março 2015

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O poeta dos cordéis

Em matéria de falar, o mestre cordelista Jorge Calheiros é imbatível. E o impacto da sua presença é ainda maior, especialmente quando ele garante que, apesar dos seus 70 e poucos anos de idade, sabe de cor as mais de 200 estrofes das 96 edições de cordéis de sua autoria. Com um repertório tão vasto, é compreensível que seja tomado pelo desejo de compartilhar tais histórias.

Homem de riso fácil e de palavras na ponta da língua, Jorge faz questão de resgatar o seu passado, lembrando a infância pobre que não lhe permitiu frequentar a escola. “Meu filho, o dinheiro não dá. Você ou come ou estuda. Das duas, uma”, conta ele, rindo, ao repetir o argumento de seu pai. Embora as dificuldades tentassem estancar a sua vocação, seu talento se sobressaiu.

Ainda garoto, por volta dos 10 anos, ajudava o seu pai e os três irmãos a catar madeira no meio da mata para fazer carvão, depois vendido no comércio de Pilar. A lenha recolhida por eles era o único meio de sustento da família. Dos oitos filhos, apenas Zilda, a irmã mais velha, teve a oportunidade de estudar. Ela assumiu o compromisso de repassar tudo o que aprendia aos irmãos.

Cansados, depois de um dia de trabalho, nem todos tinham o mesmo ânimo para aprender a ler e a escrever. Jorginho era a exceção. O caçula aguardava ansioso as aulas particulares com Zilda. “O meu lápis era uma pedra de carvão e o terreiro de barro era o caderno. Foi assim que eu aprendi a fazer o meu nome e o mundo acabou de me ensinar o jeito de viver”, rememora.

Foi naquela época que teve o primeiro contato com a literatura de cordel. Ao redor de uma fogueira, à noite, os meninos se reuniam para assistir, fascinados, a contações de histórias. “Ficávamos todos atentos, escutando e dando risada. Às vezes, quando a história era grande, passava-se até uma semana lendo o mesmo livreto. Todos curiosos para saber o que ia acontecer no final”, conta. Daí que surgiu o seu interesse por esse gênero literário, e, após algumas tentativas, fui percebendo a facilidade e o domínio natural que possuía para escrevê-lo. “O que não é nada fácil”, pontua.

Com familiaridade crescente com a literatura oral, era natural que Jorge acabasse tendo vontade de desenvolver a sua própria produção poética. No entanto, a urgência de ter seu ganha-pão o obrigou a abdicar do seu talento. Aos 11 anos, trabalhou, com carteira assinada, na construção do Edifício Brêda. “Juntava os pregos, pois não podia fazer outra coisa”. Aos 12, foi empregado de uma fábrica de tecidos em Fernão Velho. E assim se passaram os anos seguintes.

Com o peso da idade avançando, o seu corpo já não dava mais conta de certas atividades. “Foi quando não deu mais pra nada, nem pra vigia. Ninguém queria mais fichar um cabra de 60, 65 anos.”

Mesmo que tivesse exercido atividades que o afastavam da sua derradeira paixão, Jorge nunca deixou de produzir os seus folhetos de cordel.

Duvidando da qualidade do material e com receio de cometer gafes, caso os apresentasse em público, Jorge guardava seus escritos para si mesmo. Manteve o seu dom em segredo até que, numa dessas suas andanças pelo País, fez amizade com um cordelista que iria se apresentar num festival de poesia em Aracaju (SE).

“Conversando com ele, comentei que achava bonito o cordel, tinha alguns já escritos, mas não possuía coragem de subir no palco. Ele me disse: ‘Se você nunca arriscar, não saberá se tem alguma coisa que preste’. Pedi para que ele conseguisse um espaço pra mim na programação. E lá mesmo, me apresentei pela primeira vez. Tremendo, eu subi e recitei. O povo me aplaudiu e foi muito bom”, recorda.

Daquele dia em diante, Jorge deixou de lado a sua insegurança e começou a divulgar o seu trabalho entre amigos e conhecidos. “As pessoas liam e gostavam dos meus cordéis. Aí eu pensei: Não vou mais procurar outra coisa, e já que trabalhar não vai dar mais, vou continuar escrevendo.”

