outubro 2014

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1 por cento da Sé Square

Onde a luz verde precisa se cercar de energia

Por Andréa Ascenção

A Praça da Sé é um lugar onde tudo acontece ao mesmo tempo. Próximo à realização da Copa do Mundo de 2014, ela pode amanhecer com um nome diferente: Se Square, informa em letras brancas a placa no alto dos postes. Numa tarde de sábado pode-se contar cinco engraxates com suas cadeiras vazias; nove bancas de jornais; alguns dos 61 sinos da Catedral Metropolitana da Sé chamando os fieis com uma sequência rápida de badaladas, seguidas de uma breve pausa e outra sequência mais alta e melodiosa produzida pelo maior carrilhão de sinos da América Latina; duas placas que sinalizam ser proibido estacionar, uma delas de cabeça para baixo; anúncios de emprego para porteiros, sem exigência de experiência, com salário de R$ 938,04 + benefícios, colados em postes; um aglomerado de 39 homens e uma mulher em volta de um mendigo, enquanto um pastor encharcado de suor confessa já ter andado na rua sem camisa e usado cabelo moicano pintado de loiro; uma senhora embaralhada com os próprios pés, caindo de joelhos sobre as pedras brancas da calçada. Três transeuntes ajudam ela a se recompor. Nada grave acontecera.

Todos os dias é possível encontrar buracos retangulares nos pés das bases de alguns dos postes ornamentais históricos. Isso, porque as tampas de ferro que guardam a fiação elétrica são roubadas e vendidas para fundição.

“99% da população vai dizer que a Praça da Sé é perigosa. A molecada com cigarro de maconha na mão vem pedir coisas. É normal. Quem vem de fora estranha, mas quem é daqui acha natural. A segurança aqui é 10”, conta o jornaleiro José Hamilton, sorrindo para a policial que entrara em sua banca de jornal pedindo um carregador de celular emprestado. O nordestino que trabalha há 19 anos, das 5h30 às 17h30 na Praça da Sé, procura ajudar a conhecida, mas por ora não encontra nada.

Ele chegou em São Paulo no ano de 1986, e de lá para cá seus olhos testemunharam tanto acontecimentos que foram contados nas páginas de jornais, como situações inusitadas, vivas apenas em sua memória e na das pessoas que estiveram na Praça da Sé.

Há alguns anos uma Parati, modelo de carro popular lançado em 1982, apareceu no meio da Praça da Sé embrulhada para presente, com um laço. “A amiga ali – aponta José para a colega, dona da Banca Central – deu de presente para o namorado, e vieram aqui entregar”.

De repente suas lembranças são interrompidas.

– Ô, Cebola? Chega aqui, caralho! – grita uma moradora de rua, descendo, com pressa, a Praça da Sé.
“Não tem o que fazer. Não adianta internar uma pessoa que dali 30 ou 90 dias está na rua e é tratada como doida. A política pública não tem como melhorar o ser humano. Se tirar eles daqui, vão para outro canto”, opina José.

Um grupo de moradores de rua dorme no chão, ao redor da estátua de Padre Anchieta. Uma mulher sentada participa de um monólogo sem sentido. José aponta a cena e sente “cheio de zumbi na rua”. “Quando tem casamento de bacana, a polícia vem dar banho e comida”, conta.

Contudo, José não reclama, ele afirma que nunca teve qualquer problema com os dependentes químicos. “Aqui é bom demais. Estar no meio do público é divertido. Diversão ao ar livre”. Ele gosta dos artistas de rua.

A Praça da Sé é como um teatro a céu aberto. A frente da Catedral Metropolitana descortinam-se 31 troncos esbranquiçados de Palmeiras Imperiais, que podem viver até dois séculos e checar a 40 metros de altura. Sem paredes para isolar o som, músicos, artesãos e líderes religiosos disputam a atenção do público.

Na calçada entre as bancas de jornais Mônaco e Pato, dois bonecos com cabeças de caveiras dançam e tocam bateria. Um deles tem o crânio maior, branco, com sobrancelhas e bigodes pretos pintados. Os cabelos compridos são feitos de correntes de metal prata. O esqueleto é montado com uma sequência colorida de tampas de garrafas pet e as mãos foram algum dia de bonecas de plástico. Elas estão amarradas a barbantes que se prendem a um anel no dedo anelar do manipulador. O outro boneco não tem a parte de baixo do corpo, a cabeça é cinza e o cabelo dourado foi colado em estilo moicano. Em seu tronco há um pedaço de madeira que funciona como o bumbo de uma bateria real ao comando do pé direito do controlador. Os tambores da bateria das caveirinhas feitos de latas de azeite e banha estão pintados de amarelo, assim como o banco dobrável de madeira que suporta o artista de rua conhecido como Caveirinha.

Arruelas de metal, comumente usadas para vedar telhas, fazem as vezes de pratos da bateria pregadas ao tambor. No pé esquerdo de Caveirinha, uma espécie de cone usado em volta do sapato ao bater numa vasilha de metal encorpa o ritmo da música.

“De que me adianta viver na cidade
Se a felicidade não me acompanhar
Adeus, paulistinha do meu coração
Lá pro meu sertão, eu quero voltar
Ver a madrugada, quando a passarada
Fazendo alvorada, começa a cantar
Com satisfação, arreio o burrão
Cortando estradão, saio a galopar
E vou escutando o gado berrando
Sabiá cantando no jequitibá”

Presas ao pedestal do microfone, Caveirinha traz sempre algumas folhas de papel escritas à mão. Na manhã do dia 1º de março, ele toca duas vezes a música de Belmonte e Amaraí, “Saudade da minha terra”. Uma das mais pedidas, por isso, ele pouco precisa ler a letra da canção. O som que tira do violão aprendeu sozinho. Há oito anos, ele deixou Curitiba, capital do estado paranaense, e, desde então, percorre diversas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul “cantando de coração”.

Todos os detalhes do espetáculo de rua criado por Caveirinha são inspirados em outros artistas que ele assiste Brasil a fora. “Aí você vê os caras e pensa: vou inventar uma pessoazinha pra ajudar”. Caveirinha acabou criando dois parceiros, os bonecos. “Porque ajuda, né? Você cantando e tocando violão, então tem uma colherzinha. Os caras aí forma com mais dois, três, cinco… aí se não dá certo, já começa briga e aquela coisarada. E assim não, eu mexo tudo enquanto estou cantando. Com eles (os bonecos) não tem briga, não dá despesa nenhuma”, prefere o cantor, violonista e controlador de caveirinhas.

Antes da virada do milênio, o artista que hoje tem o bigode raspado, leva os cabelos quase sempre presos em um rabo de cavalo e não dispensa um chapéu, deixara o ramo da construção e passara a se apresentar como artista de rua.

Quando chegou em São Paulo, Caveirinha fez suas primeiras apresentações dentro de vagões de trem e metrô da cidade. Nos dias em que havia jogos de futebol, os usuários dos transportes coletivos lhe perguntavam para que time ele torcia. Caveirinha é Santista, mas antes de responder queria saber o time de seu público.

– Você é o quê? – devolvia ele, e emendava na resposta do interlocutor:
– Sou também…

“Aí entrava no outro vagão, já era palmeirense. Eu vou criar causo com os outros por causa de time? Não ganho nada”, pensa Caveirinha, que deixou de se apresentar nos vagões depois de ter nove instrumentos apreendidos, quatro deles cavaquinhos. “É que é proibido. Fazia, mas sabia que era proibido”. Foi então, que Pedro Barbosa ganhou uma das caveirinhas, arrancou a cabeça, começou a estilizar os companheiros de palco, adotou o apelido de Caveirinha e partiu para as ruas do centro da cidade. “Rapaz! Para bater essa cidade aqui não tem. Tem cidadinha que é do tamanho do ovo, cê fala aqui e escuta ali. Mas você ganha só um dia. Aí no outro dia já não ganha nada, porque é muito conhecido, muito pequenininho. Agora São Paulo é muito bom. Cê tá aqui hoje, amanhã tá um pouco mais pra lá e o pessoal é tudo diferente”, percebe Caveirinha sobre a vantagem de se apresentar na região central da cidade que tem aproximadamente 19 milhões de habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualizados no dia 19 de março de 2014.

A Praça da Sé é um dos mais lucrativos palcos para o Show de Caveirinha. “Sempre tem um pessoal que planta aqui. Aqueles peruanos”. O público que assiste em pé é predominantemente masculino e vai chegando cada vez mais próximo. A execução de duas músicas é suficiente para formar meio círculo de gente em frente ao artista de 58 anos. Alguns fãs são itinerantes, outros estão sempre por perto. Um deles também trabalha na Praça da Sé. Ele veste um colete igual aqueles que os jogadores usam para separar os times de futebol durante os treinos. Mas neste colete pode-se ler de longe “compro ouro”. Por um instante, o comprador para ao lado de Caveirinha e dança como se tocasse um violão invisível. Ao final da música faz uma breve reverência, inclinando o corpo para frente, como se o artista fosse ele.

Uma mulher brota entre as pessoas da plateia e logo toma conta do centro das atenções. Ela dança na maior parte do tempo de olhos fechados, solta o pescoço e balança a cabeça para os lados e para frente, o que deixa seus cabelos negros caírem sobre o rosto suado. A coreografia segue com giros lentos, os braços abertos e rebolados curtos salpicados por toda a extensão do meio círculo formado pelo público. Quando “Tordilho Negro” – canção de Teixeirinha, que Caveirinha aprendeu quando viajou para o Rio Grande do Sul – começa, ela puxa a parte de trás de sua blusa preta para baixo, deixando, além dos ombros, o sutiã vermelho aparecer. A certa altura, Caveirinha brinca que vai levar a “bailarina” junto para os próximos shows.

Duas garotas carregando sacolas de compras nas mãos atravessam a rua, sem tirar os olhos de Caveirinha, pelo menos até onde a vista pode alcançar.

O músico costuma tocar e cantar músicas que o público pede, mas às vezes arrisca alguma de sua autoria.

Quando gritos de uma massa ecoam pelo país inteiro é porque algum sentimento tomou conta do espírito dessa sociedade. Momentos como esse estimulam a necessidade de expressão. Os artistas, sensíveis que são por natureza, costumam decifrar rapidamente o desejo coletivo, botando tudo para fora. Foi nesse contexto que nasceu “Isabella”, uma música baseada no pesar e na exigência de justiça que se alastrou pelo Brasil a partir do dia 29 de março de 2008. Na ocasião, uma criança de cinco anos, chamada Isabella Nardoni, morreu em São Paulo, após ser esganada pela madrasta e jogada do sexto andar do prédio onde morava, pelo próprio pai. Ambos foram condenados por homicídio triplamente qualificado.

“Primeiro peça a Jesus
O nosso pai verdadeiro
Que me dê inspiração
Pra mim, meu companheiro
Pra relatar este fato
Que chocou o mundo inteiro
Não sabia da sua morte
O asar bateu mais forte
Dentro do apartamento
Este fato que eu falo
É da menina Isabella
Com cinco anos de idade
Foi jogada da janela
Tem que mofar na prisão
Quem fez este fato a ela
Já estão presos na cadeia
O safado e a safada
Que tirou a vida dela
Uma menina feliz
Com toda a vida pela frente
Não sei se ela foi jogada
Ou caiu por acidente
Merece pena de morte
Quem matou esta inocente
Eles já estão pagando
O erro que cometeram
Dentro de quatro paredes
Dia vinte e oito1 de março
Que mataram essa criança
Era uma menina linda
Muito alegre e sorridente
O seu pai ficou maluco
Foi na onda da serpente
Isabela foi com Deus
Na hora que faleceu
Deixando os sonhos com a gente”

Outro dia Caveirinha foi arrancar um dente no consultório do dentista que trabalha no prédio da Praça da Sé, em cima da loja Nelson das Bolsas. Chegando lá, o dentista desabafou:

– Caveirinha, sempre vejo você cantando. Agora, vem aqui, eu vou ligar o celular… vê se você escuta o celular. Eu não escuto.

O dentista reclama do som alto que outros artistas de rua fazem na Praça da Sé e nas redondezas. Caveirinha se preocupa com isso também. “Os barulhos vai tudo lá. Tudinho nos prédios. Aí a pessoa acha ruim”. Ele conta que ninguém mexe nos cabos de seu amplificador. “Não criei confusão com ninguém, nunquinha. É assim, eu falo, se tiver perturbando por causa do barulho, eu mudo de lugar”.

O Show de Rua do Caveirinha dura o tempo limite da bateria que alimenta seu amplificador Peavey – cerca de três horas, incluindo as pausas para limpar a garganta, com alguns goles de café preto, que Pedro traz dentro de uma garrafa de plástico. Durante os intervalos, ele tira os óculos escuros e enxuga o rosto com uma toalha de pano. É nesse momento fãs se aproximam, alguns perguntam se ele tem um CD para vender.

É de uma mochila pendurada na alça do carrinho improvisado para carregar todo o equipamento de som do show, que ele tira quatro unidades do CD que gravou com um dos quatro filhos. “Tem oito músicas cantando aí, eu e um moleque meu. Só que ele faz a primeira voz e eu faço a segunda”, esclarece para que os fãs não estranhem ao ouvirem uma voz diferente.

