dezembro 2015

Os gêmeos de Francisco

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

Os gêmeos Rafael e Gabriel são os primogênitos do jovem casal Francisco Silva Monteiro (31) e Tatiana de Souza Melo (21). Além dos gêmeos, duas meninas completam também as fotos de álbum de família. Elas são Gabriela (5) e Cássia (3 meses). Gabi foi a única que herdou a pigmentação negra do pai e Cássia é uma bebê esculpida de dobrinhas e branquinha, como a mãe e os irmãos.

Filhos de um óvulo só, quando Rafael e Gabriel vieram ao mundo em outubro de 2007, os médicos da maternidade Nossa Senhora do Bom Conselho, em Arapiraca, cidade ao centro do mapa de Alagoas, não imaginavam que eles estariam vivos para protagonizar a história de dificuldades e conquistas de duas crianças com deficiência visual. Hoje quem narra a prosa dos dois filhos de Francisco – além dos pais, professores e pessoas de solidariedade – sabem que o que se vê da vida vai além da formação da imagem na retina. Rafael e Gabriel ensinam cotidianamente que para estar no mundo é preciso enxergar, isto é, ver o que está por trás, nas entrelinhas, no íntimo enfim, ainda que sob o manto monocromático do olhar e da imaginação, mas também ouvir, tatear o que nos toca com a ponta dos dedos ou com cada músculo do corpo; sentir el olor das coisas e do que não são coisas em nós.

Francisco, pai dos meninos, é um homem inteligente que não teve oportunidade de alcançar o degrau da graduação. Estudou até o ensino médio completo, mas logo depois “se danou” no mundo a trabalhar. Aos 18 anos, foi a São Paulo em busca de um emprego. Ficou por lá 2 anos. Já trabalhou de vigilante, de servente de pedreiro, de garçom – na empresa multinacional de fast food McDonald’s – e há sete anos o esguio pai de Rafael e Gabriel é dedicação exclusiva da família que construiu ao lado de Tatiana.

As árvores genealógicas de ambos são de povoados do município de São José da Tapera, no alto Sertão alagoano. Francisco é o filho do meio. Tatiana, uma das três mulheres de uma prole de seis irmãos, estudou só até a 3ª série. Conheceu o marido em uma destas casualidades de domingo, quando Francisco foi à casa da irmã dele jogar dominó. Ganhou, além de algumas partidas, o coração da mãe de seus filhos. Tímida ao ponto de mal falar, e quando fala quase não é ouvida por ser a palavra murmúrio, Tatiana era adolescente quando decidiu ficar com Francisco seis meses depois que se conheceram. Pelas contas dos dois, estão em “união estável” há nove anos.

A luta diária do casal é para cuidar dos gêmeos. O dia divide-se em dois turnos: quando os garotos estão na escola (tempo de por a casa em ordem e descansar corpo e incertezas do futuro de cada segundo) e quando eles estão entre os parcos móveis da casa doada pelo pai de Francisco. Às vezes, o casal sente-se preso às paredes esverdeadas de onde vive para os filhos. Às vezes também choram por ser a vida vez ou outra tão incolor. Francisco, mais do que ninguém, sabe o quanto pesa para um corpo afilado como o dele a responsabilidade de viver, sem intervalos, para outra pessoa. Ou, melhor, para duas outras pessoas.

Os meninos nasceram prematuros de 6 meses e passaram os 2 meses seguintes na incubadora. Segundo o pai, a falta de oxigenação cerebral, durante o tempo em que ficaram hospitalizados, foi a causa da cegueira dos meninos, que só veio ser notada por uma madrinha, quando eles já tinham 1 ano de idade. À época, Francisco tinha acabado de viajar novamente a São Paulo na tentativa de garantir o sustento da família. Mas ao receber a ligação incrédula, largou tudo e voltou para ser ele, também, os olhos dos filhos. Hoje vivem de um benefício de seguridade social, uma vez que não há condição de trabalhar e cuidar dos meninos ao mesmo tempo.

