agosto 2014

reinovo2

Os suspiros de um Rei

Não é preciso esforço para extrair poesia das palavras do sr. Eudes, famoso pelo título de Rei do Suspiro, pois ele fala como se escrevesse metáforas e rimas no ar, bem ali, enquanto conversa, com sua voz calma e o seu jeito sereno de ser. Conforme ia resgatando alguns fatos da sua trajetória, compreendi que as memórias confiadas a mim eram mais do que meros registros de sua existência. Eudes é, na verdade, um poeta das parábolas. Isto é, de histórias que valem mais por seus significados simbólicos, donde se desprende um princípio geral, uma mensagem.

“Quem tiver ouvidos de ouvir, ouça”, disse Jesus. Talvez seja essa a qualidade que o sr. Eudes busque em seus ouvintes. Uma reminiscência dos anos em que se dedicou à carreira religiosa. Nascido no município de Mata Grande, Luiz mudou-se ainda jovem para a capital. Na época, alimentou o desejo de tornar-se padre. Por conta disso, o Seminário Arquidiocesano de Maceió custeou seus estudos no extinto Colégio Guido e no Marista. Nesse último, concluiu o ensino médio.

A gênese da trajetória como vendedor de suspiros foi resgatada através de um episódio corriqueiro, o qual presenciou anos atrás. Porém, ainda que trivial, bastou para ele extrair um sentido mais profundo.

“Certa vez, fui fazer uma entrega de suspiros numa feira, na Pajuçara. Me aproximei de uma das barraquinhas e entreguei a mercadoria ao feirante. Cansado, pedi um refrigerante e enquanto bebia observei uma menina, de uns 6 anos, que comprou um dos pacotes trazidos por mim. A menina sentou numa mesa e devorou tudo. Não satisfeita, pediu outro saquinho. Após observar aquela cena, pensei: ‘Esse suspiro deve ser mesmo muito bom’”.

De volta para casa, contou a sua esposa sobre a garota que viu logo cedo. Tinha sido a injeção de ânimo que precisava para investir no negócio. “Porque antes, eu não botava muita fé”, revelou ele, filosofando:

— Sabe quando alguém lhe dá um presente, sem você esperar, e isso o deixa feliz o dia todo? Então, pra mim, aquele dia, foi um dia bom, eu recebi um presente. Fiquei alegre, raciocinei bem, conclui que o negócio era uma coisa muito boa. Porque antes disso, as pessoas falavam negativo. Que não dava dinheiro. E naquele dia foi como uma luz que surgiu no fim do túnel. Uma luz que clareou a minha mente. Agora, só paro de vender quando Deus me tirar da terra. Pois hoje está na minha alma, no meu espírito, que o negócio é algo bom.

Em agosto, completará duas décadas que Luiz Eudes trabalha exclusivamente com a venda dos quitutes.

O sucesso do Rei do Suspiro como vendedor deve-se, também, ao talento de sua mulher, Marlene Calixto dos Santos, responsável pelo preparo dos suspiros, cujo sabor costuma agradar a clientela. “Ela não gosta muito de conversar. É da produção”, justifica Luiz, quando pedi para entrevistá-la. Casados há 20 anos, eles se conheceram na época em que participavam da Comunidade Eclesial de Base – grupos de fiéis católicos que promovem a leitura bíblica.

Dona Marlene aprendeu a fazer os quitutes num antigo emprego. Curiosa, tratou de ficar de olho quando a ex-chefe ia prepará-los. E não foi difícil aprender a receita, que é simples. Resume-se aos seguintes ingredientes: limão, clara de ovo e açúcar.

Luiz Eudes pontuou que, logo quando começaram a produzir os suspiros, o casal gastava boa parte do tempo com a batida manual dos ovos. “Esse era o momento mais cansativo do preparo”, lembrou, “pois durava cerca de duas horas”. Foi assim até arriscarem o uso da batedeira industrial para feitura do doce. Não utilizaram a máquina no logo início, segundo o sr. Eudes, devido a um mito que cercava a produção do suspiro: “Diziam que se fosse preparado de outra maneira a massa esquentaria em excesso, o que prejudicaria o sabor”.

