agosto 2015

Mile

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

 

Ela, há cerca de um ano, vive batendo a cabeça dura nas paredes e nos móveis da casa, como muitos de nós quando em estado de ira máxima chuta uma cadeira aqui, a perna do sofá acolá.  Vai-se a raiva inerente ao momento, ficam os estilhaços de vidro pelo chão, as dores da alma e os machucões nos dedões dos pés e nas falanges das mãos.

A velhice chegou para Mile, hoje com 16 anos. Além de ter um sopro no coração, que a livra de cortar as unhas e tomar banho com a frequência do “dever ser”, uma vez que essas tarefas a estressam muito, e é aconselhável evitar que ela ponha-se em nervosismo, Mile também sofre de catarata, razão dos tombos introdutórios desta narrativa. E motivo de seus passos limitados, quase que em câmera lenta. Como se não bastasse, ela conta ainda em seu prontuário médico com uma artrite – inflamação nas articulações dos ossos. Mais um “quê” do porquê de passos tão debilitados.  Mas Mile é valente… Em todos os sentidos.

Não só tem a coragem para seguir caminhando pela cozinha, e seus arredores, como não permite que ninguém a toque. Quando isso acontece, é um Deus nos acuda! Dona Rosa, empregada doméstica da casa, sempre amarra uns panos nos braços ao ter que pegá-la para dar banho, caso contrário, Mile trata de deixar algumas mordidas como marca de sua resistência e… Gênio difícil, por assim dizer.

A “brabeza” é tanta que se tornou uma de suas características fortes. Depois da solidão, não se fala em outra coisa em se tratando de Mile. Desde quando Amanda (21), filha de Tânia (50) e José Luiz (46), entendia-se por adolescente, que a cachorrinha é assim, “antissocial”, define. Ela e o irmão, João Victor (20), brincavam com Mile, mas nada de pegar, abraçar, sacudir… Triscar. A geniosa cachorrinha leva a cabo a filosofia de vida “cada um no seu quadrado”.

Com o passar dos anos, desaprendeu a fazer xixi no lugar certo. Faz na hora que é vontade, já que seus olhos não a guiariam a tempo de urinar no “banheiro improvisado”. Apesar do estresse de um tapete amarelado, todo mundo, no fundo, entende.

Quando Mile, ainda bebê, chegou à casa da família Nunes Farias, no tempo em que eles ainda viviam em São Luiz (MA), foi uma grande surpresa e motivo também de desaprovação por parte de Tânia, esposa de José Luiz. Ele a havia comprado no intuito de realizar um desejo antigo de menino: criar um animalzinho, coisa que sua mãe nunca deixou. Nem ela, nem a esposa, eram adeptas de criar bicho em casa, mas aí veio a Mile, e junto a ela na época, dois pássaros, para transformar o não em sim.

Para aplacar a solidão de Mile, e também lhe dar a possibilidade de ser mãe, Zé Luiz comprou um cachorrinho. Mas ela batia nele. Não quis saber do focinho, a raça. Então o cachorrinho foi vendido. Era ele ou Mile. Ficou Mile até hoje.

Fez de “seus filhotes” uns bonecos que certa vez a mãe de Zé Luiz levou para ela brincar. Como ela, as pelúcias também eram intocáveis. Ninguém podia pegar. Eram suas crias, quem cuidava era ela, como uma mãe protetora afinal.

“Ela é um membro da família. É a ‘ovelha negra’, mas tá ali”, brinca Amanda ao completar a fala dizendo que todo mundo que a conhece, conheceu com Mile, nome dado, inclusive, em razão da Chiquitita que pintava na TV sempre que se fazia noite na infância.

Amanda diz não saber como será, quando Mile não estiver mais ao pé da porta para fazer da vida que resta, e do tempo, espera e companhia. Só tem a certeza de que a ausência, e o silêncio de seus gritinhos famintos, será triste.

 

 

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

Neguinho, Barão de Jaraguá

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

FOTO: GLÓRIA DAMASCENO

Ao longo da rua Sá e Albuquerque, no Jaraguá, bairro arquitetado de lojas, armazéns, agências bancárias e casarões de Maceió, trabalha de um lado para o outro uma espécie de “relações públicas” da área. Em verdade, Neguinho, como é conhecido, é mais que um “RP”. José Carlos dos Santos (49) é o “faz-tudo” do bairro. É o homem de confiança de quem por ali transita nos últimos 38 anos.