Ao longo do pós-parto de Tatiana, somente Francisco foi visitá-los três vezes por semana. Os familiares da esposa nunca souberam se o caminho do hospital era de barro ou de asfalto. E não por falta de comunicado (ou bússola), como acrescentou Francisco ao ver a esposa chorar tristeza. Por ser Tatiana quase sempre silêncio, é significativo que seja ela lágrima exposta ao não conseguir falar sobre o que ela não soube, ou conseguiu, chamar de… “Abandono”, como nomeou o esposo. A direção do hospital chegou a questionar a ausência dos parentes e também a sugerir o uso da via jurídica para que Tatiana não tivesse apenas Francisco como visita, mas ele foi claro: “Pra ter consciência não é preciso forçar ninguém a nada.”.

A primeira vez que os olhos de Francisco encontraram os corpinhos dos meninos, revestidos de agulhas, foi inesquecível. Até então, os olhos de Rafael e Gabriel eram cortinas sem movimento. Mas quando Francisco repousou sobre eles o olhar de pai, os gêmeos elevaram os cílios e, como quem decide ali – naquele momento onde vida é decisão – que viveriam por aqueles olhos também. Com o passar dos dias, ganharam peso e alta.

Francisco é grato a todos os médicos, enfermeiras, amigos, familiares, ao ex-prefeito de São José da Tapera, Zé Antônio, por ter liberado à época a compra do leite dos meninos, e, sobretudo, a quem é para os gêmeos uma segunda mãe: a incansável Eliana Ricardo Gomes, carinhosamente chamada de Totinha.

Eliana, a professora-mãe

Se o coração de uma pessoa fosse proporcional à estatura, Eliana (41), mulher pequena, seria injustiçada em praça pública. Totinha é de uma grandeza que não se mede nem mesmo com a maior das fitas métricas cardíacas de alguém.

Paranaense de nascimento, é casada há 10 anos, irmã de seis irmãos e tem dois filhos: a Mariana (4) e o Arthur (7). É professora da sala-de-recurso da escola Elisabeth Jacoba Maria Borges – onde os gêmeos estudam desde os 4 anos de idade – em São José da Tapera. Rafael e Gabriel não são as únicas crianças com necessidades especiais do colégio. Pelos cálculos de Totinha, há no município de Tapera cerca de 300 alunos com alguma deficiência física ou intelectual. Considera a escola bem equipada para atender às necessidades de aprendizagem das crianças especiais. De acordo com Eliana, o governo federal enviou as ferramentas de trabalho solicitadas, mas as professoras ainda não fizeram o curso de braile para dar início a uma nova etapa no ensino.

Eliana, no entanto, não é só pedagoga. Totinha é uma professora-mãe e isso tem feito toda a diferença na evolução gradual dos gêmeos que a reconhecem em outros sentidos da vida, como o da audição. Rafael e Gabriel hoje sabem quando é de Eliana a voz que anuncia mais um dia do que ela chama de “estimulação precoce” – método de ensino que tem o papel de inserir socialmente o aluno com deficiência especial ao cotidiano, ajudando a despertá-lo para os “quês” e os “quens” ao redor. “Eu cuido deles como se fossem meus filhos”, afirma emocionada.

Uma professora de sala-de-aula regular, de acordo com avaliação de Totinha, não tem tempo de trabalhar, por exemplo, noções de quente/frio, macio/áspero, dentre outras composições materiais e psicológicas de mundo. A pedagoga considera que os meninos, queridos pelos coleguinhas de classe, evoluíram bastante. Quando eles chegaram à escola mal falavam, embora o que falem hoje seja, muitas vezes, aleatório ou repetição da fala de alguém. Às vezes, até cantam música de rádio. A pouca coordenação motora deles é considerada igualmente evolução.

Chama a atenção de Eliana como os gêmeos definem uma menina como “bonita”. Ela reparou que se os cabelos forem longos e o perfume inebriar o olfato, Rafael e Gabriel não querem saber de outra coisa, senão de tocar o rosto, talvez, na tentativa um tanto inconsciente de aprender do que mais é feito alguém “bonito”, além de fios de couro cabeludo quilométrico e cheiro bom. Totinha considera necessário que os meninos sejam acompanhados por um profissional de fonoaudiologia para que desenvolvam melhor a fala evoluída, mas ainda debilitada.