— Só depois, descobrimos que a gente poderia usar esse recurso. E com os passar dos anos, fomos aperfeiçoando a receita. Hoje, o nosso suspiro se tornou conhecido no Brasil e no mundo como o melhor de Alagoas. Isso só aconteceu porque ele foi sendo aprimorado.

Daí em diante, tem início a parábola Terno.

Na década de 1970, o Rei do Suspiro conciliou o trabalho como professor de Educação Religiosa e a graduação no curso de Direito pelo Cesmac. Alguns anos após receber o diploma, abriu uma corretora de imóveis e de planos de saúde chamada Alagoana, situada próxima à Praça Sergipe, no bairro do Farol. Foi quando comprou os primeiros ternos, que ele guardou até fechar a empresa e investir na venda de suspiros.

— Aí eu deixei de usar. Perdi até o costume — confessou.

O antigo “uniforme”, rememorou o sr. Eudes, foi substituído por tênis, bermuda e camiseta.

Um dia, enquanto vendia os doces numa galeria, localizada no bairro da Pajuçara, um homem que fazia a segurança do local se aproximou e disse:

— Não acha que chamaria mais atenção se o senhor vestisse uma camisa branca, uma gravata e uma calça social?

Até aquele momento Luiz jamais havia cogitado tal alternativa. Como ele não possuía dinheiro suficiente para comprar os trajes, o colega lançou uma proposta generosa:

— Por 15 reais, faço pra você três camisas sociais.

— Divide em três vezes? — barganhou Eudes, sem titubear.

Para completar a vestimenta, pediu a um amigo que comprasse no cartão de crédito uma calça social de cor preta e uma gravata.

— Quando passei a usar essa roupa, as pessoas me elogiaram muito. Fiquei mais ou menos um ano repetindo as mesmas peças. Até que eu pensei: ‘Rapaz, acho que se eu botar um terno vai ficar ainda melhor’. Como não tinha dinheiro pra comprar, eu comecei alugando. Deu certo.

Luiz Eudes foi ganhando, aos poucos, cada vez mais notoriedade. “Por onde andava”, disse com orgulho, “as pessoas me parabenizavam e pediam para tirar fotos comigo”.

— Foi ali quando começou a vida do terno.

Após um ano, o Rei do Suspiro conseguiu juntar a grana que faltava para comprar a sua própria vestimenta. “Eu fiquei com aquela alegria de fazer o trabalho com o meu terno. Foi uma felicidade muito grande”. Atualmente, ele possui cerca de 20 ternos.

“Graças a Deus, não preciso comprar mais nenhum. Porque, agora, as pessoas me patrocinam. Elas dizem: ‘Você está tão bonito. Parabéns!’ Respondo: ‘Se tiver um terno que não esteja na validade pra você, tenho certeza que estará pra mim.’ Hoje, elas me perguntam: ‘Você quer um, aceita um?’ Tem gente que me envia pelo correio de Salvador, Natal, Aracaju”.

— O calor não te incomoda?
— É costume. O nosso corpo se acostuma com o frio, o calor… com tudo. Quando a gente reclama, fica fadigado, nervoso. A temperatura parece aumentar. Mas se permanecermos calmos, tranquilos, de repente, surge um ventinho, aí diminui o calor. Isso serve para todas as pessoas, para todos os ramos de negócios: Se nos acalmarmos, vemos uma luz no fim do túnel. É preciso ter calma para poder receber a luz.

— Como o senhor virou o Rei do Suspiro?
— Vestido de terno, as pessoas começaram a dizer: ‘Ah, você é o Rei do Suspiro’. Elas que me apelidaram assim. Não fui eu. Chegou um momento em que pensei: ‘Se estão se referindo a mim dessa forma, então eu sou’. Aí assumi essa posição. E se você pesquisar na internet “Rei do Suspiro”, eu vou aparecer lá. Hoje, tenho até imitadores. Quando passei a usar terno foi uma febre. Quase todas as lojas mandaram seus funcionários se vestirem iguais a mim.

