setembro 2014

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Pezão anda sonhando

Quem é Jeberson Santos de Oliveira? Ninguém sabe. Agora mude a pergunta para “quem é Pezão?” e possivelmente você terá uma resposta. Pezão embarca nos coletivos de Maceió cantando as músicas da banda de vaquejada 100 Parêa, sua favorita e, enquanto as pernas pensam o melhor caminho, a música faz seu coração caminhar a esmo: “Eu amo cantar!”.

Por conta de sua criatividade cômica, Pezão conquistou um punhado de tietes na capital alagoana. E, para os mais curiosos, ele revela: “Calço 44.” Pelo menos uns dois pontos dessa medida, devem ser por causa do inchaço causado pelas andanças.

O irreverente Pezão, para consolidar sua carreira, improvisou um bordão que arranca risadas de alguns passageiros. Após finalizar sua apresentação musical nos coletivos, ele implora: “Pessoá, pero amor de Deus, hoje quero comer lasanha com Coca-Cola Zero.” Com essa súplica, os corações amolecem e as moedinhas começam a pingar em suas mãos.

Nascido no município de Matriz do Camaragibe, Pezão garante que tem 42 anos, mas seu jeito de moleque e a aparência conservada denunciam apenas umas 27 revoluções completas da Terra em torno do sol. E olhe lá.

Quando criança, ajudava ao pai, Manuel Santos, a cuidar do patrimônio da família: dez cavalos e algumas carroças. “Meu pai cavava poço e ganhava um bom dinheiro com isso. Assim pôde comprar os cavalos”, lembra-se com nostalgia do tempo que, para ele, foi o melhor da vida. “A coisa que eu mais amava era cuidar daqueles bichos, dar banho, alimentar”, diz com os olhos brilhando de saudade e anseio.

Quando Pezão ainda calçava chinelos número 33, seu pai enfartou e ficou preso a uma cadeira de rodas. Por não conseguir mais trabalhar, perdeu cavalos, carroças e também o filho. Ao perceber que Manuel e sua mulher, Maria Zuleide, não tinham mais como “dar de comer” para os meninos, uma delegada conhecida da família decidiu adotar Pezão, a essa altura com seus nove anos de traquinagens. No fundo do poço que Manuel jamais imaginou cavar, estava o futuro de seu filho, que hoje vaga pelas ruas da capital em busca da desejada “brisa” do crack.

Pezão chegou à Maceió aos nove anos e um ano depois foi apresentado, por intermédio de um colega, à famosa “pedra”. Boa parte do dinheiro que ganha nos coletivos, ele entrega aos traficantes e assim, com os pés descalços, ele constrói seu descaminho.

“Queria sair dessa vida, mas me sinto fraco.”  Muitas vezes nem volta para casa e dorme nas camas de cimento das ruas. “Quando chego, a mulher diz: ‘Porque tu não larga disso? Os meninos sentem tua falta.’ Ela também sente, mas é orgulhosa pra assumir”, afirma com um sorriso deprimido no rosto.

Pezão fala da esposa e dos filhos com um olhar tão distante, que parece se perder em um doce delírio. Diz que a amada tem os olhos verdes, igual à cor de abacate ou dos mares da capital alagoana, onde hoje tenta sobreviver. “Tenta” porque desde que chegou à Maceió não se sente bem recebido. A não ser pelos “fãs do Facebook”, que postam vídeos e fotos como registro de sua cantoria nos ônibus da cidade. “Sou o melhor! Apareceu um doidinho que fica dançando por aí, mas esse não me barra, não”, é enfático quando discursa a favor de sua imagem e tanta minar a do concorrente.

Ele conta que conheceu a esposa no ônibus, enquanto vendia amendoim. Um dia, ela quase pediu divórcio, mas desistiu quando Pezão tentou se jogar de uma ponte. “Eu estava atravessando a ponte quando ela passou perto de mim com outro cara”, recorda, “daí tentei pular na mesma hora. Foi quando minha esposa segurou no meu pescoço e disse que voltaria pra mim.” Ele jura de pezões juntos que não teve medo quando tentou o suicídio, porque ali, vendo sua companheira partir, percebeu que estava perdido e sozinho no mundo. “Naquele momento eu já estava morto”, conta.

Depois do incidente da ponte, o casal fez as pazes e até hoje estão juntos. Apesar disso, Pezão sente como se não estivesse ligado a nada além do crack. “É como se eu não vivesse de verdade”, ajuíza com os olhos fitando os pés descalços e feridos. Ele lamenta os seis anos que passou na cadeia, mas assegura que os dois piores dias de sua vida foram em liberdade. “Levei duas facadas de uns maloqueiros e os hômi [polícia] uma vez deram dois tiros nas minhas pernas”, aponta as cicatrizes como um lembrete dos dias de pavor.