Dizer que Neguinho é um “flanelinha” é insuficiente. Além de vigiar os carros que são estacionados sob os seus olhos atentos a quem chega e a quem sai, ele também enfrenta as filas de contas a pagar da “clientela”, por exemplo. Independente de ter uma gorjeta pelos favores prestados, Neguinho não é de negação, como afirmam alguns comerciantes do bairro. E como por ironia boba da linguagem, sugere as letras iniciais do apelido.

“Comecei a trabalhar quando tinha 12 anos. Carregava frete e carrinho de mão com a feira do pessoal”, conta sorrindo. Neguinho sorri muito. Franze a testa de alegria quase o tempo inteiro. E cumprimenta todo mundo que passa, buzina, encosta o carro, despende-se de mais um dia de trabalho. Neguinho é a personificação do letreiro de chegada, “bem-vindo (a)”, e de partida, “volte sempre”, das 6h40 da manhã até as 18h30 da noite.

Um dia, por indicação de uns amigos “gente boa”, ele trocou a rua Barão de Jaraguá pela Sá e Albuquerque. Disseram ao “faz-tudo” que lá era melhor. Dos quase 50 anos que completou este ano (2015), essa mudança foi uma das melhores coisas que lhe aconteceram. Na Sá e Albuquerque, ele fez amigos e constrói a vida. Quando chegou, não tinha ninguém para fazer o que hoje a cada esquina das cidades grandes alguém faz: tomar conta dos carros do pessoal em troca de moeda.

Neguinho, de coração astuto, “organizou a casa”. Em um trecho da extensa rua em que ele trabalha, “colocou” um irmão. Em outra rua paralela, pôs um amigo e em outra rua adjacente, outro parceiro. Dividiu o espaço para que não haja conflito e todo mundo saia ganhando, já que não falta carro para manter sob a mira o dia inteiro.

O retorno financeiro, conta, não é muito. “Mas dá para viver, ajudar minha mãe aposentada e o pessoal que eu amo.” O flanelinha afirma: “eu amo todo mundo”. A exemplo do sentimento do corpulento Neguinho, que anda num balançado de braços peculiar, no Natal ele costuma ganhar 12 cestas básicas de um “cliente”. Todos os anos, ele separa 4 para ele e o resto divide com os companheiros de ofício.

E, sim!, Neguinho é um flanelinha de clientela fidelizada. Há quem seja mensalista, quem o pague uma quantia já pré-estabelecida a cada 15 dias, fruto do cuidado que ele tem não só com o “quê”, mas também com o “quem” da mira. Se pinta um forasteiro na área, Neguinho aciona as antenas. Deixa todo mundo em estado de alerta!

Em uma aspa, o flanelinha abarca a relação que construiu com os transeuntes e trabalhadores de Jaraguá: “Às vezes, eu fico até triste quando o pessoal não vem, desaparece… Sempre conversam comigo, me dão valor. Se não fosse por eles, (eu) não tinha nada. Hoje tenho tudo… Tenho alegria!”

Natural da Barra de Santo Antônio, ele teve 5 irmãos. Dois já morreram. Dentre eles, a irmã mais velha que praticamente os criou depois que os pais separaram-se.  Aos 26, Neguinho perdeu o pai. Estudou até a 3ª série. Não deu para conciliar a escola e o trabalho. Então, optou pelos carrinhos de mão para ajudar na despesa de casa. A escola ficou para depois até hoje.

Em 1996, nasceu seu primeiro e único filho: o jovem Rodrigo José de 19 anos. “Meu sonho é dá uma casa pro meu filho. Depender dos outros é a pior coisa do mundo”, conclui Neguinho. Rodrigo vive na casa da sogra com a esposa. “Às vezes, quando meu filho liga para dizer que tá faltando uma coisa ou outra, bate uma tristeza…”. Mas, apesar desse sonho a ser realizado, e que vez em quando lhe rouba a alegria conquistada ao longo de muitos anos de trabalho duro, Neguinho, “vixi!”, adora viver. “Enquanto Deus quiser”, ele vai vivendo. E achando bom, como quando franze as marcas de expressão do rosto e solta um sorrisão sem jeito pra vida “boa aperreada”.