abril 2015

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O museu de Cristine – Parte 2

O museu do Portugal Ramalho funciona em uma pequena sala de frente para a Praça Chiquinho, onde são realizadas várias das atividades artísticas do hospital. A praça recebeu esse nome em homenagem a um antigo paciente, já morto. O museu, por sua vez, traz o nome “O Espaço do Inconsciente”. É lá que estão as grades de ferro usadas no cenário de Atalhos [peça teatral encenada por usuários e funcionários do hospital], servindo como base para o acervo artístico produzido por usuários nas oficinas terapêuticas. A salinha está sempre aberta à visitação pública e, embora não seja das mais estruturadas, abriga inúmeras lembranças saudosas, como a foto de Manoel Augusto [interno do hospital há mais de 20 anos] em plena juventude “pop star”.

Outras lembranças, entretanto, são capazes de abrir antigas feridas. Até hoje, Cristine Mayara atribui àquele pequeno equipamento quadrado, encostado num canto do museu, a eterna tremedeira nas mãos e na boca. Aos sessenta anos de idade, ela ainda recorda da primeira vez que foi internada em um hospital psiquiátrico, por volta dos dezoito anos. Jovem bonita, cheia de vida, acabara de voltar à terra natal, o pequeno distrito de Saúde, no litoral norte de Maceió. Fora dali, estudara até a quinta série do Ensino Fundamental, quando os pais não tiveram mais condições financeiras de bancar os estudos da filha.

Quem se aventura a visitar o distrito se depara com pequenas casas antigas, construídas ao longo de uma comprida rua de barro. Em meio à poeira, meninos jogam bola, sob olhares desatentos de mães e pais desempregados. Meninos que, muitas vezes, têm acesso a uma única refeição por dia: aquela que é servida na escola pública. Mães e pais cuja atenção cedeu lugar à tristeza nos olhos que, um dia, chegaram ali cheios de esperança. Há muito tempo, as casinhas começaram a ser construídas em volta do que hoje são somente ruínas. Era a próspera fábrica de tecidos de Saúde, que, como outras fábricas alagoanas, acabou fechando as portas. Restaram a rua de barro, as casinhas e seus moradores.

Mas quando Cristine Mayara voltou à Saúde, depois da breve vida escolar, a fábrica ainda funcionava a todo vapor. Letrada, logo conseguiu uma vaga como auxiliar de escritório. O convite partiu do próprio chefe, um homem de 42 anos, cujas intenções com a subordinada iam além da relação profissional, como Cristine descobriria mais adiante.

– Já nas primeiras semanas, todo dia eu encontrava um bilhetinho ou um presentinho na minha gaveta. Agradecia e ficava por isso mesmo, porque eu gostava dele como chefe, não para namorar. Eu até tratava ele por “senhor”.

Não adiantou. Diante da resistência aos bilhetes e presentes, logo chegaram as primeiras ameaças. Cristine arranjou um namorado para disfarçar. “Não prestou”, o chefe criou uma confusão com o rapaz, que, imediatamente, desistiu do posto. Tamanho o alarde, a notícia daquela paixão incontrolável chegou aos ouvidos do pai de Cristine, que chamou o “moço” para uma conversa “de homem para homem”. Também não houve trégua. O chefe, 25 anos mais velho que a contratada, estava disposto a tudo para conquistá-la.

– Ele dizia que se eu não fosse dele, não seria de mais ninguém. Dizia até que ia me matar se eu não ficasse com ele. Depois que ele tentou me agarrar, eu fiz uma denúncia na delegacia. Mas ele não foi preso, porque os policiais eram todos comprados pelos donos da fábrica. Eu comecei a adoecer daí.

Cristine emagreceu até os 38 quilos, antes de ter a primeira crise nervosa e ser internada na Clínica de Repouso José Lopes de Mendonça, onde recebeu algumas sessões de eletrochoque e choques com insulina, hormônio que regula as taxas de glicose no organismo e, quando em excesso, é capaz de provocar comas e convulsões.

Enquanto conta a história, sentada no sofá de casa, as mãos enrolam para lá e para cá a fralda do neto de criação. Assim como os músculos dos lábios, as mãos não param. Nos olhos, a angústia pela morte recente do marido, cuja foto permanece intacta na parede da sala. José R. Filho morreu em sete de julho de 2008, vinte dias antes do aniversário de Cristine. Com 85 anos de idade, ele não resistiu às complicações nos rins, decorrentes de uma queda no portão da pequena casa, hoje propriedade da esposa.

Sandra Virgínia estava lá quando ele escorregou na caixa de areia do gato e não conseguiu mais levantar. Ela fazia faxina na casa da vizinha quando ouviu os gritos de socorro.

 

FOTO: Sionelly Leite

 

 Sobre o especial Por Trás dos Muros, veja também:
– EDITORIAL Por Trás dos Muros e O Museu de Cristine – Parte 1

 

                                                             Sobre a autora
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Acássia Deliê é jornalista, formada pela Universidade Federal de Alagoas. Em 2010, publicou o livro-reportagem “Por Trás dos Muros”, contando histórias de vida a partir do universo no Hospital-Escola Portugal Ramalho, único hospital psiquiátrico público alagoano. O trabalho foi vencedor do prêmio Expocom Nacional, na categoria livro-reportagem, entregue pela Intercom. Em 2014, a revista luso-brasileira (in)visível publicou trechos da obra. O livro está à venda na Editora Multifoco (http://goo.gl/QueA3d).

