junho 2015

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Por entre as sombras

O investigador particular mais famoso de Maceió, Luiz Cavendish, mede por volta de 1,90m, tem porte robusto, cabelos pretos e pele morena. É provável que essa descrição seja a mais próxima da aparência física do detetive Luiz que o leitor terá – exceto, claro, venha a contratar os seus serviços futuramente. Pois, para preservar o sigilo profissional, imagens suas são vetadas. De certa forma, é preciso compreender o não existir como parte de sua condição: estar sempre sozinho, em silêncio, a espreita atrás do poste, invisível. Um fantasma.

Com anúncios estampados nos classificados de jornais e pintados em algumas dezenas de paredes espalhadas pela cidade ou até mesmo através dos seus perfis nas redes sociais, encontrar os contatos do detetive Luiz não foi uma tarefa difícil. Com o número em mãos, foi marcada uma entrevista para a penúltima sexta-feira de junho, por volta das 14h, na praça de alimentação do shopping situado no bairro da Cruz das Almas. O encontro constituiu um verdadeiro interrogatório sobre o seu ofício, imortalizado pela figura de Sherlock Holmes e pelos romances policias de Agatha Christie.

A atividade do detetive é, sobretudo, a arte de enxergar as sutilezas, adiantou Luiz, cuja voz grave, deu contornos de seriedade a toda entrevista. Tanto na literatura, como na vida real, é por meio da observação atenta dos detalhes que o enigma se desfaz. O mistério, afinal, repousa nos pequenos gestos, na rispidez durante um jantar ou nos breves minutos que o marido passa em frente ao volante olhando para o vazio, antes de seguir para o trabalho. “Às vezes, o que é mínimo para você”, pontuou ele, “para a gente, não é”.

Ainda que mais pela intuição, do que através de métodos elaborados, aos oito anos de idade, ele solucionou o primeiro caso de que tem lembrança: o da morte de sua mãe.

— Quando mamãe ficou doente, eu ia sempre visitá-la com meu avô e outros parentes no hospital. Até que um dia, questionei o porquê das visitas terem parado de acontecer. Eles disseram que minha mãe tinha piorado e iria se operar, mas assim que ela se recuperasse, eu voltaria a vê-la. Porém, comecei a desconfiar. E passei a escutar as conversas dos meus parentes escondido. Foi assim que ouvi meu avô e minha tia combinando o feitio da missa de sétimo dia. Naquele momento, eu nem tive noção, mas resolver aquele mistério foi algo importante, que me elucidou uma dúvida, um anseio que tinha em relação a minha mãe.

A descoberta do falecimento de sua mãe, na verdade, o fez compreender ainda garoto que a resolução de uma investigação não traz à tona o entendimento sobre quem as pessoas são ou as causas de suas ações (muitas vezes, nem elas sabem), mas entrega nas mãos delas a autonomia da escolha. “Acho que foi aí que me aflorou a vontade de trabalhar com isso. E tentar ajudar a outras pessoas que vivem mentiras”.

Por volta dos 15 anos, Luiz passou a procurar os detetives que divulgavam seus serviços nas páginas dos classificados dos jornais de Brasília (cidade onde morou por alguns anos). O reencontro com a prática da investigação foi menos pelo acaso, e mais pelo desejo de conceder aos outros o que não lhe foi dado quando criança: a possibilidade da decisão. Para ele, o de despedir-se de sua mãe.

A partir do contato com os profissionais atuantes na área, ele descobriu os trâmites necessários para tornar-se um profissional do ramo. Primeiro, teria que atingir a maioridade. E segundo, formar-se num curso específico, que lhe daria os conhecimentos básicos necessários para executar a atividade.

Ao completar 18 anos – época em que fixou residência em Maceió –, Luiz pode, enfim, iniciar os estudos num curso por correspondência. “Infelizmente, o material deixou muito a desejar. A formação deveria ser multidisciplinar”, avaliou. Após concluí-lo, ele investiu em anúncios em jornais.

— Muitas pessoas ligavam para confidenciar seus problemas, perguntar como funcionava o trabalho. Só 30 dias depois, eu fechei o meu primeiro serviço.

Há 23 anos atuando como investigador particular, Luiz explica que hoje em dia os profissionais do ramo se organizam como pequenas empresas. Na divisão de “cargos”, temos: o agenciador e o profissional de rua. A rotina é imprecisa, sem horários fixos. “Têm dias”, diz ele, “que pego no batente às 5h da manhã e só retorno para casa por volta das 3h da matina.” O perfil da clientela é de classe média para cima. “Detetive é uma profissão de luxo. É quem pode (por conta dos assédios, riscos e pressões envolvidos) e contrata quem pode, também”.

