QUARTO

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

“O que vem à cabeça primeiro: a palavra ou a imagem?” Yanna Lílian de Amorim Neto (30), artista plástica natural da “capital do agreste” alagoano, Arapiraca, tomou do tempo dois goles de segundo e entre as paredes amarelas de seu quarto respondeu num trago efêmero, como as asas que povoam suas criações: “a palavra”.

Depois bebericou mais uma molécula de minuto e afirmou que a Yanna que escreve, não é a mesma que suja os dedos de tinta acrílica e narra entre pinceladas de cores primárias e secundárias o caos de seus sentimentos nas telas que já ganharam vida, ali, em frente à paisagem de concreto de sua janela particular, isto sem contar com os esboços que nunca saíram da folha de papel e morreram por falência múltipla da vontade humana, antes mesmo de se tornarem visíveis aos olhos dos outros.

Além da tela, das tintas, de um copo com água e de paciência, a jovem artista plástica também conta com a companhia da Morena, uma cachorrinha vira-lata, eternizada em uma de suas criações, atualmente [abril de 2016] em exposição na Casa de Cultura arapiraquense. Certa vez, ao cafungar um gato envenenado – infelizmente é uma prática comum entre vizinhos de Yanna – Morena também se envenenou. ”Eu pensei que ela fosse morrer. Mas meu pai [técnico-veterinário] aplicou uma injeção nela”, conta, ainda, em tom de pesar. Aquele episódio deixou sequelas.

Yanna, quando criança, gostava de capturar borboletas e aprisioná-las na geladeira. Ela não queria bonecas. Queria borboletas. Gostava de admirá-las congeladas. Depois dizia: “Poxa! Por que eu fiz isso?” e lamentava tardiamente. Era uma vez. Para além da morbidez da ação e de uma leitura superficial do fato, essa era a metáfora do íntimo desejo de Yanna aos 8 anos de idade. As borboletas representavam a liberdade que ela não tinha; os lugares em que ela queria estar e não podia, porque, sobretudo, não havia essas ruas para transitar em seu metro quadrado de cidade. “Eu sempre tive a sensação de que eu não estava no lugar certo.”

Contraditoriamente, Yanna era uma colecionadora de liberdades inalcançáveis, não só porque, na época, seus braços de menina eram curtos demais, como também porque, como no poema “Pássaro Azul” do escritor alemão Charles Bukowski, ela estava presa à gaiola de sua realidade. Yanna é a borboleta azul aprisionada em seu próprio coração, mas, como diria Bukowski, ela é demasiado dura para ele.

Formada em Letras pela Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), durante algum tempo morou com a avó. Na figura dela, encontrou o conforto e o carinho que buscava durante a confusa e incompreensível adolescência. Além de Yanna, Ítala e Irlane também ocupam os espaços de afeto na casa de Dona Alaíde.

Aos 14, estudou na Escola Estadual Profº José Quintela Cavalcante e nessa época Yanna gostava de química, de cálculos, de competir pelo puro prazer da disputa, para ver quem acertava mais questões e, em especial, que tipo de ligações carbônicas eram aquelas interrogadas nas atividades e nas provas bimestrais.

Além disso, sempre foi apaixonada pelo cinema e como tantas pinturas, tem em mente a ideia de um curta-metragem. Mas isso ainda é esboço. “Às vezes, eu vejo tudo como um filme, como uma série.” Isto é, os arredores como uma tela que pode ser acrílica ou em pixel.

Aos 16, chegou à Escola Estadual Senador Rui Palmeira- Premem. Nesta fase significante de sua vida, Yanna encontrou no grupo de arte formado pela professora de Literatura, Eliane Barros, o refúgio para a tormenta que já se precipitava em sua cabeça. Yanna também fez parte do grupo de teatro do colégio para aplacar a timidez. “Eu sempre tive essa agonia dentro de mim. Uma vontade de estar em outro mundo e, às vezes, é só tédio.” Yanna lia muito e continua lendo. Mas depois, já na faculdade, apaixonou-se pelo surrealismo do pintor espanhol Salvador Dalí e pela inconfundível artista mexicana Frida Kahlo. “O mundo exterior como um ator num palco: está lá, mas é outra coisa”, concluiria Pessoa.

Boa parte de seu tempo, antes dedicado exclusivamente à leitura, agora na fase adulta, divide-se com a tarefa de jogar na tela tudo o que absorve de suas viagens entre as páginas de Jean-Paul Sartre, Fernando Pessoa, Charles Bukowski, dentre outros grandes nomes da filosofia e da literatura.

“Quando eu estou com muito tédio me chateio e quando eu me chateio, acabo pintando. Nunca é porque eu estou alegre. É sempre pelo tédio ou por algo que eu vi e não posso transformar”, declara entre pausas e olhar absorto, enquanto as canções de Nando Reis a tomam pela garganta e ajudam a responder as perguntas sobre alguns de seus próprios questionamentos.

As injustiças do mundo inflamam suas mãos, então ela pinta, faz delas uma tela, um porém; e então Yanna extravasa toda a sua inquietude e indignação para que o termômetro das tuas convicções não a carbonize por dentro a temperaturas de cinza e pó.

Aos 20, a relação com a mãe era difícil, talvez porque Yanna fosse muito introspectiva. Ela sequer gostava das pessoas a fitando. Mas o amadurecimento tornou as coisas amigáveis também com o pai. “A gente não conversava. Era uma relação fria, estranha, distante.”

Aos 21, Yanna começou a ensinar em escolas públicas e muitas vezes era uma espécie de “psicóloga” para seus alunos, tão atordoados com as variantes do universo quanto ela já foi um dia. Notou que havia espanto em seus adolescentes, porque não foi a típica professora de artes que levava palito de picolé para emoldurar folhas sem pauta. Yanna os instigava a produzir, a pensar, a incomodar-se. “A arte tem que despertar em você alguma coisa de boa ou de ruim.” Mas passado algum tempo, entregou o cargo. O cansaço do dia a dia minguava cada vez mais suas forças. Ela já não conseguia mais sequer rabiscar e em um momento de decisão, escolheu fazer o que suas mãos nos narram em curvas e traços acrílicos, apesar de tudo: recusa e incompreensão dos familiares e pouco reconhecimento de uma maneira geral.

Contudo, Yanna, aos 30, busca tornar menos tela e mais real o seu lugar no mundo. Almeja voos que ultrapassem os céus à tinta óleo e prepara suas asas em processo de degelo, como as borboletas da geladeira. A poesia, na vida de Yanna Lílian, sempre oscilou entre um lago mesclado à sangue e um sopro na pele, às vezes ferida, e não há de se admirar que em um desses sopros ela voe para longe, onde sequer os sonhos de Dali alcançam. Como uma vez um amigo lhe disse, “Yanna ainda não pinta o que ela quer. Ela ainda não é o que é”.