fevereiro 2015

ok15

Amor é ponte aérea

Enquanto isso na chamada do celular…

- Oi, amor!

- Oi, paixão. Liguei só para dizer que… Você é bonita e adorável.

- Eu te amo mais do que amei a qualquer outro homem, Bruno.

- Eu te amo de manhã, eu te amo, Rafinha.

- Eu te amo desde o momento em que te vi…

Ninguém descarta a possibilidade de encontrar o amor no frevo da folia carnavalesca. Mas não são todos os foliões de fevereiro que trazem no baú do coração, e da nostalgia, quem o vá ocupar por todos os próximos meses do ano, e da vida. O Carnaval para a biomédica Rafaella Barbosa Vilela Ferreira (27) e o economista Bruno Oliveira dos Santos (31) é o início de um grande e inesperado romance, como são todas as histórias de agasalhar o peito. O casal se conheceu no famoso carnaval de Olinda, município do estado de Pernambuco declarado Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Rafaela nasceu em Santana do Ipanema e se criou em Olivença, ambas cidadezinhas do interior de Alagoas. É a caçula do quarteto de irmãos. Desde “piveta”, já pulava carnaval. Subia nos carros e partia, numa felicidade só!, rumo a Piranhas, município ribeirinho banhado pelo rio São Francisco, o Velho Chico. Bruno é natural de Santos, São Paulo, e morador de Osasco, também no estado paulista. Além dele, há duas irmãs. Bruno é o filho “do meio”. Como sua amada, também dava seus pulos animados, como todo bom garoto de carnaval.

Em 2012, ambos tomaram a mesma decisão. Foram curtir o batuque de fevereiro na histórica Olinda. E foi lá, em meio à folia das cores, dos frevos, dos confetes e das marchinhas, que se conheceram e tornaram a fantasia de quatro dias de carnaval em três anos de relacionamento – os primeiros de toda uma vida a dois pela frente. Descobriram juntos que amor é ponte aérea.

Foram muitos os voos desde o emblemático 18 de fevereiro. Mas o maior voo de todos já tem data para ecoar sentimento adentro e sobrevoar o céu azul da paixão. Escalado para o final de 2015, o casamento, que maltrata Rafinha de tanta ansiedade, promete fazer do dia 21 de novembro um acontecimento memorável. Novembro, nunca antes na história dos amores de fevereiro, será tão doce, como é a noiva de Bruno.

Era sexta-feira, quando Rafaella, umas amigas e um mundaréu de gente de todos os cantos do mundo, chegou a Olinda pela segunda vez. Para Bruno, era o primeiro carnaval na terra do frevo. Coincidência, ou não, Rafinha e ele foram parar na mesma casa. Ao vê-lo, comentou com a prima Flávia o quanto aquele moreno, alto e sorridente era bonito. Mas, neste dia, Bruno não chegou a vê-la. A reciprocidade da paquera viria no dia seguinte, depois que galanteios de sábado foram feitos e o domingo era amanhecer. Ficaram juntos, enfim.

Ele não lembra o porquê de ter ido conversar no sábado justo com Rafaella. Contudo, sejam lá quais foram as razões, a escolha não poderia ter sido mais acertada. Naquele dia, nem ele imaginaria que acabava de fazer uma escolha do tipo que fazemos poucas vezes na vida: escolheu, ainda sem saber, um amor de duração – classificação a ser elencada na lista de amores coléricos de Gabriel García Marquez.

Passaram o resto do carnaval trocando carinhos – sempre que olhares eram encontro – e banalidades via celular. Todavia, as mãos, que hoje não se desatam, principalmente quando o assunto é a história deles dois, ainda não tinham entrelaçado todos os dedos, embora o médio – o do coração – estivesse a caminho das grandes pulsações, como foram todas as flores, os bombons, as mensagens, as ligações, o anel de compromisso. E o de matrimônio.

“A menina mais linda da paróquia”, segundo Bruno, jamais cogitou que a distância não seria problema. Nem soprava pela cabeça do casal que aquela curtição de fevereiro, fosse se transformar em amor de janeiro a janeiro. Continuaram se falando, mesmo quando carnaval já era cinzas. E no primeiro final de semana de março, por um feliz equívoco, Bruno estava em Maceió. “Às vezes, você faz tanta coisa que não quer, né?! Eu vou fazer uma coisa que eu quero. Eu vou vê-la”, rememora o pensamento daquele dia.