Os casos de suspeita de traição representam 60% do serviço. “Atualmente, tem crescido a busca por informações sobre filhos e menores de idade, a pedido dos próprios pais, numa tentativa de resgatá-los do envolvimento com prostituição e álcool”, ressaltou.

Casado há 10 anos e pai de três filhos (uma jovem e dois meninos), Luiz confessa que adentrar na intimidade dos seus clientes reverbera em sua vida particular.

— A gente se depara com tanta mentira, falsidade, adultério, famílias que vivem da fachada, que eu fico pensando: será que não tem ninguém que se salve? Você acaba duvidando dos próximos. Começa a ter certos receios. O importante é saber com quem você está. Pois há o risco de misturarmos a nossa vida pessoal com a do cliente.

O detetive não somente desvenda um caso. O resultado de sua investigação altera o futuro da trama que parecia já inscrito na vida dos seus clientes. Tanto para um lado, quanto para outro – ou seja, para quem contrata os serviços, como para quem é investigado –, o momento em que a verdade se impõe é inevitável, e é inevitável que muitos a temam.

— Certa vez, fiz de tudo para resolver um caso, cujo cliente estava me pagando há vários meses pelo serviço, mas ele não acreditava na traição de sua esposa. Afirmava ser uma mentira. E eu já tinha apresentado provas concretas. Foi então que elaborei uma situação para que ele visse com seus próprios olhos que estava sendo traído. Foi quando o cliente me disse que não era para ter sido daquela forma. Às vezes, temos que escutar o intrínseco do cliente. Fui contratado para tirar um peso que ele carregava. Mas nem sempre estamos preparados para a verdade.

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ANDRÉ, UM PRESENTE DE FILHO

Esta é a história de André, mas também é a da Mauricéa. Ambas se confundem, uma é escrita junto a outra, entrelaçando-se e renovando-se. É uma história de mãe e filho, de amor incondicional e, acima de tudo, de doação. Eram 14 horas quando cheguei à casa de André, em um condomínio de apartamentos no bairro do Tabuleiro. Na sala de estar, ele corria de um lado para o outro. Parecia feliz e carregava nas mãos um catálogo de fotografias, volta e meia perguntava à mãe quem eram as pessoas naquelas imagens. Até que André sentou no sofá por um breve momento e, em seguida,tornou a correr e perguntar insistente sobre as fotos. Ele tem 12 anos e é autista. E, sobretudo, o motivo da felicidade de Mauricéa, sua mãe.

As primeiras expectativas de Mauricéa Ferreira da Silva, 39 anos, foram iguais as de tantas mulheres quando descobrem, especialmente, a primeira gravidez: planos e infinitas expectativas para a criança que encherá qualquer família de orgulho.

No dia do parto, há 12 anos, o sonho de colocar André no mundo, ouvir o choro dele e tê-lo ao alcance dos olhos pela primeira vez não aconteceu. André foi direto para a incubadora. Ele não se mexia, nem chorava. Logo que pôde, Mauricéa tentou amamentá-lo, mas, mesmo com estimulação médica não conseguiu. Foi aí que as dúvidas e o medo tomaram conta dos seus pensamentos: “O que será que está acontecendo com meu filho?”, “Por que ele não mama e nem chora?”.

O tempo foi passando e quando André estava com três anos de idade começou a demonstrar os primeiros traços do autismo. Ele chorava muito, gritava demais e era inquieto todo o tempo. Sem saber, nesse momento começava a maior aventura da vida de Mauricéa, adentrar em um mundo até então desconhecido.

Orientada por um parente, Mauricéa levou o pequeno garoto a um psiquiatra, onde as suspeitas de autismo se confirmaram. Mauricéa ficou em choque logo que soube do diagnóstico. Ela se sentia perdida, pois não sabia o que era a síndrome. “Eu não sabia o que era aquilo direito, mas com o tempo fui aprendendo, não tive tempo de ficar me lamentando, pois meu filho precisava mais que tudo de mim. Conheço várias pessoas que ficam de luto, mas o que eu sabia era que a expectativa que eu criei não existia e que por isso eu precisava me adaptara uma nova realidade”, afirmou.

André passa a semana ao lado da mãe. O pai trabalha no interior de Alagoas e só está em casa aos fins de semana. Mauricéa não trabalha fora, dedicando toda a sua atenção ao filho. André chegou para realizar seu sonho de ser mãe e também para inverter suas prioridades. Hoje ela se diz uma pessoa melhor.

Todas as manhãs ela leva André à escola, onde cursa a 5ª série. Já durante a tarde, a mãe o acompanha às terapias, onde ele aprende atividades da vida diária, como se vestir, lavar mãos, pentear os cabelos, o que para alguém com autismo são atividades complexas. André conta ainda com acompanhamento de fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e pratica educação física adaptada.