Quando a música acaba, o artista anuncia ao microfone a “caixinha do Caveirinha”. Certa vez um casal parou a sua frente e disse:

– Vamo dá uma força. Coitado do Caveirinha…
– Não senhor! Pode pegar o seu dinheiro de volta na caixinha. Meu trabalho é honesto. Não sou cego. Eu uso o óculos que faz parte do Show do Caveirinha. Se achar de acordo de ajudar, a caixinha tá aqui, ó – disse apontando para frente, onde uma caixa de madeira fica no chão.

Várias pessoas da plateia depositam dinheiro, na maioria das vezes moedas. É uma espécie de couvert artístico pós-pago, apenas por quem sente vontade de remunerar Caveirinha pela apresentação. E não tem valor tabelado.

Uma jovem moradora de rua, permanece em pé, com os pés descalços, enrolada em uma manta verde de tom claro. Ao final da última canção ela sorri, bate palmas, caminha para frente e deixa na caixinha de Caveirinha um pirulito em formato de coração.

A Praça da Sé é um lugar onde as pessoas falam sozinhas. Um grupo de ciganas se divide entre cuidar de suas crianças e conseguir algum dinheiro. Elas chamam por homens que passam em direção à estação Sé do metrô. Aos gritos jogam para cima que têm algo importantíssimo para dizer. Algo que insinuam poder mudar a vida de alguém. Quando as palavras caem nos ouvidos dos transeuntes, a maioria finge não escutar, aperta o passo e continua subindo a ladeira encostada a Catedral. Às vezes um homem titubeia. É o suficiente. Agora ele está parado, prestando a máxima atenção. A cigana diminui o tom de voz, de modo que só ele possa ouvi-la e bem de perto.

Com passos arrastados um homem vagueia em frente a Catedral Metropolitana da Sé. Sem olhar para o livro aberto em uma de suas mãos, ele alterna com frequência o volume de sua voz: “JESUS, tenha misericórdia de mim…”. Todos desviam os passos de sua direção. Ninguém lhe ouve, ninguém nota a caixa de isopor que ele carrega, sua barba preta na altura do peito, com alguns fios brancos entremeados descendo pelas laterais do rosto e pelo queixo ou as dobras na barra de suas calças tão encardidas e desbotadas quanto a camiseta preta com letras gigantes que ocupam toda a parte da frente, mais uma fatia da lateral escondida pelo braço direito.

Alguns pais que saem do metrô em direção a Praça da Sé avisam para as crianças se afastarem do homem da camiseta de Jesus. “Pra cá”, dizem eles.

A Praça da Sé é um lugar de pessoas invisíveis, que surgem sabe-se lá de onde. De repente elas se infiltram em pequenos grupos, que se formam ao redor de pastores e artistas de rua. Algumas pedem ajuda e vão empurrando contra o corpo de quem encontram pela frente um pedaço de papel com palavras digitadas em preto, pedindo ajuda. Tais palavras deveriam justificar sua audácia, se fosse possível aos outros ler a folha plastificada estando esta de cabeça para baixo. Mas cegas que são, estas pessoas não veem que circulam por aí como se fossem invisíveis. Tanto quanto as que permanecem sentadas no chão, incapazes de movimentar os membros inferiores. Ou as que se reúnem a cada 15 dias na escadaria da Catedral da Sé.

Às vezes um parente do sexo masculino as acompanha, mas o grupo é predominantemente formado por mulheres acima de 50 anos. Elas se enfileiram silenciosamente em cima dos degraus. Quando se reencontram, não há muito o que dizer. No dia 15 de março de 2014 nenhuma delas tem novidades. Quase todas estão vestidas com uma camiseta branca, algumas com camisetas vermelhas que trazem na altura do peito a imagem de um rosto estampada.

Uma senhora se aproxima e pede para eu, que estou com uma caneta em mãos, escrever um lembrete no verso de um recorte de cartolina:

[31 de março – escritório]

Dona Neide precisa ter todos os compromissos anotados para não esquecê-los. Ela também não consegue lembrar com exatidão a idade que a filha mais velha tinha quando desapareceu. “Ela falou que ia para a casa da minha prima e não voltou mais. Sumiu. Não sei se tinha 16 anos”.

Na parte da frente do cartaz de dona Neide, está colada a foto mais recente de Odeti Pereira dos Santos. A imagem condiz com a de uma adolescente. “Hoje ela tem 41 anos” repete-se no cartaz, ora escrito com o traço grosso e preto de uma caneta de ponta porosa, ora escrito em azul com um traço fino. Dona Neide não tem uma projeção de como sua filha pode se parecer hoje em dia, mas acredita que se olharem para ela e para a foto do cartaz seria fácil identificar a menina desaparecida, por causa da grande semelhança física entre mãe e filha. Talvez esteja invisível para dona Neide a profundidade dos sulcos horizontais em sua testa, os acumulados embaixo dos olhos e os inclinados que correm das narinas em direção aos cantos externos da boca.

A filha mais nova de dona Neide era uma criança quando o fato aconteceu e pouco lembra da irmã. Há anos esta integrante da Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD), conhecida como uma das Mães da Sé persiste, sozinha, na busca pela filha. “Quando ela desapareceu, me maltrataram na delegacia. Disseram que lá não era lugar de procurar criança desaparecida. Doeu”, conta com economia de palavras, mas não de sentimentos.

Desde de 30 de dezembro de 2005, a Lei nº 11.259, acrescentou ao Estatuto da Criança e do Adolescente a obrigatoriedade de investigação policial imediata em caso de desaparecimento de criança ou adolescente.

“§ 2º A investigação do desaparecimento de crianças ou adolescentes será realizada imediatamente após notificação aos órgãos competentes, que deverão comunicar o fato aos portos, aeroportos, Polícia Rodoviária e companhias de transporte interestaduais e internacionais, fornecendo-lhes todos os dados necessários à identificação do desaparecido.”

Mas no final da década de 1980, dona Neide não pôde contar com a Lei da Busca Imediata. Sequer conseguiu registrar um Boletim de Ocorrência. Os anos se passaram sem uma única pista do paradeiro de sua filha. Quem sabe se o Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Desaparecidos – desenvolvido em fevereiro de 2010, pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República em parceria com o Ministério da Justiça e com o apoio da Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidas –, tivesse as informações interligadas e atualizadas junto a todas as delegacias brasileiras, Odeti teria sido localizada? Ou a média de 57 pessoas desaparecidas por dia – segundo estimativa do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) – fosse reduzida?

A realidade mostra desencontros de informações. O site do DHPP traz um resumo dos boletins de ocorrência registrados na Divisão Antissequestro, que fica sob responsabilidade da 4º Delegacia de Investigação sobre Pessoas Desaparecidas, localizada no bairro da Luz, da cidade de São Paulo. Até o dia 7 de abril de 2014, 411 casos de crianças e adolescentes desaparecidos estão abertos. Já o site do Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Desaparecidos, informa que existe o total de 330 casos cadastrados em 19 estados. Apenas em São Paulo, o número cai para 33, sendo que nenhum foi solucionando até esta mesma data. Não é informado quando ocorreu a última atualização, no entanto, mesmo sem essa informação, a discrepância dos números deixa claro o quanto o sistema para busca de pessoas desaparecidas no Brasil é ineficiente.

Enquanto isso, resta a dona Neide continuar segurando a cartolina na altura da boca, como se não restasse mais nada para falar sobre si mesma, além do que se pode ler na parte da frente do cartaz.

Desaparecida
Odeti Pereira dos Santos
Hoje ela tem 41 anos
Dona Neide / Cel: 6563-1053
Mães da Sé
Denuncie: 33373331

Ela parece viver em um estado permanentemente anestesiado, assim como a maioria das outras Mães da Sé, que neste sábado também respondem as primeiras perguntas da repórter e apresentadora Solange Calmon. O discurso de dona Neide é automático. Quantas vezes as Mães da Sé devem ter compartilhado suas histórias, em frente a uma câmera como acontece agora, ou em qualquer lugar por onde passam, para conhecidos e desconhecidos?

O efeito da anestesia acaba, subitamente, para todas as Mães da Sé quando elas chegam no ponto da história em que suas vidas foram interrompidas. Com o avanço da entrevista a tristeza, indignação e aflição escorrerem pelo rosto inevitavelmente em todos os casos:

“Taxista desaparecido
Maio 2012
Rodrigo Correia Santos”

“Desaparecida
Márcia Silva Honório”

“Desaparecido
Leandro Ananias Moura
Mães em luta”

“Ana Paula Moreno
Desaparecida desde 2009”

O sol forte faz a maquiagem de Solange derreter, enquanto mais histórias são registradas pela equipe de filmagem do programa “Inclusão”, da TV Senado. O microfone com fio dá voz a narrações sobre meses e anos de esperança.

– Qual o seu nome? Como sua filha/seu filho desapareceu? – são algumas das perguntas feitas a todas as mães.
– O que a polícia fez até agora? – indaga Solange.
– Um boletim de ocorrência – é a resposta de Sandra Moreno, e também a mais recorrente nesse universo desaparecido.

Foi por isso que em 1996, Ivanise Esperidião da Silva e Vera Lúcia Gonçalves fundaram a ABCD. Ambas ainda buscam formas paralelas à oferecida pelo governo para encontrarem seus filhos desaparecidos e ajudarem outras famílias que passam pelo mesmo problema. Dos quase 10 mil casos cadastrados pelas Mães da Sé em todo o país, 2.937 foram solucionados. Este é o número de crianças e adolescentes encontrados, mas a repercussão dos pedidos de socorro através da imprensa não basta.

O desaparecimento de uma pessoa no Brasil não é um crime, portanto, em um país que tem as prisões lotadas, quando uma pessoa desaparece, em média leva-se uma semana para checar se há algum registro sobre ela em delegacias, hospitais e nas sedes do Instituto Médico Legal. Somente depois, investigadores iniciam uma busca em campo, que varia de caso para caso.

Após passar por esse processo, Sandra Moreno teve a iniciativa de pesquisar o que poderia ser feito para encontrar sua filha desaparecida. O resultado é a criação do Projeto de Lei de Iniciativa Popular pela Pessoa Desaparecida no Brasil, que entrou no ar (www.abaixoassinadobrasil.com.br) no dia 1° de setembro de 2012.

O Projeto promovido pela ABCD tem como principal intuito criar delegacias especializadas em todos os estados e um sistema que utilize um software capaz de interligar automaticamente as informações sobre os desaparecidos com polícias militares, federais, internacionais (Interpol) e fronteiras, o que agilizaria o processo de verificação e busca de pessoas desaparecidas em toda a extensão territorial do país. Para que isso aconteça, é necessário que 1% de eleitores brasileiros válidos assinem o abaixo-assinado. Essa porcentagem parece pequena, mas corresponde a cerca 1,5 milhão de brasileiros, sendo que cada estado deve ter, no mínimo, três décimos por cento do número de eleitores nacionais. Quando isso acontecer, o Projeto de Lei é levado para aprovação do Congresso Nacional.

A apresentadora Solange Calmon avisa que as entrevistas feitas com as Mães da Sé serão exibidas no programa do dia 29 de março de 2014. E antes de voltar para Brasília, ela revela que o motivo de sua pauta na Praça da Sé é “para tornar essas pessoas visíveis”.

A Praça da Sé é um lugar onde acontecem monólogos incoerentes. José Alves Meira é baiano, mora em Santo André, município de São Paulo, e carrega uma mochila preta nas costas. Atraído pela equipe de filmagem que grava os depoimentos das Mães da Sé, ele para em frente a escadaria da Catedral Metropolitana.

José é do tipo que puxa papo com quem passar por ele, cutuca as pessoas o tempo todo, como se precisasse segurar a conversa com as mãos. Ele tem opiniões formadas e as compartilha sem prévio aviso, basta ver um homem andando descalço na rua para se exaltar.

– Albergue só tem maloqueiro e sem vergonha. Mulher vai pegar filho disso? – recrimina.

“Eu acho que é assim, quem é bom nasce bom. Você nunca troca ideia com quem não conhece”. Para José essa é a forma certa de agir, caso contrário o corre o risco de se transformar em uma pessoa ruim é muito alto. Só ele fala, sem responder á maioria das pergunta que faço.

Seu bigode grisalho e a calvície dão alguma ideia, mas quando pergunto quantos anos tem, ele dá um passo para trás, apalpa os bolsos da calça, puxa a mochila para frente, deixando-a pendurada por apenas uma alça, ameaça procurar algo dentro dela e devolve outra pergunta:

– Você quer ver meu RG?
– Não precisa. Só queria saber quantos anos o senhor tem…

Ele volta a pendurar a mochila nos dois ombros e emenda outro assunto, questionando porque as autoridades dão comida, roupas e bolsas de ajuda financeira. Na sequência também responde, “tem que dar emprego, criança”.

José gosta de assistir ao apresentador homônimo, mais conhecido como Datena, que comanda o popular telejornal Brasil Urgente. “Ele não tem medo de morrer, ele fala tudo”, elogia José, o baiano, que traz os óculos de grau pendurados no decote da camiseta polo.

