maio 2015

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O dono da banca

O dia a dia de trabalho de Gesivan Rodrigues Gouveia, 67, nunca passou por grandes mudanças há mais de cinco décadas. Ele acorda diariamente às 6h, toma seu café da manhã, veste uma roupa confortável, para ter uma jornada de 12h de trabalho, e pega no batente.

A rota também se mantém a mesma. Seu Gesivan desce a Ladeira do Brito, no Farol, e segue em direção à praça Montepio, no Centro da capital. Por volta das 7h30min, sobe as portas de zinco da Banca Nacional, uma das mais tradicionais de Maceió. A rotina se repete ao longo dos mais de 360 dias do ano, sem pausa para feriados e finais de semana.

A sua trajetória pessoal se confunde com a profissional, que mantém desde os 14 anos de idade, e compõe uma parte da his­tória da cidade. Da Ditadura Militar à redemocratização, o bair­ro onde se fixou, foi palco e refletiu os momentos de tensões que repercutiram em todo o País.

Quando é convidado a resgatar alguns momentos marcantes do passado da Banca Nacional, ele costuma associar determina­do fato ao cenário político da época, a exemplo da Ditadura do general Médici e um ato a favor das bancas de jornais e revis­tas e da liberdade nos veículos de comunicação, promovido pelo alagoano Aldo Rebelo, que hoje ocupa o cargo de ministro do Esporte, reunindo cerca de três mil pessoas, nas imediações da praça Montepio.

Atrás do balcão, Gesivan testemunhou o nascimento das grandes editoras e o fechamento de importantes publicações, entre revistas e jornais. Mas nada se compara com a redução nas vendas que vem constatando depois do surgimento e da popula­rização da internet. “Todo mundo quer viver de teclar”, comenta o jornaleiro, deixando claro o pouco tato que possui com as “coi­sas digitais”.

Seu Gesivan era ainda estudante do antigo ginásio, quando foi convidado por um amigo, que prestava serviço numa distribuidora de revistas, para entrar no ramo. Uma armação improvisada – chamada de “cama de vento” – fazia o papel da banca de jornal. Nela, os amigos penduravam jornais e revistas.

Na época, já havia certa concorrência. Por esse motivo, a troca pelo ponto de venda em frente ao extinto Cine São Luiz para um ponto próximo do antigo Hotel Lopes foi crucial para que conquistasse uma freguesia exclusiva.

“Daí em diante, adotei este local de trabalho. Já fui para o centro da praça Montepio e voltei para onde estou umas duas vezes. Mas nunca me afastei daqui”, conta, ao passo que tirava dentre as páginas amareladas de um velho caderno um recorte de jornal, no qual estampava duas fotos antigas, uma da região e outra do Hotel Lopes.

Quando a editora Abril e a já extinta Chinaglia ofereceram a opção de ganhar um salário fixo ao invés do lucro pelas vendas, Gesivan preferiu ganhar pelo o que vendia. Assim, aos poucos, juntou dinheiro e construiu sua primeira banca de madeira. “Foi no tempo de Sandoval Cajú”, rememora, fazendo referência ao ex-prefeito de Maceió.

Trazendo na bagagem uma experiência de 52 anos no ramo, ele aprendeu a conquistar a clientela com a sua simpatia e, talvez, o mais importante, a transitar entre as medidas apertadas – 4 m x 3 m – da banca de jornal, em meio a quase três mil títulos que compõem o acervo.

Após concluir o segundo grau, o jornaleiro assumiu sozinho o negócio. O seu pai ficava encarregado das atividades enquanto Gesivan estava na sala de aula. “Nunca pensei em abandonar os estudos”, observa.

O horário combinado para que Gesivan Rodrigues resgatasse parte da história da Banca Nacional foi por volta das seis da noi­te. Segundo o jornaleiro, esse é o período mais tranquilo do dia, pois “o movimento começa a cair”, justifica. Contudo, a clientela não deixava de aparecer. E enquanto respondia a algumas per­guntas, homens e mulheres paravam para ouvir o que ele tinha a dizer.

“O período mais difícil foi o da ditadura militar. O golpe de 64 mudou tudo. Veio a perseguição para todas as bancas em todo o País. Aqui, não foi diferente. Aconteciam apreensões de revistas e jornais. Logo, o lucro começou a diminuir. Os policias revistavam as bancas de jornal e qualquer publicação com pala­vras que eles julgavam serem impróprias eram apreendidas.”

Gesivan foi preso duas vezes por vender publicações de es­querda, como o extinto jornal Pasquim, e revistas com conteúdo erótico. “Numa dessas prisões, o censor me disse: ‘Você está su­jando a sociedade de Maceió’. Até que o chefe dele, que compra­va revistas de mulher nua, me viu naquela situação e logo procu­rou dar um jeito. Recebi uma ordem de apreensão e ele repassou o meu nome para a Polícia Federal. Podia ter acontecido coisa pior”, recorda.