Hoje, ele contabiliza cerca de 100 livretos. Entre os mais conhecidos, estão Maloqueiro Zé Catraca, Conselho de um Velho Pai, O Pobre e a Medicina e Brigas de Amor.

Mas o reconhecimento do seu trabalho, ressalta o artista, veio aos poucos. O cordel O encontro de Tancredo com seu Pedro lá no Céu foi contemplado na categoria melhor crítica política, num prêmio concedido pelo Estado de Minas Gerais. O livro trata da Ditadura Militar e tece uma crítica sobre esse regime político. Sempre modesto, comenta: “Não sei se eu tenho capacidade de escrever uma história como aquela novamente; ficou muito boa.”

Pelo conjunto do seu trabalho e pelo papel que desempenha na preservação da cultura oral nordestina, por meio dos seus cordéis, Jorge Calheiros foi agraciado em 2011 pelo Registro de Patrimônio Vivo de Alagoas (RPV/AL). E em 2010, a história de Matuto Zé Cará foi adaptada para o cinema, no curta-metragem alagoano narrado pelo próprio cordelista e ilustrado em forma de animações criadas pelo artista plástico Weber Bagetti.

“Certa vez, numa brincadeira, criei a história Mulher Feia, dedicada à minha esposa”, conta. Na primeira estrofe do folheto, lê-se:

Me chamo Jorge Calheiros poeta do Clima Bom
Na casa 49, encostada a Mãe do John
Mais feio do que Chico Lopez cantando fora do tom
Minha mulher mais feia na boca só tem um dente
Já nasceu com um peito só parecendo uma serpente
O satanás veio pegou ela e me devolveu novamente

Não à toa, a sua companheira não levou a brincadeira “na esportiva”, o que lhe rendeu alguns “aborrecimentos”.

A inspiração para os causos narrados em seus livros surgem dos fatos que presencia no cotidiano. Prevenido, sabe que boas ideias não têm hora nem lugar para surgirem. Sendo assim, Jorge carrega sempre às mãos um caderninho de anotações.

É difícil imaginar o mestre cordelista incomodado com alguma coisa. Mas se há algo que lhe tira o sossego é a falta de espaço exclusivo para a divulgação da cultura popular alagoana. “Eu tive sorte do povo ter me acolhido. Agradeço muito por isso. Mas os órgãos oficiais têm que divulgar mais. Eu vejo eventos que tem tanta coisa e não aparece um poeta, um cordelista”, observa. Mas o pior mesmo, disse o poeta, é quando alguém não dá valor aos seus versos.

Antes de finalizar o nosso bate-papo, ele fez questão de ressaltar aquela que é uma de suas maiores paixões: Pilar, cidade situada a 34 km de Maceió. “Em Pilar, em vivi poucos anos e, ao mesmo tempo, vivi a minha vida inteira. Veja bem, eu nunca passei um ano sem deixar de visitá-la. Lá, foi a terra em que eu me criei, pobrezinho no tempo, muito pobrezinho. Sou tão apaixonado, que, em homenagem à cidade, fiz um verso que diz:

— Tenho orgulho 1º de ser brasileiro / 2º ser pilarense / 3º ser um guerreiro / 4º lugar ser poeta / E 5º ser Jorge Calheiros — declamou.

Matéria publicada originalmente em Graciliano On-line.
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O amor de Antônia

Era sempre início da manhã quando eu passava por sua janela no andar térreo daquele prédio. Ela, como que desperta junto aos primeiros raios de sol, já estava a postos para mais um dia que veria passar enquadrado pela janela do quarto, tal qual a música de Adriana Calcanhoto.  Porém, essa visão não parecia entristecê-la, com seu bordado à mão e um sorriso no rosto, estava sempre disposta a mostrar os dentes a quem quer que fosse, mesmo que em seu coração carregasse tristeza.

