julho 2015

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Entre mortos e feridos

Antônio Alves da Silva conheceu a morte logo cedo, aos três anos. Ela não tinha um capuz preto cobrindo a tão imaginada forma esquelética, nem mesmo carregava uma foice. A morte chegou silenciosa, sem cheiro ou cor, deixando um rastro de mistério e saudade.

Pernambucanos, os Silva tiveram que se mudar para Alagoas após o óbito do pai de Antônio. Em Recife, Maria José, mãe de Antônio, trabalhava como empregada doméstica. Chegando em Arapiraca, a família foi trabalhar na roça, nos currais de fumo, apanhando terra para fazer canteiro. Semearam, plantaram e limparam.

Aos dez anos, Antônio passou a ajudar no sustento da família, segurando, por vontade própria, um pequeno cabo de enxada. No ano seguinte, sua mãe se mudou, sozinha, para trabalhar em São Paulo. Antônio ficou aos cuidados da avó materna, que, quatro anos depois, adoeceu, obrigando a filha a voltar para Alagoas.

Foi a segunda vez que Antônio se deparou com a morte.

Ele ainda recorda como foi o enterro da avó. Lembra que o caixão era feito de uma madeira bem fraca, coberta por um plástico azul. Mas o que aconteceu um pouco antes de enterrarem o corpo da progenitora não lhe sai da cabeça.

Antônio conta que, curioso como a maioria das crianças, percebeu vários adultos amontoados num canto do cemitério e decidiu abrir caminho para ver o que estava acontecendo. Empurrou a perna de um, o quadril de outro e, por fim, caiu na cova antes do caixão. O reboliço foi grande, mas o menino saiu inteiro do buraco onde sua avó repousaria para o “sono eterno”.

Maria José, após a morte de sua mãe, voltou a São Paulo, dessa vez levando debaixo dos braços seu único filho.

– Ela voltou pra’quele mundo de cidade carregando uma cruz, que era eu. Passamos um ano e seis meses. Voltamos porque não consegui me adaptar. Lá, a gente morava no teto dos outros. Minha mãe teve que escolher entre o emprego e o filho, então ela me escolheu.

Voltaram. Maria José conseguiu um emprego em Maceió, enquanto Antônio, todos os dias, às cinco horas da manhã, colocava um balaio na cabeça e saia pelas ruas da cidade vendendo pão. Depois disso, ele ainda trabalhou como ambulante e catador de reciclados, mas a profissão que mais se identificou foi a de coveiro.

Há 28 anos, Antônio reduz crânios, rádios, tíbias e úmeros a meros algarismos. Diariamente, ele sepulta corpos estranhos que tiveram vidas com as quais jamais cruzou. Num cemitério municipal de Maceió, no bairro do Bebedouro, Antônio levanta a terra do chão, de segunda-feira a sábado, enterrando carne, ossos e esperança na funda escuridão das sepulturas. Parece ruim, mas ele aprendeu a gostar da profissão e hoje sabe que desempenha um importante papel no palco da vida, onde todos são iguais.

No entanto, há coisas no ofício de coveiro que incomodam e muito a Antônio. Cada pedacinho de seu corpo se contorce de indignação quando trabalha em sepultamentos onde ninguém derrama uma única lágrima.

– Há casos de familiares que, no enterro mesmo, já brigam pelo que ficou – conta, com desprezo no olhar cansado.

O coveiro tem quatro filhos com a ex-esposa. Mas era para ter cinco. A morte bateu em sua porta pela terceira vez, levando o primogênito com 28 dias de nascido. Foi aí que Antônio chorou, chorou muito e, desde então, passou a entender e valorizar o significado de uma lágrima.

– Eu via o sepultamento dos outros e nunca considerei que poderia acontecer comigo. Daí meu primeiro filho morreu, recém-nascido. Sepultamos aqui mesmo, em um terreno que hoje é da minha ex-sogra. Eu sempre passo pelo túmulo dele…

Até hoje Antônio não sabe a causa da morte de seu filho. Na época, deram alta hospitalar à sua esposa, mas não entregaram a criança aos pais.

– Ela [a então esposa de Antônio] veio pra casa e a médica só fez dizer que na segunda-feira meu filho teria alta. Eu perguntei o porquê e ela disse que era rotina do hospital. Meu filho tava brincando e tudo. Quando fui buscar, o menino já estava morto. O hospital disse que ele passou mal… Quando acontece esse tipo de coisa, eles justificam do jeito que querem, aproveitam que somos ignorantes e que estamos sofrendo com a perda.

Como pessoas pobres, o casal preparou um enterro muito modesto, com um caixãozinho branco, medindo uns 50cm. Depois disso, a rotina voltou quieta e aos poucos foi se agitando. O vento continuou soprando, as flores florindo e as pessoas trabalhando como se a realidade não precisasse daquela criaturinha que mal chegou a viver, mas que, com sua curta existência, deu sentido à vida de Antônio.