A Praça da Sé é um lugar que vigia e silencia vozes. Há pouco uma rápida chuva refrescara o ar do centro da cidade de São Paulo. Começa a escurecer, e a Praça perde paulatinamente seu movimento. Às 19 horas ninguém mais senta nos degraus da Catedral. Algumas bancas de jornal abaixam as portas, mas a maioria funcionará até as 22h. Na esquina da Rua Senador Feijó, os funcionários da casa de sucos naturais fazem um mutirão para deixar tudo limpo. Alguns lavam o chão, enquanto outros vigiam a entrada do estabelecimento ou estocam laranjas. A água escorre pela calçada, formando pequenas poças de espuma e sujeira. Os varredores de rua também continuam trabalhando até as 22 horas. Em toda a cidade há cerca de 3.500 varredores, também conhecidos como garis, que recolhem aproximadamente 300 toneladas de lixo por dia. Apenas na Praça da Sé é possível encontrar até três deles ao mesmo tempo. Todos vestem uniforme e boné verde escuro, por segurança, com faixas que refletem luz na altura do peito, dos braços e tornozelos quando andam pelas ruas à noite. Cada gari arrasta uma lixeira com rodinhas, uma pá e uma vassoura sem muita pressa, porém sem permissão para conversar ou parar. Um homem de meia idade varre o lixo próximo à estátua de Padre Anchieta, o Apóstolo do Brasil. Ele teme que o fiscal o veja parado ou respondendo às minhas perguntas. “Já deu problema com gente que vem fazer pesquisa”. Ele encerra a conversa se desculpando por não ter autorização para falar.

Cleide, outra gari, também alega que não pode parar ou conversar, mas cede alguns poucos minutos. Ela tem os cabelos compridos e presos em um rabo de cavalo, que passa pela abertura da parte de trás do boné. Suas unhas estão pintadas com as cores da bandeira do Brasil. Cada uma tem um desenho diferente, uma delas é enfeitada com bolinhas brancas.

Cleide tem 38 anos, há dois trabalha das 14h às 22h varrendo as ruas da região central da cidade. Antes era ajudante, mas não tinha a carteira de trabalho assinada. “É gostoso trabalhar na rua, às vezes você ri, mas também é difícil. Às vezes você chora com a situação. Tem muita criança que não tem o que comer”, conta pensando nos filhos que estão em casa.

“Quando a gente vê que o clima tá muito pesado, passa, disfarça, depois volta para varrer”, explica Cleide sobre os usuários de drogas que vivem na região e sempre podem provocar situações violentas. “Já jogaram meu carrinho no chão”, lembra. Com o material de trabalho quebrado, a gari precisou ir até a base da Prefeitura para justificar o dano e substituir a lixeira com rodinhas.

A Praça da Sé é a última casa de resistência de sonhadores. Alguma coisa tornara aquela mulher atípica, mesmo na primeira vez em se põe os olhos sobre ela. Talvez fossem as unhas compridas, pontudas e limpas ou o jeito como a encontrei.

Ana Pereira Dias usa um chapéu preto, com uma faixa estreita de barras brancas, como se fossem peças de dominó caindo em sequência. A pequena aba do chapéu deixa amostra parte de seu cabelo crespo dividido em dois pequenos coques, presos com duas presilhas brancas na altura da nuca. Apesar de ser uma noite de verão, ela veste uma blusa de lã verde clara com gola alta, por cima, um casaco de frio preto com o zíper aberto; calça jeans e tênis branco.

Às 19h40, de costas para a Praça da Sé, Ana aproveita a iluminação da banca de jornal, que chega até o degrau de uma porta com a placa “Aluga-se”, para ajeitar suas caixas de papelão.

A entrada de um comércio fechado é escolhida para passar a noite, sozinha, como se estivesse dentro de um casulo. Uma casca de papelão tão vulnerável e frágil quanto a própria vida de Ana neste momento.

Há um ano, ela perdeu tudo. O despejo por falta de pagamento de aluguel é o sétimo motivo que mais leva os cidadãos na cidade de São Paulo a se tornarem moradores de rua – em primeiro lugar, com 42%, aparecem desentendimentos com os familiares. Quando foi despejada, Ana entrou para o universo de 6.765 indivíduos que vivem em “situação de rua” na cidade de São Paulo, segundo a pesquisa realizada pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) para o Censo de 2011, que separa outras 7.713 pessoas em um grupo que vive em centros de acolhida. “Vivo na rua obrigada. Não sou usuária, não faço programa”, adverte Ana em tom ríspido.

A maioria das pessoas que vive nas ruas são homens. As mulheres representam 23,9%, um número que cresce quando se considera a idade adulta, como a de Ana, que com 73% representa a maioria, de acordo com o perfil comparativo da FESPSP, que leva em conta a soma de 14.748 indivíduos. Estão aí os que dormem nas ruas e em centros de acolhida.
– A senhora sempre dorme na rua? – pergunto a Ana.

– Nem dorme. Passa a noite em branco. É perigoso, já roubaram minhas coisas.

Quando foi despejada da pequena loja de artesanato em que trabalhava, Ana tinha R$ 300,00 no bolso. Com esse dinheiro comprou miçangas e fio de náilon. “Tem que ir acochando”, diz ela ao tirar de uma sacola plástica um cachorro amarelo e um jacaré branco que fabricou manualmente. Cada peça, com cerca de 6 cm é vendida nas ruas por R$ 5,00. Já um outro jacaré que tem 22 cm custa R$ 100,00. Com o lucro das peças de artesanato, Ana compra comida, mas isso não passa de um “bico”. “Vivo deprimida. As pessoas dizem que o dinheiro não faz falta, que vive sem. Eu não. O dinheiro faz falta”, alega.

Com o pai que era barbeiro e também integrava uma banda, Ana aprendeu a cantar e tocar violão. “Meu negócio é a carreira artística”, revela a moradora de rua, que sem aviso se liberta.

A postura defensiva é deixada para trás, as mãos dançam no ar, surge um sorriso. Agora seu corpo gira, calmamente, para os lados. O nariz pequeno se esconde entre as maças de seu rosto bem arredondadas que ganham um contorno mais volumoso conforme o ritmo das palavras. Sua voz, antes rude, torna-se suave e cristalina. Quando canta, Ana se reconstrói.

“Você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar
Mas você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar

Caviar é comida de rico curioso fico, só sei que se come
Na mesa de poucos fartura adoidado
Mas se olha pro lado depara com a fome
Sou mais ovo frito, farofa e torresmo
Pois na minha casa é o que mais se consome
Por isso, se alguém vier me perguntar
O que é caviar, só conheço de nome”

Pergunto se posso gravar essa versão de “Caviar”, do músico Zeca Pagodinho.

– Pra que é? – desconfia Ana, meneando a cabeça, como sinal de reprovação.

Continuo, então, ouvindo-a, apenas com um bloco de anotações e uma caneta em mãos. Ana também gosta de cantar músicas de Amado Batista, Jair Rodrigues e Roberto Carlos. A próxima palhinha chama-se “Dancei”, canção de Martinho da Vila.

“Quem tem seu amor não dorme
Eu sei
Por causa desses conformes
Dancei
Igual pipoca no fogo
Pulei
Depois da casa arrombada
Acordei
Aviso ao bicho homem
Cuidado com a mulher
Com carinho nos consome
E se faz tudo que ela quer
Os mais velhos me falaram
E eu não acreditei
O resultado agora
Dancei”

Quando o assunto é família, Ana se torna arredia novamente. Ela diz que seus familiares têm conhecimento sobre a situação em que se encontra, mas que só voltará a procurá-los depois que tiver concretizado seu sonho de viver de arte.

Muitos artistas de rua que se apresentam na Praça da Sé e nas proximidades são convidados por olheiros do popular Programa do Ratinho, para participarem de um quadro de calouros. Ana sequer cogita tentar se apresentar neste programa para o qual ela faz uma careta e completa: “não gosto de palhaçada”. Ela tem como meta de vida participar do quadro “Se vira nos 30”, do Domingão do Faustão até o fim de 2014. “Quero a Globo. Quero uma coisa de verdade”, assegura sobre a emissora.

Em 1991, Ana foi assistir a um espetáculo circense, quando surgiu um convite para integrar o grupo de artistas do circo. Vislumbrada com a possibilidade, ela aceitou, mas uma vida itinerante não era o que ela queria. “Fica uma semana, monta, desmonta, vai para outra cidade”. Pouco tempo depois, Ana disse: “chega”. Outras oportunidades vieram, como quando foi convidada para participar do Show de Calouros, programa apresentado por Silvio Santos no SBT entre 1973 e 1996. Mas, desde o princípio, Ana trava uma batalha contra um inimigo interno. “Por causa da minha timidez que eu não tô lá”.

Décadas antes de vir morar nas ruas do centro da cidade de São Paulo, Ana foi reprovada em muitos testes quando revelava ser tímida. Em outras ocasiões deixara de retornar ligações de produtores pelo mesmo motivo. Outro problema que surgiu recentemente é o fato de não ter um celular. Isso também fez com que perdesse algumas oportunidades de trabalho. Quando os olheiros ou alguém da produção dos programas de televisão precisam entrar em contato com Ana, não têm para onde ligar.

Ela faz uma breve pausa, e um rapaz apressado aparece. Ele se dirige a mim:

– Moça, você é do Faustão?
– Não.
– Tenho um boneco pra mostrar para ele – explica, gesticulando como se quisesse indicar que o boneco está dentro de sua mochila, pendurada nas costas.

O rapaz desaparece correndo, do mesmo modo que surgiu. Ana volta a cantar com as duas mãos na cintura. Ela gira levemente o corpo, sem fixar o olhar, perde-se no largo e escuro horizonte como se estivesse entoando às multidões “Pagode na casa do gago”, de Bezerra da Silva.

“Fui num pagode
Na casa do gago
E o rango demorou sair
Acenava prá ele
Ele mais qui qui qui
Qui qui qui qui qui qui
Guenta aí…
O pagode foi crescendo
Sob a luz de um lampião
Com cuíca e pandeiro
A moçada batia na mão
A atração da brincadeira
Era a nega do gago sambando
Mas a fome também era negra
Ninguém mais tava aguentando…
E o cara da viola
Deu bobeira e caiu pelo chão
O gago pulava, sorria e gritava
Qui qui qui qui qui
Toma mais um limão…
Toma mais um limão
Qui qui qui qui qui qui
Que você fica bão
Toma mais um limão
Qui qui qui qui qui qui
Que você fica bão”

Àquela altura do dia 5 de março de 2014, Ana não havia jantado. Ela esperaria a “perua kombi azul” chegar. Há poucos metros dali, às 21h, o veículo da Prefeitura distribuiria sopa para os moradores de rua. Para Ana, que estava acostumada com o tempero feito pela mãe, “a comida é ruim, sem gosto”. Mas é a única opção que ela terá para se alimentar, se conseguir chegar até o ponto de distribuição.

Certa noite quando a moradora de rua se ausentara para buscar sopa, “pegaram tudinho as minhas coisas”. Ana precisa voltar rápido. Às vezes pede para um senhor que costuma dormir próximo tomar conta de seus pertences, mas não há garantias. A aspirante a artista desconfia que o outro morador de rua seja usuário de drogas.

Ana teme o que possa acontecer nas ruas. Ela usa um anel feito de miçangas brancas, com um pingente de cruz dourado. “Comecei me pegar com Deus”, conta.

De repente um homem de cabelos grisalhos dirige-se a nós. Certamente meu bloquinho de papel entregara minha profissão. Com a intenção de denunciar dois assistentes sociais, ele procura saber quem sou. Indignado, Julio relata que acabara de ver assistentes sociais sentados em um banco dentro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que fica a poucos quarteirões de onde estamos. Segundo Julio, nas duas últimas horas, eles estariam usando fones de ouvido para ouvir música ou brincando com joguinhos no celular, enquanto deveriam estar prestando algum tipo de amparo a pessoas como Ana. Prometo averiguar o caso, e Julio vai embora, apoiando-se em uma bengala.

Independente dos serviços de inclusão social da Prefeitura de São Paulo, algumas iniciativas, como o projeto Trecho 2.8, do Instituto Brasis, promovem ações com adultos em situação de alta vulnerabilidade social, a fim de restaurar ao menos parte de seus direitos. Foi por esse motivo que selecionaram Ana e outros 10 candidatos com potencial para aprenderem a fotografar.

Em cinco meses, os participantes foram orientados para produzir 50 fotos, com câmeras semiprofissionais digitais. O resultado, de livre criação artística, recebeu o nome “Fendas da Cidade”, foi exposto no dia 18 de outubro de 2010 na loja Op Art e depois leiloado na Villa Daslu, ambas lojas luxuosíssimas da capital, que propositadamente serviram de palco para exibir contradições dentro da elite paulistana e, com isso, aproximar os indivíduos, tornando-os menos desiguais socialmente.

Ao fim do projeto os participantes foram surpreendidos com uma bolsa de meio salário mínimo, ou seja, R$ 255,00, se considerar a remuneração nacional na época. Um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), feito em dezembro do mesmo ano, sugeriu que esse valor equivaleria a 11,47% da quantia mensal que uma pessoa precisaria para morar no Estado de São Paulo com direito à alimentação, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência. Para Ana e os demais beneficiados pelo projeto do Trecho 2.8 viverem com o mínimo necessário faltou R$ 1.967,99. Para os trabalhadores brasileiros que recebiam um salário mínimo faltaria R$ 1.712,99. Apenas a cesta básica no Estado de São Paulo custava em média R$ 264,61, a mais cara em todo o país.