 

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O museu de Cristine – Parte 1

Neste mês de abril, o Vidas Anônimas lança o seu terceiro especial. Agora, a narrativa é da jornalista alagoana Acássia Deliê com seu livro “Por Trás dos Muros”, contando histórias a partir do universo do Hospital-Escola Portugal Ramalho, único hospital psiquiátrico público alagoano. Sempre aos domingos, iremos publicar partes do capítulo IV da obra, “O museu de Cristiane”. Com o trabalho, a jornalista foi vencedora do prêmio Expocom Nacional, na categoria livro-reportagem, entregue pela Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). Em 2014, a revista luso-brasileira (in)visível publicou trechos do livro-reportagem.

O capítulo tem início a partir da história de Nise da Silveira, psiquiatra que se manifestou radicalmente contra as formas agressivas de tratamento de sua época, tais como eletrochoque e lobotomia, realizando tempos depois uma verdadeira reforma psiquiátrica, com uma forma mais humana de tratar os transtornos mentais. A autora faz uma imersão na vida de Cristiane Mayara, uma das pacientes do hospital que refaz os pedaços de sua história e conta como conseguiu, apesar de tudo, ainda buscar o entusiasmo que precisava para continuar seu tratamento.

“Por trás dos muros” é um livro-reportagem pelo qual o leitor é convidado a ultrapassar os muros de um hospital psiquiátrico e conhecer as histórias de personagens que lá habitam. Na obra, a jornalista Acássia Deliê faz uma imersão ao interior do hospital e às vidas de cinco usuários do hospital. E por meio deles apresenta as histórias de funcionários e da própria instituição. Um trabalho que contribui para quebrar estigmas sobre as doenças e os doentes mentais. Confira, a seguir.

“Sou leonina e leão é fera. Fica mansinho, mas não mexa com ele. Mas é um tipo de leão que vai com aquela garra de brigar e amansa com qualquer ‘acordozinho’. Pelo menos eu sou assim, não guardo ódio, nem rancor. Se quiser qualquer coisa de mim, estou pronta a ajudar”. (Cristine Mayara)
Foto: Sionelly Leite

Foto: Sionelly Leite

Era 1935, época de levantes que buscavam derrubar o governo brasileiro. Estava aberta a longa temporada de caça aos comunistas. Dava para ouvir os tiros que eram disparados fora do hospital psiquiátrico. Lá dentro, a enfermeira que limpava o quarto viu, sobre a mesa, os livros socialistas e a denunciou à administração do hospital. Nise da Silveira era presa e passaria quase dez anos fora do Rio de Janeiro, entre fugas e esconderijos. Quando finalmente pôde regressar, uma briga mais importante ia começar: a briga com a Psiquiatria.

“Durante todos esses anos que passei afastada, entrou em voga na Psiquiatria uma série de tratamentos e medicamentos novos que antes não se usavam. Aquele miserável daquele português, Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel, tinha inventado a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de cardiazol. Fui trabalhar numa enfermaria com um médico inteligente, mas que estava adaptado àquelas inovações. Então me disse: ‘A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque’.

Paramos diante da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra apertou o botão e o homem entrou em convulsão. Ele então mandou levar aquele paciente para a enfermaria e pediu que trouxesse outro. Quando o novo paciente ficou pronto para a aplicação do choque, o médico me disse: ‘Aperte o botão’. E eu respondi: ‘Não aperto’. Aí começou a rebelde”.

Quando a psiquiatra alagoana Nise da Silveira fez esse relato ao escritor Ferreira Gullar, em 1996, no Rio de Janeiro, o aparelho de eletrochoque do Hospital Portugal Ramalho, em Alagoas, já estava aposentado havia 21 anos. A última aplicação de que se tem notícias foi realizada em 1975, quando Marcondes Costa ainda era diretor do hospital. Nessa época, a técnica era usada indiscriminadamente, muitas vezes como forma de punição ao usuário em crise, sem o devido acompanhamento profissional. O psiquiatra lembra que alguns médicos chegavam a receitar as sessões por telefone, cabendo a jovens estudantes de medicina a árdua missão de presenciar as convulsões induzidas.

Como não podia simplesmente proibir o tratamento em voga na psiquiatria nacional, Marcondes teve uma ideia: assinou uma nova determinação sobre o uso do eletrochoque no hospital. A partir dali, o psiquiatra que receitasse a sessão deveria também se responsabilizar por sua execução. Algum tempo depois, por falta de uso, o aparelho foi recolhido ao então recém-criado museu da instituição e lá permanece até hoje, dividindo espaço com esculturas, estandartes, quadros, fotografias e recortes de jornais.

 Sobre o especial Por Trás dos Muros, veja também:
– O Museu de Cristine – Parte 2

 

                                                             Sobre a autora
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Acássia Deliê é jornalista, formada pela Universidade Federal de Alagoas. Em 2010, publicou o livro-reportagem “Por Trás dos Muros”, contando histórias de vida a partir do universo no Hospital-Escola Portugal Ramalho, único hospital psiquiátrico público alagoano. O trabalho foi vencedor do prêmio Expocom Nacional, na categoria livro-reportagem, entregue pela Intercom. Em 2014, a revista luso-brasileira (in)visível publicou trechos da obra. O livro está à venda na Editora Multifoco (http://goo.gl/QueA3d).