Foi assim, enfrentando a morte de gente querida, que o coveiro aprendeu a lidar com os vários fins apresentados pela profissão. Ser coveiro ensinou Antônio a compreender e aceitar a própria finitude.

Amanhã, dia 14 de julho, o coveiro Antônio faz 46 anos. Os cabelos grisalhos e o rosto enrugado lhe dão uma aparência de mais idade do que tem. Ele diz não temer a morte e confessa que provavelmente será enterrado onde trabalhou durante boa parte de sua vida. Também não tem medo de assombração. Conta que, em um momento difícil, passou três meses dormindo no cemitério.

É, realmente Antônio tem coragem. Afinal, o coveiro encara todos os dias o fim da esperança, o desespero da separação definitiva, o rompimento do pacto implícito de eternidade. Antônio é homem corajoso não por não temer a morte, mas por não temer a vida.

Como bem disse Mário Quintana, e Antônio há de concordar: Morrer, que me importa? O diabo é deixar de viver!

 

Vida bechamel

FOTO: Glória Damasceno

FOTO: Glória Damasceno

Ao ser questionada, em uma dessas perguntas bobinhas que soam interrogação de questionário juvenil, se a vida fosse um molho, que molho ela seria, a estudante de gastronomia Aline de Almeida Souza (28) respondeu sorrindo que vida seria “molho bechamel”. Além de ser um molho básico oriundo da França, então vida seria base de tudo, como na prática é, ora!, vida também seria agridoce, como bechamel. Nada é só açúcar. Tudo tem seu punhado de sal. E vice-versa!

Desde os 17 anos, a sergipana, nascida na capital Aracaju, trabalha em casa de família. Sempre gostou de cozinhar. É como se os 28 de idade e o prazer de adicionar sabor ao paladar tivessem uma contagem só. Morena, baixinha, de cabelos rarefeitos, afirma que gosta de inventar pratos desde quando se entende por gente. Tinha um sonho de cursar Administração, mas depois viu que gostava mesmo era de cozinhar. Então abraçou a gastronomia, quando a oportunidade tamborilou a porta.  Conseguiu inscrever-se no programa do Ministério da Educação, o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), e aí deu para pagar as contas (luz, água, aluguel) e levar adiante o sonho da gastronomia.

Filha de pai pintor e mãe, também, doméstica, Aline trabalha desde cedo. Lembra que costumava fazer almoços e as pessoas gostavam. Não só cozinhava o tradicional, como aquecia o forno da imaginação e deixava a ideia de sua mente fértil dourar. Comida nas mãos de Aline, até hoje, continua sendo aprovação!

Acha que o tempero dela agrada, porque é essencialmente apimentado. Aline adora uma comida bem temperada. Faz de tudo, mas comida quente, como baião-de-dois, lombo, arroz (óbvio) temperado, lasanha, o famoso carneiro com vinho, são preferências dela. O último item é exemplo de sua capacidade de dar sabor a outros pratos. E em se falando de lasanha, diz estar em primeiro lugar na lista de melhor comida. Isto é, cozinheiro (nem todos, claro) tem sim comida predileta!

Aos 17, Aline engravidou do primeiro, e até aqui, único filho, o Alerrandro, hoje com 11 anos, e por esse presente das circunstâncias, teve que parar os estudos. Casou com o pai do garotinho, com quem viveu sete anos, e foi trabalhar para sustentar o filho. Trabalhou os 9 meses de gestação e pariu Alerrandro quando completou 18 anos. Saiu da casa da mãe 2 anos após o nascimento do filho. Aline sempre viveu com ela. “O pai do meu filho bebia muito, não gostava de trabalhar. Eu sustentava a casa cozinha”, contextualiza o porquê da separação.

Um ano após o divórcio do primeiro marido, Aline conheceu um rapaz com quem viveu durante 6 anos. Mas, avisa logo!, também não deu certo. Chegou a casar no civil e na igreja com ele, todavia com o passar do relacionamento, ele mudou muito. Este tinha um trailer e Aline largou o emprego que tinha para ajudá-lo. Aprendeu muito com ele, contudo, o que ela aprendeu na faculdade, e com a experiência de uma vida em curso entre panelas e ingredientes, não tinha vez. Aline queria inovar. Mas o ex-marido não era suscetível a sugestões, que não fossem as dele. Aline decidiu que era melhor ser só ela e o filho de novo.

Ademais do sonho da gastronomia, ir aos Estados Unidos (EUA) é mais um de seus sonhos. Viajar, conhecer os temperos do mundo. Aprendê-los, adicionar, quando for ocasião, a pimenta que marca e conquista paladares. Abrir um restaurante! Aline quer ter um negócio próprio, onde a culinária nordestina será cardápio a degustar. E seu aprendizado estará à mesa, como resultado e razão de seus esforços.