doces meninas. Todas já passaram dos 80. Algumas nem lembram mais quem são e nem qual seu lugar no mundo. Outras sabem no que acreditar, para elas ter fé é como um coringa, uma sorte, um privilégio.

Dona Margarida, Maria das Neves e Sandra são só algumas protagonistas dessa história. Cada uma com o rosto enrugado e com alma de menina. São mulheres que só procuram uma coisa: amor e carinho. Fazem festa quando chega visita, pedem abraço e afeto e uns minutos de atenção.

Entre elas ainda existe lucidez, mas nenhum apego à vida. Nem esperança. Seus mundos se resumem a esperar que a doce morte as levasse. Para elas, não é possível outra vida. É tudo uma espera, pelo momento em que seu dia chegará, onde a amarga morte as alcançaria com compaixão.

Ana Cecília da Silva

Ela não sabe chutar uma bola e era sempre eliminada nas olimpíadas de matemática na escola. O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar histórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília escreve também no jornalistaeprafalarmal.blogspot.com.br.

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