Acima de qualquer coisa, Pezão parece um homem de vontades que não se perdem com o tempo. Seu olhar é típico de um sonhador, daquele que sonha para continuar vivendo. Um cavalo e um violão, segundo ele, são as únicas coisas que o afastariam do vício. “Eu nem ia me lembrar da nóia! Nem teria tempo pra isso”, assegura arrebatado como se o pocotó e a viola estivessem ali, bem à sua frente.

Certa vez, Pezão sonhou que foi aceito como integrante de uma banda famosa e que, por conta disso, pôde comprar uma fazenda e enchê-la de cavalos. Mas acordou e, golpeado pelo absurdo de sua realidade, viu apenas o vazio da existência. Ficou triste, forçando o pensamento a lembrar do olhar acolhedor da esposa, que mais parece uma fantasia. Deitou-se, cerrou os olhos e quis viver novamente sua ilusão. Partiu.

Sem caminho marcado, longe dos campos de concreto, ele cavalgou em seu cavalo explorando cada raio de sol refletido na grama verde e tenra, cortando o vento como uma foice. E, assim, com um riso galopante, Pezão continua sonhando saudade de algo que nunca pôde viver. Tomando destinos nos coletivos da cidade, todos os dias, ele alimenta a fome – às vezes de comida, outras de ilusão -, e em algum desses caminhos de itinerário, Pezão poderá, quem sabe, chegar às terras dos sonhos. Do seu sonho.

vitoria nova

Mãe Vitória

Eram três horas da tarde quando cheguei até a casa da Mãe Vitória, mãe de santo que tem um templo de umbanda estabelecido na Vila dos Pescadores. Fui recepcionada por dois cachorros que latiram felizes quando me viram. Mãe Vitória apareceu na porta. Era uma senhora baixinha e de cabelos brancos que me recebeu com um sorriso no rosto. Logo me levou para conhecer seu lar, que era também seu local de trabalho – o espaço onde se dedica aos Orixás. No local havia uma grande mesa, búzios, velas, incensos e um trono no centro da sala, fundamento de toda casa.

Maria Vitória de Lima, a Mãe Vitória, tem 58 anos de idade e há 30 se dedica à Umbanda, religião de matriz africana que atua na orientação espiritual e doutrinária feita pelos Guias – espíritos ligados diretamente a um determinado Orixá.

Toda vestida de branco, Mãe Vitória me levou para conhecer o jardim. Perguntei por que ela estava vestida daquela maneira. A resposta veio logo em seguida: “O branco é importante em todos os momentos. A gente que lida muito com Oxalá (orixá associado à criação do mundo e da espécie humana) precisa usar a cor branca porque ela traz paz e a gente que é espírita precisa muito”.

Mãe Vitória, acomodada em uma cadeira no jardim, conta um pouco de sua trajetória de vida. “Casei nova, com 16 anos. Fiquei viúva aos 17 e com 18 casei de novo. Aos 28 fiquei viúva novamente. Desde lá não casei com mais ninguém, me dediquei à criação dos meus filhos, ao meu crescimento espiritual e a construção do meu templo”.

Nascida em União dos Palmares, na região da Serra da Barriga, Vitória confessa que já tinha visões aos cinco anos de idade, mas não tinha noção do que estava acontecendo. Algo muito comum na região da Serra é o fogo-fátuo, uma luz azulada que surge com a inflamação espontânea do gás metano, resultado da decomposição de seres vivos: como plantas e animais típicos do ambiente. Vitória acreditava que via o fenômeno em meio à serra, mas, segundo ela, aquela era a primeira demonstração de sua mediunidade

Vinda de família de origem católica, Vitória, aos 8 anos, foi estudar na cidade de Viçosa, para fazer a sua primeira comunhão. Nessa época nenhum de seus familiares dava importância aos primeiros relatos que ela fazia de suas visões.  “Até o dia da minha primeira comunhão ninguém falava nada espiritual. Eu fui coroinha, limpava a sacristia, ajudava a fazer hóstia, nunca perdia uma missa e também ajudava o padre a dar esmolas pros pedintes da cidade. Eu era muito eficiente”.

Ela conta que no dia de sua primeira comunhão, após a cerimônia, iria ter um jantar em família e que ganhou de seu tio uma caixa de sabonetes. Quando saiu da sala e foi até o quarto guardar seu presente, foi manifestada por um espírito pela primeira vez.