Para ele, não foi um sacrifício embarcar aos finais de semana para estar com Rafinha. Bruno nunca teve que vir a Maceió. Bruno sempre quis vir a Maceió. Bruno, até hoje, é chegada e partida sem querer. Porque era, e é!, para ela que ele ligava para conversar – ele, que não tinha o costume de ligar para ninguém.

Depois da primeira vez que aterrissou em terras alagoanas, só ficou sem vir à Princesinha do Mar por 3 semanas seguidas uma única vez, e quando já eram namorados. Rafinha, que era felicidade em estampa, foi buscar no aeroporto o seu presente de aniversário. Ela era regozijo e por sê-lo não soube o que fazer, quando o reencontrou no aeroporto. Por não saber, o recepcionou com um carinhoso beijo no rosto. “Eu vim de tão longe pra ganhar um beijo no rosto?”, relembra Bruno às gargalhadas. Rafinha justifica tapando o riso com as mãos, como se fosse possível encobrir o quão abobalhada lhe faz Bruno: “Ah, eu não era namorada dele, né?” Não era ainda.

Quando vocês perceberam que era mais que um amor de carnaval?

- Quando eu vinha pra cá (Maceió), chegava domingo à noite e eu ficava na maior “deprê”, né?! Eu tinha que ir embora, já que trabalho de segunda a sexta…

- Ninguém sai de São Paulo finais de semana a fio só para curtir…

Os amigos de Rafinha desafiavam até quando ia durar a “empolgação” dos dois por causa da distância. Mas os incrédulos de coração só não sabiam que entre as vindas de Bruno e as idas de Rafinha, como quando ela foi em maio para conhecer a família dele, havia um motivo que fez de tudo possível. Aos poucos, tanto eles, quanto os desafiadores entenderam: era amor o combustível.

Em julho, quando já eram namorados oficialmente, Bruno foi à cidade de Rafinha para conhecer os pais dela. Confessa que amor à primeira vista mesmo, só por Olivença. “Banho gelado, muriçoca, a cidade que nunca chega…”, diverte-se Bruno. Há que se amar um bocado para suportar os poréns da relação. A tríade acima é um exemplo fiel aos todavias.

O pedido de casamento, ano passado (2014), como tudo que veio/vem de Bruno, foi uma surpresa feita de emoção. Ele havia programado fazê-lo, quando dessem um mergulho nas piscinas naturais da caribenha Maragogi. Mas a direção dos ventos sempre contraria as expectativas dos planos de Bruno. Rafinha não só se negou a mergulhar, como, por um deslize dele, viu a aliança na mão brilhando em sinal de “sim” para a vida inteira.

“Eu imagino que pra você casar com uma pessoa, você tem que admirar ela. Admirar o que há de diferente nela.” O sotaque, o jeito de falar, a origem de sua noiva, as palavras que até então não constavam no dicionário de Bruno, e todas as definições que estão por vir, foram, e continuam sendo, encantamento aos olhos e ouvidos do economista, ainda que de vez em quando não entenda um dito ou outro acolá. Além do amor em cada gesto, e de ser ele um homem que a conquistou pela inteligência, e pela beleza do ser, o que Rafinha mais gosta em Bruno é a capacidade que ele tem em ser cúmplice.

“Quando meu pai morreu, a gente não tinha nem um ano de namoro. Perdi ele num domingo às 22h. Às 8h da manhã da segunda, Bruno já estava aqui comigo. Foi muito importante pra mim”, conta ao chorar saudade e gratidão por, especialmente neste dia, ele ter estado para ser abraço. E conforto incondicional.

Bruno não se considera um homem romântico, embora Rafaela afirme que ele é mais romântico que ela. E desata em sensatez: “O gesto, muitas vezes, envolve romantismo, né?!” Sendo o gesto sinônimo de sorriso no rosto da futura esposa, então ele vai lá e compra as orquídeas e os serenatas.

Concordam que amor “também é loucura”, já que quando os convidaram a entrar pelas portas e janelas de suas vidas, o casal mal se conhecia. “Quando eu vinha (a Maceió), eu falava que vinha buscar meu coração” repete o bem-humorado Bruno o que dizia meio sem jeito. Só que toda semana ele deixava o amor em Maceió, para levar consigo a São Paulo na próxima, e na próxima, e na próxima semana. Semanas que pareciam não acabar nunca. Dias essencialmente feitos de “outra vez” infinito.

Dia 21 de novembro de 2015, será das mãos de Sandra Barbosa, mãe de Rafinha, que Bruno Oliveira dos Santos a receberá. “Não há pessoa que represente melhor meu pai do que ela (minha mãe)”, afirma a noiva do ano.