A carga horária de Eliana é de quatro horas semanais, divididas em dois dias, mas ela gosta tanto do que faz, que acompanha os meninos de segunda a sexta-feira, mesmo que neste ano tenha chegado reforço: mais duas cuidadoras executam a tarefa de vencer os desafios da educação especial.

E tão especial quanto o que Eliana faz, é o motivo pelo qual faz. Em outubro de 2002, um dos irmãos dela, Adriano, foi vítima de um assalto na estrada, quando retornava para casa com a esposa. O som do carro estava alto o suficiente para Adriano não escutar o anúncio do infortúnio. A bala, que ainda está alojada na medula do irmão, uma vez que sua retirada não vai lhe trazer de volta o movimento dos membros inferiores, foi o início do pranto que até hoje umedece o rosto ruborizado e as mãos de Totinha. Ela encontrou na educação especial o refúgio para abrigar a esperança de ver o irmão andar de novo. E compreende que Adriano avivou a capacidade de ser sensível ao outro. “Agora, quando eu chego em um lugar, eu vejo logo a questão da acessibilidade.” Como nunca antes, acessibilidade é uma palavra que completa as frases de Eliana.

Os gêmeos de Francisco mal escutam as vogais e consoantes que compõe “escola” para que pela manhã tenham os pés no chão. Fralda, roupa, lanche são também responsabilidades que a escola Elisabeth Jacoba Maria Borges abraçou junto aos pais, para além da obrigatoriedade.

Para Eliana, realização de professor “é ver o aluno lendo.” Conta que a primeira turma na qual ministrou aula, dos 37 alunos, somente dois não liam. E há um todavia que explica: as crianças tinham problemas de saúde que impediam o avanço na descoberta das letras.

Depois que conheceu os meninos, a professora-mãe afirma que são eles “a lição de vida”. A interrogação do dever-de-casa fica para o pai dos gêmeos: “às vezes penso: será que esses meninos vão fazer uma faculdade? Ter uma profissão?” A resposta vem em forma de desejo: “Meu sonho é esse.” Os dois filhos de Francisco resignificaram a paleta de cores de quem os enxerga livres das convenções do dicionário. O lado bonito da vida também é escuro.

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

Joana Maria de Lima, o cordão umbilical entre a vida e o mundo

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

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Joana Maria de Lima veio ao mundo para extrair da força dos braços a vida. Em agosto deste ano (2015), a chefe de parteira, lendária do município de São José da Tapera, alto sertão de Alagoas, completou 90 anos de idade. Há apenas oito tinha deixado o ofício. A vida de Dona Joaninha, como é conhecida, não teve sossego um só dia, enquanto velhice era futuro distante. Mas até o último novembro, que devir era presente, Joaninha via os dias nascerem entre os espaços de algumas telhas, as frestas da janela da sala e a porta, quando aberta.

“Não dormia um sono”. Chegava em casa, tomava um banho e partia rumo às contrações do útero, onde quer que elas estivessem. Também não importava como chegaria. “Onde entrava carro, era carro. Onde entrava cavalo, era cavalo.” Em virtude dessas andanças, herdou da disposição e da coragem juvenil algumas quedas. Amargava também problemas nas articulações e algumas dores de cabeça. Às vezes, as mulheres chegavam a sua porta. Não dava tempo de levar ao hospital e ali mesmo, depois de forrar o tapete, o rebento nascia.

Mas tantos tombos, e cansaço, eram recompensados quando no peito de suas mãos batia um coração feito de pequenezas, como é o corpinho de um recém-nascido. Afirmava nunca ter tido a tristeza de fechar os olhos de uma mãe ou de um filho. As mãos de Joana Maria de Lima deram à luz ao nascimento. Unicamente.

Nascida em 1925 na cidade de Custódia, localizada no estado de Pernambuco, Dona Joaninha – morena baixinha – veio parar nas casas de taipa taperenses por intermédio de um cunhado. Era a mais velha dos cinco irmãos. Desses, apenas uma irmã está viva para contar o que fez da vida, como Joana Maria nos legou sua história de plena simplicidade e sabedoria. E Joaninha fez tanto que, segundo ela, buscaram-na para salvar as gestantes alagoanas.