“Fiquei tremendo e minha fala foi mudando, as pessoas estavam assustadas. Todos muito nervosos, disseram que eu estava com uma crise de nervos. Na época eu não entendia, mas hoje sei que era a aproximação da minha espiritualidade”, relata.

O padre da cidade foi chamado para realizar um exorcismo na pequena Vitória, que além de ser diagnosticada com uma crise de nervos, poderia ter também um espírito fazendo dela encosto, segundo acreditava o padre. Foi uma noite inteira de rezas em latim e água benta.  Vitória também foi levada ao médico diversas vezes para descobrir a causa de suas alucinações repentinas.

Quando criança, ela gostava de fazer altar de santo e era muito introvertida. Tinha visões constantemente com uma mulher de branco e um homem. Costumava conversar com pessoas que não estavam ali. Era considerada doente e estranha pelos irmãos, família e amigos.

Os boatos na cidade já estavam correndo soltos. Várias pessoas vinham conversar com a mãe de Vitória e se oferecerem para levá-la a um curandeiro. Um dia o dono de uma farmácia sugeriu que a mãe de Vitória procurasse um centro espírita, pois, de acordo com ele, o problema da menina não era mental, mas espiritual.

O farmacêutico deu o endereço de um Centro Espírita em Jaboatão dos Guararapes (Recife), alegando que a medicina não iria resolver o problema de sua filha. Foram para Pernambuco a mãe, Vitória e o irmão de 14 anos, Laércio.

Já no Centro, uma senhora vestida de cigana colocou a mão na cabeça de Vitória e disse que ela era médium de nascença. Vitória lembra que, naquela hora, manifestou mais uma vez sua espiritualidade.

Em Maceió, aos 17 anos, passou a frequentar o kardecismo, doutrina que lida com os espíritos que não aceitaram a passagem desse para outro mundo. Foram quatro anos de trabalhos até que Vitória entendesse o que se passava com ela e começasse a trabalhar de forma mais saudável aquilo que hoje ela considera um dom.

“Eu tinha 28 anos quando montei minha primeira casa. Comecei a ser filha de santo, frequentando um terreiro, para preparar a cabeça e o espírito. A minha casa é meu templo, que eu chamo de Tempo Abaçá Airá Obá, que mantenho há 30 anos na comunidade”, conta.

Mãe Vitória acredita que todos têm uma missão no mundo e que a dela é encaminhar pessoas (e espíritos) para o caminho do bem. Com a sensibilidade aflorada, ela sente no ar a energia das pessoas. E, contra as “energias ruins”, Vitória tem uma receita fácil: mirra, benjamim e alecrim para defumar o ambiente.

“Eu gosto de energia boa e pensamento positivo, pois o padrão de pensamento define quem anda do seu lado. Eu não evito pessoas de energia ruim, pois temos que aprender a lidar com tudo e mostrar que o caminho não é aquele, afinal, nem sempre é problema de espírito, mas de mente”. A dona do templo afirma que seu trabalho não é só fazer limpeza espiritual nas pessoas, mas que muitas vezes é preciso dar uma de psicóloga, entender os traumas e aconselhar.

Ela se orgulha de ter construído tudo sozinha e ter firmado bons laços de amizade com os moradores da Vila de Jaraguá. “Aqui não tinha nada, no lugar dessa casa havia um barraco velho e eu ergui meu lar à custa de trabalho e esforço”. A mesma alegria com que ela conta sua vida também dá lugar à tristeza quando ela pensa na possibilidade de tudo isso ruir.

Sua casa também está na mesma situação das outras casas da Vila dos Pescadores, ameaçadas de serem retiradas do local pelo município.  “Não acho que essa seja uma maneira correta de agir, os moradores da Vila mereciam uma assistência melhor e deveriam permanecer aqui”, desabafa.

A casa de Vitória, por ser um templo religioso, não pode ser removida, mas, segundo ela, sua residência está contemplada no projeto de transferência. Vitória garante que tem o documento de ocupação da União, autorização de diversos órgãos para ter ali sua casa. “Eu sei que minha casa corre riscos, mas até hoje ninguém me procurou para falar sobre isso”.

Apesar da ameaça de remoção, ela não hesita em abrir um sorriso e dizer que se orgulha de sua trajetória e da pessoa que se tornou. “Sou feliz porque gosto de trabalhar, de fazer caridade, de ajudar pessoas e foi a espiritualidade que me ensinou todos esses valores. Não acho que sou melhor que ninguém por conta do meu dom, porque o único que pode julgar nesse mundo é Deus”.

Vitória faz parte do cenário daquela região e sua história e seu templo já fazem parte da vida dos moradores de Jaraguá, que mantêm, como ela, uma relação de amizade e respeito.

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