Durante o leilão da exposição “Fendas da Cidade”, Ana e os demais participantes foram convidados de honra. “Leo Maia cantou para nós no leilão”. Uma realidade paralela a de Ana, que na ocasião já sonhava em ser artista, mas ainda não havia se mudado para a Praça da Sé.

Ela não gostaria de ser apenas cantora, também trabalharia como atriz em novelas ou filmes. “Tudo o que eu puder fazer. E se eu for, vou bem arrumadinha. Meto um batom no beiço”, avisa, após se queixar que as pessoas riem quando ela conta sobre seus planos de ter uma carreira artística.

Ana tem sobrancelhas ralas. Os pelos finos e claros misturam-se ao tom de sua pele, sem desenhar contorno ao rosto moreno e bastante queimado de sol. Rugas surgem em sua boca e em seu pescoço conforme se movimenta. Ela puxa a blusa de lã, ajustando-a ao tronco em boa forma, para mostrar que “tem o corpo bonitinho”. A moradora de rua não enxerga razão em sua imagem para que alguém deboche, mas não permite que eu a fotografe.

Quando abre a boca, um dente resiste sozinho na parte superior, próximo ao canto direito. Certamente a falta dos outros dentes não passa despercebida dos que se aproximam dela, dos que poderiam assisti-la no cinema ou na televisão, mesmo não sendo isto um motivo para achincalhamento.

Se a imagem é um problema, talvez se Ana tentasse se apresentar em programas de rádio tivesse êxito. “Não tentei em rádio, não”, corta ela. Mas minutos depois, fica pensativa. “Será que é bom rádio? Será que eu devo tentar rádio?”

Antes de deixá-la, refletindo sobre arriscar um novo meio de se tornar uma artista conhecida, pergunto qual a sua idade. Ana retoma o tom revolto e responde alto:

– Quarenta! E tantos… – completa ela. Isso, se o volume quase inaudível de sua voz, usado por último, não me enganou.
– Quanto? – insisto.
– 48 – responde a contragosto, como se eu tivesse arrancado seu mais precioso segredo.

Por volta das 21h, a rua do Comércio fica vazia, silenciosa e quase totalmente escura. Apenas sacos de lixo são deixados para trás, amontoados nas calçadas ou nos cruzamentos de ruas. Pelas redondezas, muitas pessoas estão deitadas no chão, a maioria homens, encolhidos embaixo de lençóis. Eles preferem as calçadas com alguma iluminação e alpendres. Mas nem todos conseguem um bom lugar e acabam se enfileirando, com os pertences próximos ao corpo. Alguns deitam descalços, com os sapatos embaixo da cabeça, na tentativa de evitar que lhe roubem o calçado enquanto dormem. Um homem amarra seus dois vira-latas a um carrinho construído com pedaços de bicicleta e caixas de papelão. Vez ou outra, passos acelerados de homens e mulheres rompem o silêncio em direção ao metrô São Bento.

Na rua XV de Novembro, número 347, as letras douradas que identificam o edifício Banco de São Paulo são engolidas pela escuridão, assim como os detalhes metálicos de serralheria artística feitos de ferro batido e bronze fundido. É a entrada principal do exemplar mais representativo do art déco requintado da arquitetura paulistana no início dos anos 1970 que serve de abrigo para três homens sentados no chão ou em banquinhos um ao lado do outro. Raios de luz branca vindos de uma banca de jornal tocam quem ainda transita pela região. E o cheiro de urina começa a se espalhar pelas ruas do centro da cidade.

Na rua Álvares Penteado, 112 , a descrição que Julio fizera parece proceder. Sentados em um banco branco dentro do andar térreo do CCBB, próximo à entrada principal, estão Mauro Ferreira, 37 anos e Rodrigo Xavier Franco, 24 anos. Ambos apoiam as costas na parede e usam coletes verde e azul com duas faixas que refletem luz na cor prata. Na altura do peito deles, pode-se ler “Prefeitura de São Paulo. Assistência Social”. Mas eles não são assistentes sociais.

Mauro trabalha há um ano e sete meses como orientador. Já Rodrigo está na mesma função há seis meses. Eles percorrem as ruas no centro da cidade de São Paulo, das 16h às 22h, de segunda à sexta-feira, com uma prancheta em mãos para anotar o nome e uma forma de contato das pessoas com quem falam. Quando precisam de um descanso, sobretudo para a mente, recorrem, por exemplo, a alguma distração que o celular possa oferecer ou visitam o CCBB, que na ocasião abrigara a mostra “Visões – Coleção Ludwig”, com 78 obras assinadas por artistas como Picasso, Andy Warhol, Jean-Michel Basquiat, Roy Lichtenstein, Tom Wesselmann, Claes Oldenburg e Jasper Johns entre outros.

Durante o verão, os orientadores ou “tios”, como costumam ser chamados pelos moradores de rua, têm como principal atividade oferecer aos que perderam ou nunca tiveram documentos, a opção de tirarem foto 3×4 gratuitamente, o primeiro passo para que um indivíduo seja reconhecido pelo Estado. “Mas às vezes eles são agressivos, revoltados. Os usuários de drogas que moram nas ruas matam, roubam e ficam mais alterados quando estão ‘presos’ em comunidade”, conta Mauro. Por isso, os orientadores trabalham sempre em dupla. Quando eles chegam, os moradores de rua cobram atenção imediata. Então, enquanto Mauro conversa com um morador de rua, Rodrigo procura organizar os ânimos e manter algum controle para evitar brigas, e vice-versa. “Você aprende a andar de carro com o carro em movimento. No improviso”, revela Mauro sobre o trabalho que desempenha.

São os orientadores que conhecem de perto os problemas e as necessidades dos moradores de rua, e depois encaminham a coleta de dados para o Sistema Único de Assistência Social (SUAS).

Em teoria, o SUAS “organiza as ações da assistência social em dois tipos de proteção social. A primeira é a Proteção Social Básica, destinada à prevenção de riscos sociais e pessoais, por meio da oferta de programas, projetos, serviços e benefícios a indivíduos e famílias em situação de vulnerabilidade social. A segunda é a Proteção Social Especial, destinada a famílias e indivíduos que já se encontram em situação de risco e que tiveram seus direitos violados por ocorrência de abandono, maus-tratos, abuso sexual, uso de drogas, entre outros aspectos.”

No dia a dia, os assistentes sociais raramente têm contato direto com os moradores de rua. “Se quiser informações peça aos `peões’. Na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social  tudo funciona com `burrocracia’. O que funciona mesmo são as nossas canelas”, espeta Mauro.

É o rosto dele, de Rodrigo e de outros orientadores que ficam na memória de quem tem no máximo uma mochila nas costas.

– Quando tira isso aqui – diz Mauro agarrando com a mão esquerda o colete que traz o símbolo da Prefeitura de São Paulo – eles brincam com você. O papo é diferente.

Mauro reside no bairro da Liberdade, que também faz parte da região central de São Paulo. Quando vai à padaria ou banca de jornal é comum encontrar e ser reconhecido por alguns moradores de rua, entre eles usuários de drogas.

Sem saber disso, os familiares de Mauro e Rodrigo (assim como eles) acham o trabalho perigoso, então quando chegam em casa, os orientadores evitam contar como foi o dia.

Na rua impera a “lei da selva moderna”. Essa é a regra mor de convivência definida pelos próprios moradores de rua. Desde que começou a trabalhar como orientador, Mauro viu “quatro ou cinco pessoas melhorarem de vida. O restante continua nas ruas. E a tendência, infelizmente, é piorar”. Ele conta que todos os dias ouve o mesmo discurso dos usuários de drogas.

– Tô quase limpo.

“Mas tá ali no meio”, considera Mauro. Quer dizer, os usuários de drogas vivem em um ambiente repleto de estímulos para a dependência química. Quando não são os traficantes e outros usuários que os empurram diariamente de volta ao uso de drogas (lícitas e ilícitas), a sociedade e seus governantes demonstram o despreparo para lidar com o problema, seja se referindo a eles como “zumbis” ou implantando medidas eleitoreiras de combate às drogas, que não têm continuação ou registros consistentes de resultados.

Com base no que presencia durante o trabalho, Mauro conta que as mulheres têm mais facilidade para sair do vício e das ruas. Mas essa estatística não existe oficialmente.

Os dados mais atuais e precisos sobre o assunto no Brasil são resultado de uma pesquisa encomendada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), que foi divulgada em setembro de 2013. Das 25 mil (número aproximado) pessoas ouvidas, entre março e dezembro de 2012, o estudo “Estimativa do número de usuários de crack e/ou similares nas capitais do país” conseguiu estimar que 370 mil são consumidoras regulares de crack ou similares de cocaína consumidos por fumo (merla, pasta-base e oxi) nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal. “Pela primeira vez, a Secretaria considera ter um dado muito confiável em relação ao número de usuários de crack nas capitais”, afirmou a diretora de Projetos Estratégicos da Senad, Cejana Passos.

O estudo também identificou que oito em cada dez usuários usam crack em espaços públicos, de interação e circulação de pessoas. “Essas pessoas podem não estar na residência. Por isso, era preciso investigar o todo e cruzar as redes sociais”, justificou Cejana à Agência Brasil. Essa é a razão da Senad ter optado por uma metodologia de pesquisa chamada Network Scale-up Method (NSUM). De acordo com o estudo “é o único método estatístico disponível, até o momento, capaz de estimar de forma mais precisa quaisquer populações de difícil acesso, ditas `invisíveis`, sem se limitar a extrapolações de populações conhecidas, e sem restrições quanto a estimar indivíduos detidos, presos, hospitalizados, vivendo em locais abrigados (como residências de estudantes, guarnições militares, instituições religiosas etc), fugitivos da justiça, vítimas de catástrofes naturais. Isto é possível, pois trata-se de um método indireto, ou seja, não se pergunta diretamente ao respondente/entrevistado sobre seu próprio comportamento, e sim sobre o comportamento de outros indivíduos pertencentes à rede de contatos do respondente, residentes do mesmo município”.

Daí se explica a multiplicação que extrai 370 mil usuários de crack. Mas não se explica a falta de contagem de outros “invisíveis”. Como o estudo entrevistou pessoas apenas dentro de suas casas, excluiu automaticamente as que vivem nas ruas, como as que Mauro e Rodrigo tentam orientar diariamente.

O Censo da População em Situação de Rua da Cidade de São Paulo de 2011, citado anteriormente, também deixou à margem os moradores de rua, quando não perguntou especificamente se eles usavam drogas ou não, mesmo tendo percorrido pelas ruas da chamada Cracolândia, no bairro da Luz, centro da cidade de São Paulo.

Diante da falta de coleta de dados sobre esses indivíduos, a estimativa que pode dar a ideia mais real possível sobre como vive a população na terra da “lei da selva moderna” baseia-se em uma amostra de 380 indivíduos (70 apenas no bairro da Sé), selecionada pelo Censo em 2011.

Foi identificado que 40,9% desses indivíduos trabalham (com ou sem carteira assinada) e gastam: 16,3% do que recebem (em média menos de um salário mínimo legal) em bebidas alcoólicas; 15,9% na aquisição de cigarros/fumo e 11% na aquisição de drogas ilícitas (maconha, crack, cocaína).

Talvez isso também dê alguma ideia de por que os moradores de rua, principalmente os que se encontram na faixa dos 40 aos 50 anos de idade, considerados jovens por Mauro, recusam ir para abrigos, onde há regras, hora estipulada para dormir, se alimentar e fazer outras atividades.

A recusa acontece durante todo o verão, mas quando chega o inverno, a temperatura faz com que os moradores de rua engulam algumas regras, inclusive uma refeição indesejada. “Ninguém morre de fome em São Paulo. Na cidade tem muitas formas da pessoa conseguir se alimentar, conseguir ajuda de vários programas do governo”, alega Mauro, que comumente ouve a negativa:

– Ah, tio, não quero, não. Não quero a sua comida.

Gestantes, idosos e deficientes físicos têm prioridade nos dias mais frios. Então, nem todos conseguem garantir um encaminhamento dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPs) para acolhimento ou uma vaga nas Casas de Convivência e albergues, por exemplo. “Quando o assistente social não arruma vaga em abrigos, eles se revoltam. No frio eles querem”, explica Rodrigo, que fala pouco, mas em ritmo acelerado. “Assistente social é carrasco. Nós somos os bonzinhos”, dizem os orientadores. São com esses rótulos que os moradores de rua etiquetam os funcionários da Prefeitura de São Paulo.

Na companhia de Sinistro e Maquiavel

– Sabe, sua moça, eu tenho medo.
– Do quê?
– Eu tenho medo de não representar para a minha criança, sabe? – confessa Wider enquanto suas mãos trançam, alisam, escorregam e puxam o corpo de um gafanhoto.