— O senhor enfrentou alguma dificuldade?
— Fui pegando a trilha da facilidade com a experiência, porque no começo era muito difícil. Principalmente por ser um ramo novo para mim. Na época, o acesso aos locais era complicado. Muitas vezes não tinha abertura para trabalhar nos restaurantes. Hoje, graças a Deus, sou uma exceção. Me tornei colega dos proprietários. Meu lema é: O covarde nunca começa, o perdedor nunca termina e o vencedor nunca desiste.

— Como as coisas foram melhorando?
— Fiz a minha parte. Usei o calor humano, cumprimentava as pessoas, dava brindes. Isso foi abrindo os caminhos. Porque somos carentes de amor, de Deus. Precisamos olhar nos olhos, dar um ‘bom dia’ bem dado. Quem entende isso se dá bem na vida. A simplicidade abre às portas. Se você for uma pessoa humilde, as pessoas lhe recebem. Agora, se você for pé duro, pedante, ríspido, elas se afastam de você.

— Quantos suspiros o senhor vende por mês?
— De uns tempos pra cá, a clientela vem aumentando muito. Minha mulher já não consegue dar conta da quantidade de pedidos. Tamanha é a procura que vendemos tudo o que produzimos. Já recebemos encomendas de pessoas do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Sergipe e até de Minas Gerais.

— Qual é o segredo do senhor?
— Todo vendedor é aparência, sorriso e elogio.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de usar roupas mais leves, Luiz Eudes foi enfático: “Eu não quero, não”.

Aos 61 anos, o Rei do Suspiro confessou que ainda mantém alguns sonhos, como a publicação de um livro de receitas de sobremesas à base de suspiro e o desejo que um dos seus quatro filhos dê continuidade ao negócio da família. Este último, confessa ele, já não o preocupa tanto. Pois, a sua filha mais velha está empenhada em preservar o sangue real da família. Para encerrar a entrevista, fiz uma última pergunta:

— O senhor espera algo mais da vida?
— Tentei três vezes o vestibular para Psicologia na Ufal, mas não fui aprovado. Eu sou muito apaixonado pela área. Qualquer dia, quando tiver mais equilibrado no suspiro e com o negócio andando com as próprias pernas, irei tentar novamente. Eu quero morrer sendo psicólogo — disse Luiz Eudes, que já aprendeu a receita do sucesso.

repente

De repente!

“Eu vou cantar um pouquinho para deixar minha história. Essa é minha profissão, com ela é que eu tenho vitória. Fiquei muito satisfeito com a gravação da Glória!” De Repente na ponta da língua, e dedos ao violão, surgem na paisagem da Praia de Pajuçara Gildo Alagoano e Diocleciano Xavier de Lima, dois repentistas que me chamaram logo a atenção. Vinham conversando pela calçada, de olhos grudados no chão, contornando os carros estacionados na orla e os automóveis do vem-e-vão. Na ânsia de não perder tempo, fui ao encontro das violas, que já apontavam na minha direção. Me apresentei e sem hesitar, os próximos minutos foram de narração:

Há mais de 35 anos a dupla, que preferiu fazer do nome próprio o nome de profissão, faz do improviso, ganha pão. “Não temos nada gravado no juízo”, afirma Diocleciano. “O Repente é um dom da natureza dado por Deus. Se não tiver, não canta de jeito nenhum”, adverte o senhor de fala mansa, nascido em Caruaru, cidade do Estado de Pernambuco. Mas faz tanto tempo que ele se mudou para Maceió, a convite de um colega para cantar juntos, que até já se considera alagoano. Pai de seis filhos, três meninas e três meninos, só a filha mais velha é formada. Porém, garante que “leitura” toda a sua prole teve, e tem!, mais que ele. “Hoje meus filhos têm casa, carro, moto, emprego… Criei minha família nos braços da viola”, que faz cócegas nos dedos enquanto o Violeiro rememora.