Em 1930, nascia Antônia da Silva Braga, filha dos comerciantes Vitorino e Maria Madalena. Falante e alegre, acredita que sua vida daria um livro, afinal, hoje, aos 84 anos, não lhe restam muitas coisas com o que ocupar o tempo a não ser suas recordações. Reconstruir memórias afetivas, lembranças e sentimentos para assim se reencontrar consigo mesma e com o passado que não conseguiu esquecer. É como se a lembrança pudesse dar sentido à vida, embora nem tudo fosse glória.

Nascida em Maragogi, cidade litorânea de Alagoas, Antônia viveu no lugar até os 06 anos de idade, quando foi com a família para Porto Calvo, onde ficou até os 17. Lá, ela foi muito feliz. “Minha infância foi maravilhosa, eu tinha meus amigos e meus irmãos ainda comigo. Eu adorava brincar de garrafão e de queimado. Também gostava de estudar, era uma boa aluna, e de fazer travessuras no colégio”, conta sorrindo.

Aos 17, Antônia mudou-se para Palmares, em Pernambuco, quando seu pai resolveu se tornar político. “Fomos embora, mas eu só fazia chorar de saudade do amor que deixei em Porto Calvo. O amor que começou quando eu tinha 12 anos e que resiste até hoje, mesmo depois de mais de 70 anos”.

“O nome dele é Valdir”, diz Antônia com o brilho nos olhos que só os apaixonados têm. Aquele fora o único amor de sua vida, embora tenha se casado com outro – segundo ela, o maior erro de sua vida.

Valdir, talvez, tenha sido o divisor de águas na vida de Antônia. Depois de conhecê-lo, ela ficou dividida entre passado e presente e, mesmo depois de 72 anos, Valdir ainda a faz suspirar. “Até as irmãs dele me chamam de cunhada até hoje e eu sinto uma saudade tão grande que aperta o peito. É como se eu me sentasse nessa janela e esperasse ele voltar”, conta emocionada. Os enamorados se comunicaram por cartas por quase cinco anos. “Toda semana tinha carta. Toda a saudade ia no papel e, vez ou outra, algumas lágrimas”.

Pergunto então por Valdir, onde está agora? “Tive um aborrecimento em casa com meus pais e meus irmãos e eu disse que me casaria com o primeiro homem que aparecesse querendo casar, caso Valdir não assumisse logo o noivado e o casamento. Ele não assumiu, quis esperar um pouco mais e os aborrecimentos em casa foram aumentando e eu acabei me casando com o Barbosa, fazendeiro amigo do meu pai”. Eis a escolha que faz o coração de Antônia, até hoje, apertar de arrependimento.

Antônia teve sete filhos com Barbosa, mas só quatro estão vivos. Se foi feliz? Dos 23 anos que passou ao lado dele, apenas nos seis primeiros. Ela acredita que casou com o homem errado. “Foi por pura má criação que casei, por birra mesmo… Pra me livrar dos comentários e aborrecimentos em casa, mas nunca foi amor. Eu acabei causando o mal para mim mesma”, confessa.

Não conseguindo conter as lágrimas, Antônia revela que sua melhor lembrança é o Valdir, assim como a pior. “Eu nunca esqueci dele e nunca vou esquecer. Foi a melhor coisa da minha vida. Como também não esqueço do dia em que ele se foi para sempre, ele morreu há um ano na véspera de natal. Foi o pior natal da minha vida. Me senti viúva. Ali se foi uma parte de mim”.

Dividida entre sua rotina de bordar, cozinhar e ver o tempo passar pela janela, Antônia diz que não é mais feliz. Além de a vida ter levado uma de suas únicas alegrias, também lhe trouxe a diabetes. “Hoje minhas únicas alegrias são meus filhos e minhas lembranças. Fora isso, nada tenho”.

Antônia também fala do fim da vida de forma natural, ela sabe da finitude dos seres e, diferente de muitos, vê nisso um processo natural. “A gente morre de qualquer jeito, até dormindo, não adianta ter medo. Eu não desejo a morte, mas aceito quando ela vier e não me desespero”.

Enquanto o momento não vem, Antônia continua em sua janela, vendo a vida e a banda passar, sorrindo-me todas as manhãs como se buscasse fora a alegria que não existe dentro dela.