No meio da Praça da Sé, um monumento hexagonal de concreto, revestido de mármore, representa o ponto central da cidade de São Paulo. Desde 1934 a obra do escultor francês Jean Gabriel Villin segue a tradição lusitana, de marcar as terras de propriedade da Câmara a partir da principal igreja da cidade. É do Marco Zero, em frente a Catedral da Sé, que se tenta fixar as medições de distância em direção aos pontos cardeais e a numeração das vias públicas e rodovias estaduais, que por sua vez, servem de referência para a medição das linhas ferroviárias, aéreas e telefônicas.

Na superfície do monumento há uma placa de bronze, restaurada em 2007, com um mapa dos principais pontos de São Paulo. Nas faces laterais há seis ilustrações. Um navio, representa Santos, cidade portuária conhecida por comercializar o principal produto do país no período do Brasil Império, o café. As demais faces trazem símbolos dos estados que fazem divisa com São Paulo. Uma araucária representa o estado do Paraná. Vestimentas de Bandeirantes, Mato Grosso (que na época ainda não era independente de Mato Grosso do Sul); o Pão de Açúcar e bananeiras, Rio de Janeiro; uma bateia (recipiente usado para lavar areias e encontrar metais preciosos), Goiás e materiais de mineração profunda, Minas Gerais, de onde Wider veio. Mais especificamente de Araxá, que fica a 489 quilômetros de São Paulo.

“Lá em Araxá, quando eu não panhava café, eu capinava quintal”, conta Wider, que mais tarde também aprendeu o ofício de seus tios: pintor, marceneiro, eletricista, mecânico e cabeleireiro. Antes de chegar em São Paulo, Wider trabalhara por 10 anos em uma beneficiadora de batatas, carregando sacos de 50 quilos. Foi nesse período que ele adquiriu uma hérnia. “Me doeu demais, mas eu nunca contei para a minha família. Eu preferia sentir a dor. Foi um pouco de egoísmo da minha parte, para ganhar dinheiro. Quando eu vi que eu já não aguentava mais, em vez de eu por um saco de 50 quilos na cabeça eu resolvi usar a cabeça. E a opção que Deus me deu foi o artesanato”.

– Vem cá para você ver, mãe. Pode pegar. Olhar não paga, não, isso aí é direito nosso. Mata a curiosidade. Pode olhar o conhecimento e a sabedoria – convida sorridente Wider, acenando com a mão.

Uma senhora com traços orientais para em frente ao artesão. Seu filho, uma criança, agacha perto dos gafanhotos feitos de folhas de Palmeira Imperial, e se assusta. Sinistro e Maquiavel realmente parecem que vão pular a qualquer momento.

– Quanto é ? – pergunta a mãe.
– O valor não importa, o que a senhora puder me ajudar, já dá. Um real, três real…
– É um gafanhoto, é? – fica em dúvida a senhora.
– É um pedido de socorro, viu, mãe? O valor não importa não, se vocês quiserem me ajudar – expõe Wider.

A senhora desiste da compra, mas outras pessoas param para admirar os gafanhotos. O sol bate nas costas do artesão, que tem a barba feita, veste uma camisa azul clara bem passada e com as mangas dobradas, uma bermuda azul em tom vibrante e um gorro preto. Ele fica sentado com as pernas cruzadas, como um índio, no chão da Praça da Sé, próximo ao Marco Zero. Ao seu redor ele espalha uma mochila; um par de chinelos de dedo; uma garrafa pet com água; uma tesourinha, usada para curvar as antenas dos gafanhotos e aparar as patas, e algumas folhas de Palmeira Imperial. “É uma planta alta, ela dá mais de quatro metros de altura”, explica Wider, que encontra a matéria-prima com facilidade nas praças públicas, mas teme apanhá-las. “Eu tô um pouco chateado com o pessoal estragando as plantas das Praças”.

O mineiro cuida das plantas de uma distribuidora de flores, que em troca do serviço cede algumas folhas para o seu artesanato. Com um metro de folha de Palmeira Imperial, por exemplo, ele consegue fazer um gafanhoto. “Mas agora eu tô dando um tempinho, senão eu vou estragar todas as plantas”.

Desde que chegou em São Paulo, há cerca de três anos, Wider ainda não conseguiu fazer a cirurgia de hérnia que precisa. “Por falta de oportunidade e de apoio da assistência social da cidade, porque apoio para trabalhar eu tive muito, mas na hora de fichar eu tenho que passar pelo exame médico e dar pequenos detalhes. É muito ruim. Porque eu sou mineiro e se a gente passa seis meses sem trabalhar, o corpo começa a doer todinho”.

Os detalhes que Wider menciona se resumem ao fato de ele não ter endereço fixo de residência e fazer uso de drogas. “Hoje eu durmo aqui. Se você não me encontrar deitado no meio dessa praça, vai me encontrar deitado no meio da praça debaixo. Mas no meio do pessoal. Nada contra, com muito favor, sempre dou valor. O povo de rua é a minha família, que eu tenho hoje. Mas eu só deito no meião da Praça”.

Quando chove, a coberta de Wider molha e ele fica resfriado. “Mas a maioria dos meninos vai lá me acordar, têm dó de mim”, revela o morador de rua que tem o sono pesado, uma ótima oportunidade para outros que ficam à espreita de um vacilo. “Eles ranca a minha blusa de frio, sapato do meu pé, a mochila debaixo da minha cabeça, leva as marmitas que o povo põe ao meu lado. Aí no outro dia, eu tô de bermuda, sem camisa, seminu. Mas o povo me ajuda do mesmo jeito”.

– Aí, moço, eu queria levar dois – avisa uma das três garotas com um dos gafanhotos de Wider nas mãos. .
– Você vai levar os três. Num tem problema. Eu falei para vocês que o valor não importa.
– Cadê o outro? – procura a garota.
– Vou fazer a série desse grandão agora…

Wider continua contando sua trajetória de vida sem parar de criar outros Sinistros e Maquiavels ou de prestar atenção ao movimento de pessoas que passeiam pela Praça da Sé. “Hoje sou dependente de cigarro, cachaça, maconha, cocaína, crack e só. O crack eu já consegui me soltar um pouco. Mas ainda estou preso na maconha”, assume sem rodeios. É com o dinheiro da venda de gafanhotos, beija-flores, escorpiões, baratas, macacos, cruzes, águias, falcões, lagartos, escorpiões, centopeias, camaleões, grilos e tucanos pelos “parques da vida” que Wider sustenta os vícios.

Quando o último gafanhoto fica pronto, um homem se dirige a Wider:

– Fala o preço aqui para as meninas, meu jovem.
– O valor não importa, não. Dois reais, três reais, um real. Três por cinco, vai! Pronto, fechou. Faz uma vaquinha, paga o que puder, que eu aceito. Toma, gata. Esse aqui é o Machiavel – diz Wider, entregando o segundo gafanhoto para a garota que foi embora sem se importar em pegar o terceiro.

Vshiu, assovia um homem que caminha em direção a Wider. Nivaldo é funileiro de auto, mas, atualmente, está desempregado. Ele ensina Wider a sobreviver em São Paulo desde o primeiro dia da chegada do mineiro. “Esse homem me instruiu os lugar de eu ir, me ensinou onde eu trabalhaiá para eu ganhar um dinheirinho. Quando estiver chovendo, e não der para ganhar dinheiro na folha, ele me ensinou a ir lá para o Parque Dom Pedro II – onde se localiza o Mercado Municipal Paulistano, também na região central da cidade –agitar o pessoal com as verduras. Não deixou umas quinze pessoas me matar também, porque eu era respondão, não era?”

– Eu estranhei quando te vi – conta Nivaldo.
– O jeito mineiro de ser. Eu era respondão – compreende Wider hoje.
– Encrenqueiro – especifica o protetor.
– Depois tinha ciúme dele, da senhora dele, dos meninos dele, do povo dele. Então, eu fui criando esse aspecto e eu fui aprendendo que antes viver do que sofrer – revela o artesão.
– É! Eu sempre falei isso para você…
– Ele falou para mim “meu fio, ocê veio do interior, não abraça tudo que o mundo oferece, porque nós num guenta. Os humilhados serão exaltados, continua do jeito que você tá, meu filho, que eu estarei o tempo todo lado a lado com você”. Hoje eu sou lanterneiro por causa desse homem. Quando eu tô muito debilitado nas ruas, ele não me deixa faltar no serviço. Porque, infelizmente, São Paulo me deixou um dependente de drogas. Quando eu tô debilitado pela rua, ele compra uma sacola de rosca com leite e queijo – conta Wider, repleto de sorriso na boca e nos pequenos olhos.

– Passar fome que nada. É ruim, heim! – garante Nivaldo, “um pai de família que adotou um barbado”, reconhece Wider.

Hoje em dia, Wider toma banho nas tendas dos centros de convivência entregues à população de rua durante a gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab, mas quando chegou em São Paulo, Nivaldo o ensinou a usar caixas d`água para sua higiene pessoal. “Vou é para a bica da água, porque quando eu fui evangélico tomava banho todo dia 6h da manhã, na água fria. Aí eu resolvi continuar fazendo isso todo dia para poder pelo menos… não vou falar de tentar cooptar Deus para mim, mas eu morro de medo de ir para o inferno”, declara o homem que ainda teme as imposições da religião que seguira em outros tempos.

Nivaldo não é o único que se preocupa com Wider. Na lanchonete Oba-Oba, Seu Paulo oferece alguns “bicos” de ajudante para lavar cortinas, louça, banheiro e varrer o chão. Em troca, Wider recebe algum dinheiro, as roupas que veste e uma sacolinha com salgados todas as noites. “Ele mata a fome de todo mundo, toda madrugada ele dá salgados para esse povo de rua. Assim que eu quero ser quando eu envelhecer”.

Wider foi criado pela mãe e cresceu junto a três irmãs. “Eu me criei só no meio de mulher, meio molinho, meio judiado, com muito amor, carinho, através das minhas meninas”. O pai de Wider mudou-se para São Paulo e permaneceu na cidade por 20 anos, uma desonra para o filho. “Ele torturou minha mãe, não deixou um dente na boca dela. E eu não quero fazer isso para a minha filha e nem para a mãe dela”.

Enquanto Wider não consegue uma vaga em um hospital para fazer a cirurgia de hérnia, ele carrega uma garrafa pet de 500 ml prensada contra a virilha. A medida tomada é uma tentativa de prevenir que a hérnia desça para os seus testículos. Seu plano é poder recuperar a saúde para aproveitar as diversas oportunidades de trabalho que surgiram em São Paulo e economizar dinheiro suficiente para conseguir voltar para casa e prover o sustento de sua família. “Quero dar pelo menos um barraquinho para elas morar dentro de um terreno, sem ter que ficar lavando coisas para os outros, recebendo humilhação. Elas vive de favor em favor, sendo humilhadas pelos namorados. Minha mãe ajuda, mas ela não dá conta de ajudar do jeito que elas precisam. Ao menos essa honra pra Deus, em nome de Jesus, eu quero. Por mais desmerecedor que eu seja da misericórdia de Deus, eu quero fazer pela minha filha. Só para mó de eu me sentir bem”.

No dia 1 º de março, por volta das 14h, Wider avisa que fará uma pausa. “O pai já veio com dinheiro hoje e vai me dar uma marmita”, diz feliz da vida. Naquele começo de tarde, o almoço estava garantido pela solidariedade de Nivaldo.

À mesma distância que Wider estava do Marco Zero, três dias depois, numa terça-feira ensolarada, encontro outro artesão, que faz os mesmos gafanhotos. Aos 29 anos, Fábio Tavares tem mãos mais ágeis. Em no máximo 20 minutos ele faz um buquê com três rosas. É a peça que leva mais tempo para ficar pronta. O jovem aprendera o ofício com um colega de trabalho chamado Gilmar, durante uma temporada que passara no Guarujá, litoral do estado de São Paulo há cerca de três anos e meio.

Certa vez, enquanto passeavam pelas praias da cidade, Gilmar subiu em um coqueiro e cortou uma folha.

– Você é doido? O que você vai fazer com isso? – surpreendeu-se Fábio.
– Fica olhando… – disse Gilmar, que começou a desenvolver um tipo de artesanato, usando apenas a folha e as mãos.

Em duas semanas de observação, Fábio – que já sabia fazer colares, pulseiras e brincos para vender – aprendeu a criar chapéus com folhas de coqueiro e rosas, buquês, peixes e escorpiões com folhas de palmeira.

Desde então, ele sai de sua casa no bairro de Guaianases, extrema zona leste de São Paulo, para vender o novo tipo de artesanato nas ruas da cidade, como a Praça da Sé. “É mais difícil achar a folha do que fazer o trabalho. Esta daqui eu trouxe do Metrô Armênia. É que lá tem algumas palmeiras, então, assim, às vezes os guardas até enchem o saco. A gente não sabe cortar, mas como eles não estavam, eu cortei rapidinho”, aproveita.

Diferente de Wider, Fábio fica o tempo todo em pé, abaixa-se apenas para colocar mais um gafanhoto, rosa e buquê no chão ou pegar algo em sua mochila. Às vezes, alguém puxa conversa com o rapaz magro, que usa alargadores pretos nos lóbulos, um terço e um colar pendurados no pescoço e pulseiras coloridas.