A jornada de Diocleciano só começa às 9h da manhã. E bem como o dia dele, tarde para muita gente, a vida de cantador também se desenrolou já depois da mocidade: aos 40 anos da segunda estrofe. Aposentado, frisa que “tem turista que dá pouca atenção” e que antigamente o troco da rima era melhor: “O bolso do turista era mais generoso. Até 100 reais, de uma vez, já ganhamos. Mas isso faz tempo!”, embora sublinhe que o que vale mesmo é o reconhecimento. E não se engane: eles tocam pra todo mundo. Sem distinção. Pode ser gaúcho, alagoano, pintado de azul e branco, feio ou bonitão. Que por falar em beleza, até hoje Diocleciano não sabe como Gildo se casou. “É feio demais, moça!”, brinca em confissão. Mas o amigo cantador justifica: “Mas naquele tempo nois era outro, né?!” Digo eu: Como não?!

Gildo Alagoano, de 74 anos, é pai de nove filhos e filho também é do município de São José da Laje, situado ao litoral norte alagoano. Mas mora em União dos Palmares, cidade conhecida por abrigar em suas terras a famigerada Serra da Barriga, cenário do primeiro grito de liberdade do grande líder quilombola Zumbi dos Palmares. Gildo, tal qual o líder símbolo de resistência, é negro, forte, e diferente de Zumbi, baixinho. Além da viola, ele carrega também uma barriga que, bem como seu ofício, desafia os botões da camisa de manga curta. Trabalhou muitos anos em uma usina de metalúrgica. Mudou-se para São Paulo aos 35 anos de idade, mas não dava para manter a vida com um salário que mal pagava as cordas da viola.

Essa mistura de poesia e música criou raízes em solo nordestino. O cantarolar do Repente costuma vir acompanhado. Se for por um pandeiro, é “Coco de Embolada”. Se o acompanhante é o violão do caipira, o certo é chamar por “Cantoria”. E se não tiver acompanhamento musical, o Repente, também chamado de Desafio, recebe o nome de “Entoada, toada ou aboio”. Ei lá, boizinho!

O Desafio na vida de Gildo chegou nas asas do famoso cordel “Pavão Misterioso” e nos folhetos que lia na feira quando menino. Por causa do Pavão, diria Ednardo, compositor brasileiro, conterrâneo de Fagner e Belchior, o Repentista ainda “guarda no leque o moleque de eterno brincar”. Mas quem narra, na ocasião, é Diocleciano, o 1º tesoureiro da Associação dos Violeiros e Trovadores de Alagoas (AVTA), que até cantar para Doutores, já cantarolou. “Eles ficaram de boca aberta!” e com a vontade de saber rimar.

A AVTA foi criada em 20 de janeiro de 1976 pelo pernambucano Raul Vicente de Queiroz, mestre violeiro e repentista, que em 2010, foi agraciado como Patrimônio Vivo. Atualmente em Alagoas, segundo Elias Procópio, diretor cultural e tesoureiro da Associação, só existem dez profissionais da viola. “Mas amadores tem uns 20!” E explica numa linha só a diferença entre o repentista profissional e o amador: “O cantador profissional tem que viver da viola”, afirma Procópio. Ao ano, são realizados, “de certeza!”, doze encontros de violeiros. “É disso pra mais! Tem uns que a gente realiza e não dá muito certo”, confessa.

No tempo de Elias menino, todo aluno tinha uma história em cordel pra ler. “Hoje, ele [o estudante] não sabe o que é cultura popular” e conclui dizendo que em Recife quem faz os festivais de cordel são os próprios universitários. “Até autógrafo pedem a gente”, surpreende-se.

Vida que segue! Separado há mais de 30 anos, o trovador Diocleciano de 80 anos, ainda tem a “lesa ilusão” de encontrar um novo amor, como o que um dia rimou no Repente. “É difícil arranjar uma mulher que veste saia”, quis dizer, “mulher competente”. E o que é ser uma mulher competente? Para o artista, “nem toda mulher que veste saia é mulher; nem todo homem que veste calça é homem”. Foi essa a explicação. Mas acredita no sentimento, como eu acreditei naquele vento que soprou no meu pensamento. Eu tinha que estar embaixo daquele coqueiro pra esperar o Repente, de repente!, passar, mas não sem antes gravar algumas estrofes de improviso pro Vidas Anônimas no meu celular.