Mais que um amor de carnaval, Rafinha é…

– Minha vida!

E Bruno…

– A vontade de tá junto, de ver o outro crescer. São as alegrias. É o meu amor. Tudo, tudo que eu pedi a Deus.

 

Foto: Arquivo pessoal

artur nova

Arthur: um gol de placa

Era quarta-feira, eu tinha marcado um horário para conhecer Arthur Ytalo, na escolinha de futebol onde treinava. Nos encontramos às três da tarde e eu estava ansiosa para dar rosto àquela criança que todos falavam ser a revelação do futebol. Ele ainda não jogava em um grande time e nem estava escalado para campeonatos. Ele era apenas um menino, um pequeno, um gigante, que todas segundas e quartas-feiras encontrava aquilo que gostava de chamar de “sentido para a vida”.

Quando cheguei no Rei do Society, escolinha de futebol localizada no Sítio São Jorge, Arthur estava sentado em um banco esperando seu treino começar. Outros meninos menores jogavam bola e ouviam atentos às ordens do treinador. Os gritos de felicidade vinham quando a bola tocava o fundo da rede. Arthur não se movia, apenas observava todo o vaivém com os olhos.

Aproximei-me. Ele, tímido, estranhou minha curiosidade por sua vida. “Afinal, o que posso ter de especial?”, questionou sem tirar os olhos da pequena bola que ia e vinha nos pés dos pequenos jogadores.

A idade era pouca, apenas 14 anos, mas sua existência, marcada por tantas experiências precoces, parecia já se estender por uma eternidade. Arthur era filho das ruas, da cama de cimento e do céu estrelado e via na bola a sua única redenção. Para ele, não havia alegria fora dos gramados. “O momento que eu mais gosto da minha vida é vir pra cá jogar futebol, fora isso não vejo graça”, confessa enquanto abre um sorriso sem jeito.

Seu talento foi descoberto nas ruas por um agente social, Fabrício Sobral, enquanto o pequeno jogava futebol num campo improvisado na Praia da Avenida. Fabrício também pode ser chamado de anjo da guarda de Arthur, quem lhe estendeu a mão e ofereceu a chance de seguir com o futebol, ou melhor, começar a traçar um caminho diferente daquele que o futuro parecia lhe reservar. Arthur agarrou a chance sem pensar duas vezes.

Há seis meses correndo atrás dos seus sonhos, Arthur diz que não tem ídolos no futebol, mas torce pelo CSA e São Paulo. Sua melhor lembrança de vida, ao longo desses 14 anos, foi um gol que marcou contra a equipe infantil do Corinthians Alagoano. Nesse momento, um sorriso largo se abre e ele lembra com orgulho da suada conquista.

Chegar até ali não foi nada fácil. Atualmente, Arthur mora com a mãe e uma tia em uma favela de Maceió. Segundo ele, em sua casa só há um fogão pequeno e uns móveis velhos, a geladeira queimou. Quem dá comida é o vizinho, amigo da família. A mãe é viciada em drogas e se assemelha à morte, ainda em vida. Ele evita falar sobre o presente e o passado, estes não eram dos mais agradáveis. Arthur fala de sonho e de futuro. O pequeno gigante deixa escapar que um dia ainda quer ver toda a torcida gritando seu nome após fazer um gol de placa.

Arthur comenta que além da mãe e da tia, também tinha uma irmã, mas que há dois anos ela se foi. Seus olhos enchem de lágrimas e as pequenas mãos se apertam uma na outra quando se lembra da forma prematura como sua irmã partiu. “Foi estuprada e morta” e logo interrompe a narrativa. Apesar da dor, ele fala com ingenuidade do modo como tudo ocorreu. Uma ingenuidade infantil, de quem não entendia como pode existir tamanha crueldade.

Ele se despede. O treino já ia começar. Guarda seus pertences em uma mochila, inclusive um terço que retira do pescoço com todo o cuidado. “Quem te deu esse terço, Arthur?”, pergunto. “Uma mulher que conheci na igreja na época que eu passei na rua”. Sem olhar para trás, se manda para o campo como um foguete.

O pequeno atacante logo abre um sorriso iluminado como aquele fim de tarde que se anunciava atrás das árvores. Ele corre ritmado, parecia um samba, uma bossa, um poema, uma imagem. O sorriso que carrega agora nada mais é do que a felicidade de estar exatamente onde gostaria, no lugar em que melhor se encaixa: o campo de futebol.

 

Foto: Pei Fon/Secom Maceió.