– Conhecimento e sabedoria não se nega, não. Pode pegar parceiro – dirige-se Fábio a um possível comprador, que contempla as peças no chão, tentando entender como é possível o artesanato atingir tal nível de realismo. Ele elogia o artesão e diz que apesar de já ter tentado percebera que não adiantava, não tinha o dom necessário para fazer algo assim.

Fábio conta que ensinara “um cara” a fazer artesanato com as folhas de árvores, mas o aprendiz não tinha capricho. “Tem que se dedicar. Vamo fazê o melhor que nóis pode”, defende mostrando os dentes tortos e amarelados, num sorriso que articula marcas de expressão profundas, penduradas nos cantos externos de seus olhos cobertos pela sombra da aba de um boné da Billabong.

A Praça da Sé é um lugar que pode se transformar rapidamente. Um dia uma senhora gorda, usando um vestido florido está deitada de lado em cima de papelões. Sacos plásticos, aparentemente fofos, servem de apoio para seu cotovelo direito. Ela joga comida a um aglomerado de pombos famintos que esticam o pescoço bem à sua frente. Alguns passos dali, moradores de rua ocupam o elevado da base da estátua de bronze de Padre Anchieta, o Apóstolo do Brasil, como se estivessem acomodados em um grande puff compartilhado. Isso inclui todo o espaço circular revestido de granito ao redor da estátua que tem relevos de representações de momentos históricos do jesuíta, como a missa de fundação do Colégio de Piratininga, a alfabetização de crianças indígenas e o apaziguamento dos índios que pretendiam invadir a vila, segundo a visão dos religiosos católicos da época.

No dia 15 de março, a Feira da Saúde, promovida há 57 anos pela Associação Internacional de Lions Clubes, com participação de professores e alunos dos cursos de Fonoaudiologia, Fisioterapia e Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), configura outro cenário na Praça da Sé.

Nos degraus da pequena entrada lateral da Catedral da Sé, quase em frente à rua Senador Feijó um homem pede “uma moedinha” aos que transitam pela calçada.

Entre as 7h30 e 12h30, a rua em frente a Catedral é bloqueada por um caminhão da Associação Internacional de Lions Clubes. À frente um coral, com tecladista interpreta “Can’t help falling in love”, tema musical do filme “Blue Hawaii”, estrelado por Elvis Presley, em 1961.

Enquanto a música é executada, uma mulher levanta sua camiseta cinza, deixando a barriga à mostra. Ela usa os cabelos presos no alto da cabeça, veste calça jeans dobrada até abaixo dos joelhos e sapatilhas de plástico rosa. No chão, em frente aos seus pés, ela pousa três sacolas cheias de panos para ter mais liberdade para dançar sozinha. Ao final da canção bate palmas com os braços esticados por cima da cabeça. No intervalo da apresentação a mulher aproveita para fazer uma trança nos cabelos, uma tentativa de amenizar o calor de cerca de 32ºC.

Em frente à Catedral, duas fieiras de tendas descem pela Praça da Sé. Cada uma delas promove orientações com especialistas.

Na ocasião são realizados exames gratuitos oftalmológicos, odontológicos, de medição de diabetes, pressão, audição; orientações sobre os danos causados pelo uso de drogas, infecção pelo vírus da Aids, doação de sangue e órgãos, osteoporose e risco de doenças cardiovasculares.

Na primeira tenda à direita da Catedral, três homens aproveitam a sombra para relaxar, sentados no chão. Um deles apoia a cabeça numa mochila, já quase deitado. Os outros dois conversam:

– Eu sou carioca, cumpade. Qualé que é?
– Eu sou baiano.
– Então, por isso que não é paulista.

Antes, o carioca, sem camisa, sentado com os joelhos flexionados e os braços apoiados em cima, reclamava que os paulistas são mal humorados e não puxam conversa com outras pessoas.

Um dos orientadores da tenda se aproxima e tenta alertá-los sobre alguns perigos para a saúde. Ele diz que o sedentarismo mata.

– Sabe qual é a droga maior que tá matando? – retruca o carioca, olhando para cima.
O orientador continua em pé, a espera da resposta:
– A polícia – diz o carioca, morador de rua, que exala álcool e mal cheiro.

Ele continua:

– Fica um dia aqui. Roubam quem tá dormindo. Tá acontecendo e ninguém quer saber. É uma grande notícia!
O orientador desiste. Vira as costas e vai embora. Albuquerque continua falando. Quando pergunto seu primeiro nome, ele responde:
– Marcelo, é claro!

Marcelo é libriano. “Balança, mas não cai”. Marujo. “Mas não sou pescador de ilusões. Eu tô além do meu tempo. Eu sou uma ideologia. Sou refém de São Paulo”, despeja o morador de rua, sem conexão de ideias, sem compromisso, às vezes em tom debochado, o que espantara o orientador.

Marcelo se volta para o morador de rua ao seu lado. De repente o outro que estava quase deitado no chão resmunga mais alto alguma coisa e todos levam uma bronca de um dos profissionais da tenda:

– Eu deixei vocês ficarem aqui numa boa. Mas se for pra fazer bagunça vão ter que sair.
– “Reggae, irmão!”, apazigua Marcelo.

Desde as 7 horas da manhã, uma dupla de policiais militares faz o patrulhamento na Praça da Sé. É a primeira vez que Andréa Ramos, 33 anos, e o sargento Herbert Vieira, 31 anos, trabalham juntos. Também é a primeira vez que atuam na região. O serviço itinerário neste sábado tem a função de garantir a segurança das pessoas durante a Feira da Saúde.

A presença dos policiais não impede a tentativa de furto de cadeiras de plástico, que ficam nas tendas para o atendimento da população. O sargento Vieira permanece com a postura impecável, o peito já estufado pelo colete à prova de balas parece se encher mais de ar quando critica a atitude dos moradores de rua. A Feira da Saúde oferece cuidados principalmente aos que vivem em condições mais vulneráveis, mas “nem isso eles queriam”, diz revirando os olhos.

Antes de prosseguir, é importante ressaltar que os dois policiais se preocupam em esclarecer que suas declarações expressam apenas suas opiniões enquanto civis, apesar da farda que usam no momento.

Agora sim, naquela manhã, o sargento Vieira diz ter se deparado com moradores de rua hostis. “Eles não precisam de você. Você não consegue chegar perto…”

– O que fazer nesses casos, então?
– A prefeitura tinha que pegar pesado no SS – resolve ele se referindo ao Serviço Social.

A policial Andréa dá continuidade à ideia. “Eles precisariam de um SS que fosse sério. Fizesse acompanhamento, recuperasse, desse comida, banho e uma vez que o indivíduo voltasse para a rua, fosse punido. Igual a nós. Nós não temos que pagar IPVA? Se deixamos de pagar, levamos uma multa, uma punição. Tem que ter um trabalho permanente. Do jeito que o SS faz acaba atrapalhando. Para as pessoas em situação de rua, o mínimo está bom”.

O mínimo pode ser também uma garrafa pet de 490 ml de pinga, vendida por R$1,00. Pinga da pior qualidade, conhecida como “barrigudinha”. “Há muita gente embriagada logo cedo com a barrigudinha”, pontua o sargento Vieira. E por falar em embriagado…

Um homem caminha como se o sólido chão da Praça da Sé estivesse se liquefazendo. Exalando álcool, ele se aproxima e fala algo incompreensível muito alto.

– Dá licença! Eu estou conversando com ela. Você não está vendo? Tenha educação – engrossa o sargento Vieira.
Em seguida o homem vai diminuindo o volume e sai de cena desejando que Deus o abençoe.
– Amém – responde o sargento Vieira, com as mãos na cintura.

A Feira da Saúde acabara, todo o equipamento fora desmontado em poucos minutos e a dupla de policiais deve regressar à base da PM na Praça Clóvis Beviláqua.

De repente, sem as tendas, a Praça da Sé volta a ser espaçosa e se pode andar sem frear os passos. Agora os moradores de rua e transeuntes podem voltar a sentar na mureta atrás da fileira de postes ornamentais históricos que crescem 6,80 metros à direita da Catedral.

A impulsionar a grande roda da história

Em frente à rua Barão de Paranapiacaba, o semáforo para pedestres não acende o habitual bonequinho caminhando, e sim, um ícone com uma cruz no alto, que representa a Catedral Metropolitana da Sé.

A igreja sede, que exigiu mão de obra especializada em 1913, quando começou a ser construída, marca o início da fase cosmopolita e moderna da cidade. Projetada pelo arquiteto alemão Maximilian Hehl, a Catedral com forte influência neogótica ficou (quase) pronta para a comemoração do IV Centenário de São Paulo, em 1954. As obras foram totalmente finalizadas 47 anos depois de iniciadas. Nesse meio tempo a remodelação urbana derrubou a quadra que separava as atuais Praças João Mendes e da Sé. Cada vez mais os veículos particulares e transportes públicos transformavam o centro da cidade. Edifícios como Wilson Mendes Caldeira e o Palacete Santa Helena vieram abaixo na década de 1970 para dar lugar a construção da primeira linha de Metrô. O terreno inclinado da Praça da Sé agora se esticara para o lado, onde espelhos d`agua, fontes, patamares, esculturas modernas, bancos de concreto e divisas feitas por degraus constituem outro membro, a Praça Clóvis Beviláqua, tão articulada à Praça da Sé que hoje em dia não se sabe exatamente onde começa uma e termina a outra.

“Tudo tem uma porção de história. A gente explica como iniciou São Paulo, por onde veio os portugueses. Antigamente, chamavam o Viaduto do Chá de Tostão, porque o pessoal cobrava pra atravessar o Viaduto. Perto do Pateo do Collegio, tem o Solar da Marquesa de Santos, que era uma prostituta de luxo, né? Ficou milionária e levou o dinheiro todinho pro caixão. É informação, né? A gente é curioso, entendeus?”, explica Ricardo Ramos. Essas são algumas das histórias que ele pretende contar enquanto pedala o Biciclotaxi, um serviço turístico que passa pelas principais ruas do centro de São Paulo.

Ricardo não sabe que a brasileira Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, foi infeliz e agredida no primeiro casamento, feito em tempos de Império, quando os pais uniam os filhos muitas vezes com completos estranhos por interesses políticos, financeiros ou quaisquer outros que não tinham em vista o amor. Anos depois, Domitila traiu o marido e, em represália, foi esfaqueada nas coxas. Também se apaixonou, manteve um relacionamento amoroso por sete anos com o imperador Dom Pedro I, já casado com a imperatriz Leopoldina. O romance real rendeu à Marquesa de Santos muitos presentes, desde um palácio para sua família até títulos de nobreza, além de ter engravidado cinco vezes do imperador e viver sob os olhares escandalizados e línguas ferinas. Mas o passeio turístico no Biciclotaxi não tem compromisso em esclarecer fatos históricos. Sequer passa pela cabeça de Ricardo que ele pode ajudar a espalhar uma velha mancha de injustiça.

Há uma semana, o serralheiro de 48 anos e seu irmão, Levi Ramos, dois anos mais novo, circulam nos arredores da Praça da Sé. Eles consertaram dois Biciclotaxis e estão “experimentando”. “Hoje eu tô aqui, assim, nê? As pessoas vêm tiram foto e tal, mas eu só tô vendo o movimento. Porque aconteceu o seguinte, isso aqui é patenteado, pegou pessoas que trabalham errado, quebraram bicicleta, bateram na guia e não teve paciência de esperar pelo turista. Mas com fé alcança. É isso aí que a gente tá fazendo”, conta Ricardo, sacolejando as mãos.

– E se estrangeiros quiserem dar uma volta? Vocês falam outras línguas?
– Eu falo palavrão quando eu tô com bastante raiva. Quando fura o pneu da bicicleta falo outra língua – brinca Ricardo.

Ele começa a apontar aqui, ali, em todas as direções. É assim que ele pensa em se comunicar com os clientes gringos. “Infelizmente, no Brasil, entrou governo, saiu governo, entrou governo, saiu governo e eles não dão estrutura para falar outra língua. Eu tenho orgulho de falar que eu sou brasileiro? Eu não luto pela minha pátria. Você morre pela sua pátria? Eu não, nem fudendo, meu. esquece!”

Ricardo estima que um roteiro completo pelos principais pontos turísticos do centro da cidade, considerando algumas paradas estratégicas para fotos e seus impulsos para a grande roda da história levará cerca de 45 minutos. Mas por enquanto não encontrou uma pessoa que quisesse sentar nas cadeiras adaptadas à extensão traseira das biclicletas vermelhas. Uma espécie de carruagem moderna aos olhos de uma mulher e dois meninos que têm os cabelos oxigenados.

Ao avistar os Biciclotaxis, a mulher para de puxar seu carrinho improvisado com grades e placas de ferro e pneus carecas de moto. Dentro do carrinho ela carrega um menino que brinca sentado, algumas peças de roupa, sacolas e um cobertor. A mulher, com os braços apoiados sobre os puxadores do carrinho, e o outro garoto, mais velho, vidram os Biciclotaxi calados por alguns minutos de sonho.

Amarelo e (meio) verde

A busina de uma bicicleta amarela, com franjas pretas presas no guidão, corta a Praça da Sé. Dois helicópteros surgem detrás da Catedral e logo desaparecem no céu azul claro, embora o som das hélices continue por alguns segundos. Um carro da Polícia Militar circula vagarosamente pela região. Ouve-se também barulho de construção, às 11h desta terça-feira de Carnaval.