“As parteiras (de São José da Tapera) estavam (à época) matando muitas mulheres, porque passava da hora da criança nascer”, explicava o motivo dos óbitos. E conclui dizendo que apesar de ser bem-quista e respeitada pela comunidade médica do sertão, ela era motivo de muita inveja entre as parteiras nativas de Tapera. Todas, de sua Era, já morreram.

Por ironia do destino, Joana Maria morava ao lado da igreja da senhora que tudo lhe ensinou – em uma casinha pequena onde vivia com uma nora e alguns netos. Quando chegou à Tapera, sua casa era de aluguel.

O ofício do parto, na contramão das expectativas, não foi ensinado pela mãe, que também era chefe de parteira e dizia antes de morrer que não queria ver a filha seguir os passos de suas mãos. Aos 14 anos e 3 dias de casada, Dona Joaninha fez o primeiro parto de um número que sequer a lucidez das lembranças permitia contar com exatidão. “E quem conta?” indagava-se sorrindo.

Mas se recordava bem do dia em que chegou uma mulher a sua casa passando mal. Estava prestes a parir. “Quem me conduziu (no parto) não era gente desta terra”, falava com naturalidade. E com a mesma tranquilidade anunciava de que terras vinha a senhora que lhe guiou até o último nascimento de seu ofício: “Era Nossa Senhora do Céu.”

O coração de Dona Joaninha disparou. “Nossa senhora do Bom Parto disse que ia me ensinar, porque eu era muito sabida e que ia me acompanhar até quando Deus quiser.” Joana Maria de Lima morava em Custódia, quando “Nossa Senhora Parteira do Céu” sentenciou a vida dela. “Aí ela (a santa) clareou o quarto, conversou foi muito mais eu.” Contudo, de acordo com Dona Joaninha, Nossa Senhora do Bom Parto lhe pediu apenas uma coisa: que não dissesse a ninguém o que conversavam. Era proibido. E o que fora proibido, sempre será.

Antes de cada nascimento, Dona Joaninha fazia uma oração especial – as penitências de Nossa Senhora Parteira do Céu. Todo o procedimento era feito com luva. E afirmava: “Nunca recebi um tostão. Vivi, e vivo até hoje, dos poderes de Deus.” A sua casa, chegava “galinha, farinha… A feira toda!” Quem quisesse lhe dar “um agrado”, ela recebia. Mas nunca cobrou nada. “É ofício da parteira não cobrar.”

Da vida reclamava, além das dores da idade, a crueza do esquecimento: “Eu pensava que quando eu adoecesse, eu seria acolhida, já que cuidei do mundo.” Joana Maria de Lima sentia-se esquecida, ainda que tenha feito parte de um momento marcante da vida de tanta gente.

Também não sabia dizer “quanto” estudou, mas sabe que foi pouco. “O povo não deixava”, atestava achando graça. Dona Joaninha era bem-humorada. Dos 6 filhos que teve, apenas dois não nasceram das mãos da mãe de Joana Maria. Nasceram das suas próprias mãos. “As mulheres tudo chorando, sem saber o que fazer (nos dias dos nascimentos). Eu disse: chega pra lá! Deixe eu ter sozinha…” Sozinha teve e sozinha terminou de criar as crianças.

O marido morreu há mais de 30 anos. Mesmo contrariada, casou com ele depois de três meses de namoro. “Ômi, eu me casei, porque a sorte veio pra eu me casar. Mas eu não queria, não.” Contudo, todo mundo dizia que o futuro esposo era um “rapaz direito”. Aos 89 anos, ela assegurava que o marido era bom. “Ele nunca me judiou.” Apesar dele ter tido o defeito de “raparigar”, ela sentia saudade e vagueava de sua cadeira de balanço, na sala de estar, e não-estar, olhares absortos pela porta escancarada. Há pessoas de entranhas. Inesquecíveis, como o esposo para ela. E ela para uma geração inteira.

Joana Maria de Lima há aproximadamente 20 dias, por curso natural de tudo que finda, fechou o único par de olhos de sua história: os seus. A suposição ausente de dúvidas é de que ela, enfim, esteja ao lado de quem tudo lhe ensinou, Nossa Senhora Parteira do Céu.