A mãe de André atribui o progresso do filho ao fato de ter encarado o autismo de frente. “Se eu tivesse recuado no início ele não estaria como está agora, aprendendo a ser independente. Quando se encara com compromisso, abre-se um leque de possibilidades e eu mudei como ser humano. Dou todo o suporte que ele precisa”, diz.

Uma das maiores pedras no caminho que Mauricéa encontrou foi o preconceito das pessoas e a falta de informação que elas têm sobre o autismo. “As pessoas vêm o autismo como se fosse um bicho que está pronto pra lhe agredir, lhe bater, como se fosse uma ameaça, mas não faz diferença para mim. Eu não espero que a sociedade aceite. Eu tento abrir a mente das pessoas, mas se elas não querem entender eu não rebato, desde que não façam mal pro meu filho”.

Um dos episódios mais marcantes de preconceito aconteceu dentro de um ônibus, quando Mauricéa levava André a uma de suas terapias. “Eu estava na frente, pois a carteirinha do meu filho não tinha passado e uma senhora entrou, tinha lugar pra sentar, mas eu deixei André sentado e fiquei em pé ao seu lado. Ela passou a me ofender, perguntando como uma criança pode ir sentada e uma mãe em pé, que isso não existia. Quando desci disse que existiam deficiências que ninguém vê como a do meu filho, mas que a dela estava nítida”, contou.

Mauricéa diz ainda que seu maior medo é a intolerância das pessoas. “Logo no início dos tratamentos, eu estava em um ponto de ônibus e ele soltou da minha mão, entrou debaixo de um banco e começou a se agredir a chorar, rolando no barro. Eu o puxei, o limpei e disse que estava ali com ele. Uma multidão de gente se formou e uma das pessoas disse que com uma semana uma criança daquela melhorava na mão dela, que era falta de uma boa pisa pra deixar de ser mal educado. É dessa sociedade que eu tenho medo, por isso luto pela autonomia dele, já que não me terá pra sempre”.

Essa foi uma maneira que André encontrou de se comunicar. Quando vê multidões, ele sente-se extremamente inquieto e procura se isolar. A maneira que encontrou foi entrando debaixo do banco.

Mauricéa olha com ternura para o filho sentado no sofá. Com lágrimas nos olhos, lembra que uma das melhores lembranças que tem foi o dia em que ele a abraçou pela primeira vez. “Eu fiquei louca, eu gritava que meu filho tinha me abraçado e chorava muito de emoção. Pode parecer uma besteira, mas pra uma criança antissocial aquilo era uma alegria enorme para mim”. Ela lembra também do dia em que ele vestiu a roupa sozinho pela primeira vez, aos cinco anos de idade e quando a chamou de “mamãe” aos quatro. “São alegrias inexplicáveis, não tem dinheiro que pague”.

Enquanto conversamos, a mãe pede para André mostrar os cadernos da escola. Com orgulho, ela exibe a letra do filho e comemora por ele ser um dos melhores alunos da classe. “Ele adora estudar e tem muitas habilidades com computador. A memória dele é ótima, com três anos de idade, sem ninguém ensinar, ele já sabia todas as bandeiras dos países. Eu o considero um herói por ter chegado onde chegou, ele era uma criança muito desorganizada e hoje já consegue fazer muitas coisas sozinho”.

Em um lugar central da parede da sala, Mauricéa pendurou uma das grandes vitórias que conquistou ao lado do filho, uma comenda que ganhou em abril de 2015 da Câmara de Vereadores de Maceió por seu relevante trabalho de inclusão social, espelho para tantas outras mães de filhos autistas. “Procuro levar André em todos os espaços que frequento para que as pessoas conheçam sobre o autismo. Sempre o preparo previamente, estabeleço uma comunicação, pois antes de tudo ele é um ser humano e uma criança que precisa de satisfação. Falo com ele e olho nos olhos. Incentivo que as outras mães façam o mesmo”.

Mauricéa ainda tem um sonho que deseja muito realizar: formar-se em Serviço Social. “Ainda preciso realizar meus objetivos, mas sou uma pessoa realizada. Tento dar o meu melhor para que meu filho seja melhor e também para ajudar outras mães e outros filhos”, afirmou a mãe com convicção.

Ela se considera um espelho para outras mães. “Quando dou o meu melhor por meu filho, eu inspiro outras mães a também darem seu melhor. Isso é uma grande responsabilidade, mas me sinto muito grata por poder, em meu anonimato, fazer tantas coisas pelas pessoas”. André, mais que um filho, é um presente que diariamente transmite amor e ensina importantes lições sobre cuidado, entrega e paciência. André é borboleta  que aos poucos desabrocha de seu casulo.