Homens e mulheres dormem encolhidos em cima da grama do elevado que divide a Praça da Sé com a Praça Clóvis Bevilácqua, embaixo das árvores enfileiradas que formam um largo corredor em frente à Catedral e em cima da cobertura de concreto do Metrô Sé. Embaixo de seus lençóis ou cobertores, eles parecem não ouvirem nada.

Algumas pessoas descansam ou esperam outras sentadas na escadaria da Catedral. Algumas preferem a mureta, à direita da Praça, onde também apoiam suas bicicletas, cujas rodas ficam encostadas até a metade. Um gari recolhe caixas de papelão desmontadas, guardadas entre os galhos de uma árvore. Como não cabem dentro de sua lixeira com rodinhas, ele sai arrastando pelo chão a cama de alguém.

As mulheres que passeiam pela Praça da Sé, principalmente as mais jovens, costumam parar de costas para a Catedral, de modo que ao posarem para câmeras digitais, na maioria das vezes de celulares, têm ao fundo o registro do ponto turístico religioso.

Neste feriado, um caminhão guindaste branco da Alusa Engenharia – empresa que faz parte do consórcio responsável pela manutenção, ampliação, eficientização e remodelação do parque de iluminação do município desenvolvido pelo Departamento de Iluminação Pública (Ilume) – estaciona em frente à Catedral. Homens vestindo uniformes azuis, com duas faixas amarelas nos braços e duas faixas laranjas nos joelhos; além de coletes laranja e capacetes amarelos descem do caminhão.

A maioria deles parece discutir planos, debruçados sobre o capô de um carro estacionado próximo, enquanto um deles coloca um cinto de segurança que prende suas pernas e tronco para, em seguida, entrar até a cintura dentro de uma espécie de cesto que fica na ponta do braço do guindaste do caminhão. Assim, ele alcança as cúpulas das três lâmpadas do poste ornamental histórico mais próximo à esquerda da entrada da Catedral.

Com as mãos protegidas por luvas grossas, o homem rosqueia alguns parafusos que prendem a cúpula mais alta, guarda-a por um instante dentro do cesto do guindaste e tenta “vestir” a lâmpada que está apagada com um filme plástico verde, que tem formato parecido com o de um coador de papel, usado para passar café. Sozinho, ele se atrapalha. Depois volta a colocar a cúpula, que enruga parte do filme plástico.

O peso da cúpula torna difícil segurá-la com uma mão enquanto precisa esticar o filme plástico com a outra. Um dos colegas de trabalho lhe grita do chão que daquele jeito não pode dar certo. Mas ele insiste até encaixar a cúpula de volta. Depois rosqueia os parafusos no lugar e dá sinal para descerem o cesto até a base do caminhão.

Nesse meio tempo, chega o segundo caminhão guindaste. Ele estaciona na mesma reta, embaixo do poste ornamental histórico que fica à direita da Catedral. Diferente da primeira equipe, esta espalha cones laranjas em volta do poste e os laça com uma corda da mesma cor, impedindo a circulação de pessoas naquela área.

Outro homem está encarregado de subir no cesto. Diferente do primeiro, ele rosqueia os parafusos das três cúpulas, guarda-as no fundo do cesto e desce. Outro funcionário de sua equipe encaixa os filmes plásticos na parte interna das cúpulas, um verde e dois amarelos, depois ele ajuda a levar todas as cúpulas para dentro do cesto do guindaste, onde aguarda o funcionário que começou o serviço.

Novamente, ele sobe até a ponta do poste. Sem dificuldades, encaixa as cúpulas e rosqueia os parafusos para prendê-las de volta. A essa altura o homem do primeiro caminhão também já havia terminado o trabalho. Sozinho, ele colocara os filmes plásticos amarelos dentro das duas cúpulas restantes e prendera-as no lugar.

Ambos guardam os cintos de segurança e algumas ferramentas em bolsas azuis com zíper que têm lugar certo numa espécie de armário dentro dos caminhões. Outros recolhem os cones, a corda e vão embora.

Naquela noite, quando a luzes dos postes ornamentais históricos são acesas, a Praça da Sé, um ponto turístico de uma das 12 cidades sedes da Copa do Mundo de 2014, ganha iluminação verde a amarela, salvo pela luz irradiada da cúpula mais alta do poste à esquerda da Catedral, que está metade verde, metade branca, por causa do filme plástico que ficara mal colocado a 100 dias do início da abertura do evento.

Michel, 20 anos, sai correndo atrás da bola, passa para Lion, 23 anos, que na descida da Praça da Sé a faz parar com duas bitucas de cigarro. Michel alinha cinco copos de alumínio com a boca para baixo, formando uma pirâmide embaixo do gol, uma estrutura feita com canos de pvc ¾ unidos por cotovelos de 90 graus, que dependendo da força do chute desmonta. Laion apita e o desafiante da vez está autorizado a bater o pênalti do futebol de rua.

– Aqui você paga dois e leva cinco! É só chutar certo, no meio, e ganhar o dinheiro – anuncia Laion.

O baiano usa um microfone sem fio, daqueles que se prende uma aste na orelha para que a ponta envolta por espuma se mantenha fixa na altura da boca. O som é amplificado por uma pequena caixa preta pendurada no bolso da frente de sua bermuda jeans.

“O segredo aqui é ser bom de pontaria. Acertar no centro”, avisa Laion. Ele dobra em sentido vertical notas de dois, cinco, 20 reais e as prende entre os dedos da mão esquerda, como se o dedo do meio fosse um clipes de papel.

– Vai!?! – quer saber Laion.

Uma menina sorri e balança a cabeça respondendo negativamente. Ela faz parte de uma roda de curiosos e jogadores de futebol anônimos, que entre uma tentativa e outra se entreolham, abaixam a cabeça, compenetrados nos copos de alumínio, cada vez mais amassados.

Um homem vestindo bermuda branca e meias amarelas esticadas até os joelhos paga dois reais. Alguém o aconselha.

– Ele falou para mim rodar.

E, então, o jogador começa a girar em volta de si mesmo. Fica um pouco tonto, se prepara para chutar, analisa o ângulo do gol, tira um dos tênis e uma das meias, discute táticas com os outros a sua volta, finge que vai chutar, recua, depois decide:

– Chega de enrolação!

Mas é tarde demais.

– Calma aí, deixa ele chutar – pede Laion, que passa na frente outro interessado em fazer gol.

Segundo o rapaz ao meu lado esta é a quinta tentativa do penetra, um homem de olhos azuis, que carrega uma mochila preta nos ombros. O apito soa, e segundos depois resta um copo de pé embaixo da trave.

– Sou santista. Eu jogo bola – declara para a roda o homem de olhos azuis, e, ao perceber que filmo sua performance, continua – Se controla, tá? Você é da Globo? Da Eliana? Não usa a minha imagem, não – adverte ele.

O primeiro jogador, volta a calçar a meia amarela, vem andando devagar, com passos curtos. Enquanto isso, Laion entretém a plateia.

– Aqui não tem macumba, nem feitiçaria. É só ser bom de pontaria.

O homem das meias amarelas, finalmente, chuta a bola, e derruba dois copos.

Todos em volta caem no riso, menos um garoto sentado no pedestal da estátua do Apóstolo Paulo, que tem as palavras “Marcha Ré” pichadas em tinta azul. Do alto da obra de arte doada pela Mapfre Vera Cruz Seguros, em 2009, à Arquidiocese de São Paulo, o garoto balança uma das pernas. O mesmo pedestal serve de apoio para as costas de Michel, quando ele não precisa correr atrás da bola ou alinhar os copos de alumínio novamente.

O próximo jogador a tentar a sorte é um homem acima do peso. Ele chuta a bola, mas um copo resiste em pé. Irritado com o erro, ele se aproxima dos copos para conferir se há algo embaixo do único que não conseguiu derrubar. Não encontra nada suspeito. Ele faz uma careta e pede para tentar novamente. Desta vez coloca uma nota de dois reais entre os copos, chuta e ganha cinco reais. Ele é o terceiro campeão do dia. Antes, duas mulheres ganharam.

– Parece fácil, mas é difícil – comenta alguém da roda de torcedores e curiosos, que depois do gol se dispersa.

No maior Estado da região nordeste do Brasil, a Bahia, o primo de Laion foi o primeiro de sua família a trabalhar com esse tipo de futebol de rua. Em pouco tempo, a brincadeira se espalhou por toda a região, então, para evitar a concorrência, Laion veio para São Paulo e juntou-se a Michel, um rapaz de olhos pequeninos e ressabiados, que tenta alcançar meu bloco de anotações, enquanto tomo nota.

Michel veio de São José dos Campos, a 97 quilômetros da capital. Logo eles perceberam outra dificuldade no centro paulistano. “Ficava no calçadão ali”, diz Laion apontando em direção a rua 15 de Novembro. “Aqui a polícia não quer deixar. Chama a gente de ladrão”, conta a voz abafada do baiano, que ao microfone se torna um pouco ardida.

“Se você obedecer todas as regras acaba perdendo a diversão” está escrito na parte de trás da camiseta de Laion. Na frente, o rosto do músico que popularizou o reggae no mundo, Bob Marley, aparece estampado em cima de faixas verde, amarela vermelha e preta.

A Praça da Sé é um lugar que concentra grande circulação de pessoas vindas de todas as direções do Brasil. Lá pode-se encontrar as mais diversas culturas e comportamentos, inclusive um novo tipo sanguíneo. Ou melhor, um tipo sanguíneo muito antigo, mas que tem a peculiaridade de se camuflar quando está imerso em julgamentos levianos, raiva, medo ou indiferença. Quando este tipo sanguíneo assume o controle, imediatamente se descobre a sua classificação. É o solidário positivo, de acordo com o rótulo na bolsa de sangue.

No dia 15 de março, Anderson Lopes, 24 anos, descobriu que faz parte desse grupo sanguíneo. Ele trabalha das 12h às 20h no setor de carga e descarga da farmácia Onofre, na Praça da Sé, número 174.

Da entrada do comércio ele pode avistar constantes “rixas” entre os moradores de rua. Ele pensa que por trabalhar em uma região que atrai muitos turistas, a Praça da Sé deveria ser mais segura. “Briga entre morador acontece quase todo dia. Assalto nem tanto. Às vezes morte”. Poucos dias atrás uma base móvel da GCM permanecia até o início da noite. Frequentemente, um carro da Polícia Civil para em algum ponto da Praça da Sé. Alguns policiais circulam na região sem se afastarem muito da viatura. “As pessoas gritam para os policiais virem, e eles já conhecem quem é morador de rua, daí eles não vêm. A GCM não é muito eficiente, não”, opina Anderson.

Quando não está trabalhando, ele também frequenta a Praça da Sé. Na ocasião o jovem negro, que usa óculos de grau, boina branca, bermuda jeans e tênis, deixa os fios vermelhos de fones de ouvido para fora da gola de sua camiseta cinza e branca.

Em alguns fins de semana, ele assiste a shows evangélicos, também gosta dos artesanatos expostos e de saber que a Prefeitura trará comida para os moradores de rua naquela noite. “Isso é legal porque tem gente que não tem culpa de estar aqui”.

Durante a semana, Anderson viu o ônibus branco e vermelho da Tour do Carinho, patrocinado pela Johnson & Johnson, parado na Praça da Sé. Até o dia 24 de maio de 2014, este ônibus rodará pelo Brasil levando uma bolsa de coleta de sangue de proporções gigantes, que se for totalmente preenchida com miniaturas de corações terá:

5 mil atos de carinho.
3 milhões de glóbulos brancos.
340 bilhões de pulsações.
30 tons de vermelho.
E pode salvar 20 mil vidas.

Isso porque cada coração depositado na bolsa de sangue simbólica, representa um doador de sangue real, como Anderson, que na tarde daquele sábado entra na fila de doação formada na Praça da Sé. “Nunca doei, e é importante. Tem muita gente precisando”, conscientiza-se abraçado à namorada.

“Um ato de carinho inspira muita gente. O seu ato pode transformar o mundo em um lugar melhor”, defende o slogan da Tour que passa pela Praça da Sé, onde tudo acontece ao mesmo tempo, inclusive 1% de proteção que pode se transfundir através do sangue de Anderson, da solidariedade de Nivaldo e Seu Paulo, dos cuidados de professores e alunos da PUC durante a Feira da Saúde, das aulas dos fotógrafos do Trecho 2.8, da reportagem de Solange e do apoio de Ivanise e Vera às demais Mães da Sé.

 

Sobre a autora
Andréa Ascenção é jornalista e escritora, especializada em produção de jornalismo literário. Biógrafa da banda Ultraje a Rigor (clique aqui para mais informações). Vencedora nacional do Prêmio Clovis Barbosa, destinado ao Melhor Texto de Jornalismo Literário, em 2014.

 

Esta reportagem-retrato foi uma das vencedoras do Prêmio Shift Agentes Transformadores, em 2015.

*É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo sem prévia autorização da autora da obra.