Ao contar para o seu pai esse episódio, ele revela com bom humor: “Nunca apanhei da polícia, mas, naquele dia, apanhei do meu pai”. A partir do ocorrido, dois olheiros ficaram vigiando a banca do alto do atual prédio da Secretaria de Estado da Defesa Social, no Centro. No entanto, como um amigo tinha avisado a ele sobre a situação, seu Gesivan ficou mais atento. “Quando não eram recolhidas antes de chegarem às bancas, as publicações já vinham com matérias cortadas”, lembra.

“Certa vez, a revista Veja publicou que o general Costa e Silva faleceu de uma ‘banana’ [referindo-se ao gesto] que um deputa­do federal dirigiu para ele. Toda essa edição foi apreendida”, dis­se o jornaleiro, provocando gargalhadas nos fregueses presentes.

Para manter a longa jornada de trabalho durante a semana – das 7h às 19h –, seu Gesivan conta com a ajuda de um sobrinho há mais de 40 anos, que fecha a banca às 22h. Aos domingos, a atividade é encerrada às 19h. Com o faturamento mensal, ele paga todas as contas e sustenta a sua companheira e um casal de filhos – um garoto de 15 anos e uma menina um ano mais nova.

Além do bom humor, o que mais chama a atenção da clien­tela que passa por lá é a quantidade e a variedade de publicações à venda, a exemplo dos jornais Folha de S. Paulo e Jornal do Com­mercio, além de revistas dos mais variados gêneros, incluindo a NewsWeek International.

“Eu sempre gostei de ter todas as revistas para saber o que rola na cabeça dos intelectuais do País, entre elas Cruzeiro, Fatos e Fotos, Cigarra, X9, Foto Aventura, O Risco e Tarzan. Gostava também de vender jornais da oposição e os melhores eram O Pasquim, Opinião e Movimento. Aqui, eu me sinto no palco da vida”, diz.

Foto: Elayne Pontual.

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Os 835 filhos de Célia

Em uma grande casa de tijolo aparente na Ponta Verde, bairro nobre da capital alagoana, vive Célia Maria dos Santos, o marido, com quem é casada há 32 anos, e suas duas filhas. A casa de primeiro andar é dividida entre seu lar e o Projeto Vaso Novo, que fundou há oito anos. Na garagem da casa podemos encontrar brinquedos, roupas, objetos domésticos e bijuterias penduradas na parede. São doações de voluntários para o bazar que seria realizado dali a alguns dias.

No andar de cima, Célia mostra a casa onde vive com a família. Nas paredes, na varanda e em um pequeno altar montado na sala podemos encontrar imagens de Nossa Senhora Aparecida, santa de quem é devota. Célia não trabalha fora, dividindo-se entre as tarefas domésticas e os cuidados com o projeto.

Na poltrona onde estava sentada, ela fala que gosta de meditar e rezar quando se sente angustiada. É nesse momento que Célia me confessa sobre sua antiga vida “em sociedade”, como gosta de se referir, onde ela ocupava o tempo entre eventos sociais de pessoas ditas importantes, roupas caras e viagens internacionais. Com 53 anos de estrada e muitas experiências, ela afirma que somente há oito que encontrou algo que pode chamar de verdadeira felicidade, não vendo mais nenhum sentido na antiga vida que levava, de uma dama da sociedade.

A transição entre o antes e o agora, se deu às 10 da manhã, enquanto ela caminhava na Praia de Ponta Verde e encontrou na areia uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A imagem estava destroçada e ela resolveu levar para casa e restaurá-la. No caminho de volta e com os pedaços da imagem nas mãos, Célia viu moradores de rua caídos nas calçadas e os pedestres desviando deles como se fossem obstáculos, aquilo passou a incomodá-la profundamente, como nunca havia incomodado e ela resolveu então, ser pescadora de homens, resgatando-os daquele mar de invisibilidade.

“Naquele momento eu senti algo muito profundo, uma transformação interior e comecei a me envolver com a causa dos moradores de rua e dependentes químicos. Eu não podia aceitar seres humanos sendo tratados assim, isso choca a gente. Se somos irmãos uns dos outros, como podemos ignorar?”, questionou.

Célia passou a cumprimentá-los, a conversar com eles. Procurou saber de suas necessidades, desejos, medos. Todas as sextas-feiras ela leva um café da manhã e realiza um momento de oração com aqueles que ela já adotou como filhos, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos. Além do trabalho às sextas-feiras, ela também ajuda a manter algumas dessas pessoas em clínicas de reabilitação para dependentes químicos. “Eu não pago as clínicas, mas tenho despesas para mantê-los lá”, diz.