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A mãe de Lara

A chuva tinha dado uma trégua, quando cheguei à casa de Darcyleide de Almeida Justino (37), esposa de Nilo Justino (38) e mãe de Lara, hoje com inacreditáveis, e batalhados, 6 anos de idade. Antes das portas da casa de Darcy se abrirem para mim, Milly, a cachorra vira-lata de 3 anos, recepcionou-me aos latidos. Uma voz estranha aos ouvidos gritava do lado de fora do portão. Sentamos no sofá marrom da sala-de-estar, falamos sobre o tempo gris, sobre o trânsito engarrafado – razão de meu atraso – sobre quem eu era e sobre o motivo de eu estar ali. E meu motivo era também a menina Lara. Descobri que Darcy era o motivo maior nas “sobrelinhas” da importância.

A vida dessa mãe se resume à vida da filha. E a vida da filha é a vida da mãe. Lara segue vivendo, e bem, graças à luta incansável dos pais. Mas, principalmente, aos esforços maternos de dias e noites mal dormidos, em busca de uma resposta que aliviasse os tremores de difícil controle da vida de Lara, como denunciam as olheiras marcadas no rosto de Darcyleide.

Darcy é a filha mais nova de três irmãs e um irmão. Casou-se com Nilo aos 29, depois de um ano de namoro. O casal se conheceu na faculdade. Nilo sempre quis ter uma filha. Darcy adora Fábio Júnior e José Augusto, mas não poderá ir ao show deles em cartaz na cidade. Ela precisa estar sempre por perto de Lara, que adora a porquinha cor-de-rosa, Peppa Pig, a Barbie e a Turma da Mônica. A propósito, o personagem preferido de Lara é o Cascão. Contei a ela que eu fico dividida entre Mônica e Cebolinha. Ela sorriu para mim.

Lara é portadora da Síndrome de Dravet, uma espécie rara de epilepsia severa e grave da infância, que pode acometer-se de forma focal ou generalizada. As convulsões febris de Lara abalam todo o corpo franzino da menina. Para cada 20.000-40.000 mil nascimentos, uma criança desenvolve essa mutação genética. É mais frequente em homens que em mulheres e se inicia, em geral, no primeiro ano de vida.

A menina nasceu aos 7 meses prematuros. Veio ao mundo para afirmar que “mil filhos não valem uma mãe”, como é dito popularmente. Um mês antes do nascimento de Lara, Darcy sofreu um acidente de carro. Com o impacto, a criança foi alojada totalmente no lado direito da barriga. A fatalidade aconteceu às 21h da noite, mas a ultrassom para saber como o bebê estava, só foi feita 1h30 da manhã. Nesse determinante intervalo de tempo, Darcy, por alguns instantes, não sentiu Lara se movimentar. A menina tinha sofrido falta de oxigenação cerebral e devia ter nascido naquele dia.

Pergunto à Darcy se considera a protelação do nascimento de Lara uma falha e se esse diagnóstico foi deliberante para a síndrome da filha. “Não posso afirmar se foi decisivo para a doença de Lara, mas acredito que foi, sim, um erro médico [o não nascimento de Lara no dia do acidente]”, pondera depois de uma pausa de reflexão. Nos primeiros minutos de vida da criança, uma avaliação- chamada de Índice de Apgar ou Escala de Apgar- é feita no recém-nascido no primeiro, no quinto e no décimo minuto após o nascimento, dando a cada um dos 5 sinais (frequência cardíaca, respiração, tónus muscular, irritabilidade reflexa e cor da pele) uma pontuação de 0 a 2, sendo utilizado para avaliar as condições da criança. Darcy, que era gestora hospitalar, contou que para um bebê ser considerado 100%, a nota dele deve ser 9 ou 10. A avaliação de Lara foi 2. “Minha filha mal respirou ao nascer. Nem chorou.” Darcy não imaginou que essa nota era o prenúncio de uma sequência de instantes difíceis.

Lara era uma garotinha “normal”, apesar da avaliação médica. Aos 4 meses, quatro dentinhos tinham nascido e aos 6 Lara já falava “papai” claramente. “Era uma criança muito desenvolvida”, rememorou a mãe. “Tudo foi muito rápido com ela.” Mas aos 8 meses de Lara, a mãe viu suas vidas mudarem drasticamente, como denunciou o número 2 no prontuário da menina. Lara estava na casa da avó, mãe de Darcy, quando teve uma febre e, acompanhada desse estado febril, teve também convulsões.

A garotinha foi entubada ao chegar ao hospital, porque o seu corpinho era como a Terra, quando duas placas tectônicas se encontram na crosta, numa escala de tremor forte. Muito forte. Darcy estava no trabalho, quando a mãe ligou aos prantos comunicando o acontecido. “Foi o maior desespero da minha vida”, contou Darcy com as mãos atadas pelos dedos e a cabeça baixa buscando o chão. Na época, os médicos falaram que a convulsão de Lara era coisa da “primeira infância”, devido à prematuridade do nascimento.

A cada 10-8 dias, a menina tinha uma crise. O hospital passou a ser a segunda casa da família Almeida dos Santos Justino. “Todo mundo conhece a Lara. Do maqueiro à direção do hospital”, sublinhou Darcy. Os funcionários já se despediam dos pais e da criança com saudações como “até logo”. Nada era tão certo, como retornar na semana seguinte.

Até então, o diagnóstico para o caso de Lara era uma “epilepsia de difícil controle”. Das 33 internações na Unimed, três delas a menina entrou em coma e duas vezes teve parada cardiorrespiratória. Passou por todos os neurologistas que o plano de saúde podia cobrir e suas crises só paravam com medicamento injetável. Aos quase 3 anos, em outubro de 2010, Lara e os pais foram para o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, em São Paulo.

Como o plano de saúde não cobria o custeio desse deslocamento, os pais de Lara entraram com uma ação na 8ª Vara da Criança e do Adolescente e conseguiram as passagens. Lara fez uma bateria de exames na tentativa incansável de obter uma resposta para o que, de fato, ela tinha. Seis meses depois, voltou para refazer os exames, que foram enviados para um laboratório nos EUA. Mas a resposta para a grande interrogação ainda não era um diagnóstico.

Com o tempo, nenhum medicamento de fabricação nacional conseguiam amenizar os tremores violentos de Lara. Darcy vivia à espera dos abalos corporais da filha, como até hoje vive para evitá-los. “Quem tem Síndrome de Dravet, não pode ter qualquer febre. Quando ela ameaça ter, eu já faço compressa, dou banho, verifico o termômetro de 30 em 30 minutos. É uma luta”, respirou fundo.

Quando a menina estava prestes a completar 3 anos, Darcy foi demitida. A causa era prevista: falta. Eram muitas as ausências no trabalho. Atualmente, somente o marido trabalha. A partir daí, começou a busca solitária de uma mãe. Como ajudar a filha, se nem mesmo sabia ao certo o que ela tinha? Darcy fez do computador, extensão de si mesma durante meses.

Entre dezenas de medicamentos e relatos encontrados internet à dentro, um chamou à atenção da mãe pelos comentários. Um pai, de origem alemã, narrava em inglês a melhora do filho, em coma por 3 anos, depois do uso de um medicamento chamado “ospolot”. Darcy, com a ajuda do tradutor, compreendeu ali, na descrição daqueles sintomas, que a síndrome de Dravet do garoto tratava-se também da síndrome de Lara. Enviou um e-mail ao pai do garoto no dia seguinte. Como Darcy, ele também buscou o tradutor para ler o que a língua portuguesa daquela mãe lhe suplicava. Darcy, mesmo sem entender uma palavra do que dizia o vídeo que o pai do menino enviou, sentiu que tinha encontrado o alívio de dias melhores para sua única filha. “Eu não entendia nada [do vídeo], mas só de ver o menino bem, escrevendo, pintando, foi o suficiente”, e se indagou: “Por que não a minha Lara?”

A neurologista já suspeitava da Síndrome de Davret. Quando Darcy falou sobre o achado na internet, a neuro avaliou que ainda não era o momento para fazer uso do ospolot. Achou melhor testar outro medicamento. Mas as crises de Lara aumentaram. Foi quando a mãe da menina entrou com uma ação judicial na Defensoria Pública contra o Estado para prover o remédio. O custo do medicamento importado varia entre 800 e 1000 reais, a depender da distribuidora. A família não tinha, e continua não tendo, condições de arcar com essa despesa.

Os desgastes com o Estado de Alagoas para garantir a estabilidade da vida de Lara são muitos. Dentre eles, o péssimo atendimento de alguns profissionais da Farmácia de Medicamentos Excepcionais de Alagoas (Farmex). “É preciso preparar muito as pessoas. Eles tratam a gente como ninguém”, desabafou. “O tratamento do pessoal do HC de Ribeirão é muito humanizado”, comparou. Além disso, atrasos para entrega do remédio ocorrem com frequência, fato que leva Darcy a uma peregrinação mensal e ao alerta: “Ao primeiro sinal de atraso, a família toda faz uma ‘vaquinha’ para não deixar faltar. Hoje fizeram uma compra pra um ano inteiro. Até julho estou tranquila, mas como haverá transição de governo, tenho que apresentar o problema novamente.”

O vidro do ospolot contém 200 comprimidos. Lara toma 180 por mês. Além dele, ela também toma mais dois medicamentos. Totalizando seis comprimidos ao longo de cada dia.

Desde o dia em que a menina passou a tomar o ospolot, a vida sinalizou que Lara e seus pais podiam sonhar em tê-la em futuros longos para eles. Quando Darcy solicitou o remédio, uma jovem de 17 anos já fazia uso do antiepiléptico. Agora, depois de Lara, mais oito crianças fazem uso. “Minha filha começou a dar esperança para outras crianças.” Darcy me garantiu: “Se minha filha tivesse se mostrado resistente ao ospolot, nem que eu pedisse clandestino, eu ia correr atrás do canabidiol.”

O canabidiol (CBD) é uma substância derivada da Cannabis sativa (a maconha) e não tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A produção, compra e venda de maconha são proibidas no Brasil, mas a legislação vigente prevê que o Estado pode autorizar o cultivo para fins medicinais. Apesar disso, a Anvisa não tem uma regulamentação que oriente os cidadãos sobre como obter essa autorização.

Para fazer o uso terapêutico do CDB, é preciso solicitar sua importação mediante prescrição e laudo médico. No início de outubro deste ano, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) publicou uma resolução que regulamenta a prescrição do canabidiol (CDB), por médicos do Estado de São Paulo, para crianças com epilepsias mioclônicas graves, que não tenham apresentado melhora dos sintomas com os tratamentos convencionais, como é o caso de Lara.

No mesmo dia desta resolução do Cremesp, foi estreado o documentário “Ilegal”, de Raphael Erichsen e Tarso Araujo, que discute a legalização do CDB diante de crianças que tiveram melhora comprovada após a utilização da substância. O longa-metragem é derivado do curta de mesmo nome, lançado em março, sobre o caso de Katiele Bortoli Fischer, que luta para que sua filha Anny Fischer tenha direito a fazer o tratamento regularmente.

A produção também deu início à campanha Repense que tem como objetivo incentivar o debate e a reflexão sobre o uso medicinal de maconha no Brasil.

Indaguei Darcy se ela tinha a pretensão de ter outros filhos. A resposta veio na palma da consciência: “O meu emocional é muito abalado. Não tenho condições de ter outro filho.”

Lara começou a estudar este ano. No colégio municipal onde estuda, a mãe afirmou que a filha foi muito bem acolhida. As quintas-feiras da menina são reservadas à terapia ocupacional, ao fonoaudiólogo e à psicopedagoga. Até os 4 anos, Lara não falava. Mas a mãe fazia questão de conversar com ela “através do olhar”, como disse me olhando nos olhos. Hoje Lara faz-se compreender e também as tarefas de casa da escola.

Lara, Darcy e Nilo viveram, mais do que ninguém, cada “agora” e cada “hoje” da vida. O “depois”, na prática, não existia para essa família, mas sempre foi o amanhã que motivou cada passo para que a Lara pudesse falar, sorrir, ir ao colégio, acordar depois de um cochilo à tarde, brincar com os inúmeros brinquedos amontoados em seu quarto, tomar um suco e soubesse no ato se é, ou não de “manga”.

Darcy tampouco teve respostas positivas durante toda sua batalha pela vida da filha. “Os médicos diziam que Lara não ia andar, que não ia falar. Diziam que eu ia perder a minha Lara a qualquer momento e eu sempre com aquela minha fé em Deus. Eu nunca perdi a minha fé em Deus. Acho que é por isso que estamos aqui hoje. Só tenho a agradecer também a minha família.” Não resisti e indaguei:

Você em algum momento pensou que sua filha fosse chegar aos 6 anos de idade?

– Não. A cada internação de Lara, eu achava que ia perdê-la. Que voltaria para casa sem a minha filha – disse Darcy vertendo tristeza em palavra.

Acredita que Lara poderá viver sem você futuramente?

– Acredito. Eu a preparo para isso. Lara é forte – afirmou a mãe, com convicção.

E numa última interrogação, perguntei se há o que Darcy não tenha feito por Lara. Ela foi categórica:

– Fiz e faço tudo por ela. Se eu perdesse minha filha hoje, eu não teria remorso: eu fiz tudo por Lara.