Foi no bairro do Vergel que Célia passou a infância ao lado de seus pais e irmãos, um período que ela não gosta de lembrar, pois além das privações financeiras, chegando a não ter o que comer, ainda existia a falta de afeto por parte de seu pai, o que a fez criar muitas mágoas ao longo da vida. “Eu não recebia amor, afeto e carinho, não foi um período bom da minha vida, fiquei com muitas mágoas. Eu acho que tudo o que eu não tive quando criança estou resgatando agora. Além do amor que dedico á minha família, também sinto a necessidade de ampliar esse amor para o meu próximo, por isso me envolvi tanto com a causa dos moradores de rua, seres extremamente desamparados”, diz, tentando enxugar as lágrimas que insistiam em cair.

Ela, que já tinha duas filhas, se viu mãe de mais 835. “Comecei colocando nomes, idades e locais onde eu encontrava os meninos, mas depois não deu pra fazer mais isso, a equipe era pequena. Uns se perderam no caminho, outros foram presos, outros tantos morreram, mas como mãe deles, eles sempre voltam para o mesmo lugar quando precisam”.

Para manter essa família, Célia realiza uma feira da pechincha três vezes ao ano para arrecadar fundos, além de contar com doações dos que conhecem o projeto. O dinheiro que o Projeto Vaso Novo tem em caixa serve para os mais diversos fins, comprar comida, remédio ou mesmo funerais quando um dos meninos morre. Julgamentos, acusações também não fazem parte dessa família. A mãe de 835 filhos não quer saber o que eles fizeram antes de chegar ali, ela apenas os acolhe, com amor de mãe, que só sossega quando vê o filho feliz. Ela nada pergunta sobre passado ou presente, apenas estende a mão àqueles que ela encontra nas esquinas da cidade, sem nenhum amparo.

Célia confessa que depois que começou a realizar o trabalho muitas amigas de antigamente a deixaram de lado. “Estou fazendo minha parte, tem que goste e quem não goste. Algumas pessoas me excluíram de seus círculos sociais, não me chamam mais pra festas. Eu era da sociedade, vivia em festas, viagens, mas nada disso faz mais sentido pra mim, nem mesmo essas pessoas, eu não vou levar nada disso, então espero que enquanto estiver aqui possa fazer algo de bom pelos outros”, disse.

Nada lhe falta em termos materiais e hoje ela finalmente afirma ter encontrado o sentido para a vida, por meio do amor ao próximo, o amor que cura, salva, liberta e constrói pontes. Que a faz acordar todos os dias com a certeza de estar no caminho certo, no caminho que seu coração pediu pra seguir, mesmo em meio ao preconceito e a dificuldade, que ela sente na pele quando resolve levá-los à missa e sente os olhares tortos para suas roupas esfarrapadas e seus cabelos sujos. A presença dos meninos incomoda, assim como incomoda nas ruas, praças e calçadas, onde são vistos apenas como empecilhos.

Muitos não dão credibilidade ao projeto, segundo Célia, pois julgam que moradores de rua são marginais, portanto há uma discriminação muito grande, principalmente quando são dependentes químicos. “As pessoas falam que vou amanhecer morta e me dizem para cuidar de velhinhos que é mais seguro e bonito, eu não me importo com o que dizem, eu nunca vou deixar de estar junto dos meus filhos”.

Um dia um dos seus filhos de rua falou “Mãe, a gente não é copo descartável, a gente é copo de cristal”. Esta frase marcou Célia profundamente, deixando-a orgulhosa por saber que o amor que está transmitindo está ganhando o caminho do coração. Ela também se sentia descartável, mas aquelas palavras a levantou e sempre a faz sorrir quando o desânimo vem bater à sua porta, geralmente durante as madrugadas insones.

Sobre a morte, Célia conhece de perto e lembra um de seus filhos de rua em especial, que se foi há cinco anos. Ele chamava-se Sérgio e foi assassinado na rua. “Ele me disse para nunca desistir do que estou fazendo”. Ele morreu, assim como tantos outros, que para ela eram especiais e que para outros, apenas estatística e uma nota curta no jornal. Muitos já disseram que se Célia morrer, eles não vão mais existir também, porque não terão mais a fonte do amor verdadeiro, o amor que transborda, que acolhe e afaga. Célia quer ser exatamente essa mão, essa mãe de coração.

No fim do relato, Célia estava em lágrimas e eu tinha diante de mim duas mulheres. A Célia de antes estava distante e quase não existia diante da Célia de agora. A Célia de sentimentos à flor da pele, de sorrisos e lágrimas nos olhos, que choravam de felicidade e também de tristeza por não ser onipotente na alegria e nem presente em todas as dores do mundo, que ela carregava como se fossem suas.