julho 2014

10003460_719900371368074_743458140_n

Olha a Miss Paripueira!

Todos os dias, Ambrosina Maria da Conceição saía de casa vestida com roupas coloridas e adornada com acessórios extravagantes. As ruas da atual cidade de Paripueira, até 1988 uma vila agregada ao município de Barra de Santo Antônio, eram a sua passarela. E por onde caminhava, ou melhor, desfilava, recebia aplausos e gracejos dos moradores e convites de turistas para tirar fotos.

Sua peregrinação diária transcorria sem maiores aborrecimentos, até os “maloqueiros” azucrinarem a sua paciência. Eles a chamavam de Sabiá ou Canela de Sabiá, apelidos que ela detestava. Ambrosina, uma senhora de origem negra, magra e de estatura baixa, perdia a calma e gritava: “Meu nome é Miss Paripueira!”, alcunha pela qual se tornou conhecida e como ainda permanece viva na lembrança de muitos alagoanos.

Quando avistada pela criançada, Ambrosina não tinha sossego. Uma das brincadeiras que mais a desagradava era quando a garotada arrancava a sua peruca. A reação dela sempre rendia boas gargalhadas e também carreiras dos meninos para evitar uma pancada com a sua sombrinha.

Miss Paripueira transitava entre a lucidez e o delírio. Figura singular das décadas de 70 e 80 no pequeno município onde residia, sua fama não tardou a chegar à capital. Vez ou outra, quem andasse pelo Centro de Maceió poderia se deparar com Ambrosina, que logo se tornava uma grande atração.

O advogado e professor universitário Carlos Ramiro Basto registrou o início da jornada para a fama da ilustre moradora de Paripueira em artigo publicado no livro Arte Popular de Alagoas, cuja pesquisa e organização são de Tânia Pedrosa.

Antes do estrelato, Miss fazia-se de “beata”. Conhecida por Vizinha, ela percorria as praias, aos domingos e feriados, com uma bandeja repleta de flores, onde repousava a imagem de uma santa, pedindo contribuições em dinheiro para uma infindável “novena”, realizada em sua casa. “Num domingo de Carnaval, quando ela estava na praia pedindo espórtulas [doações], várias jovens, inclusive minha filha Elizabeth, perguntaram se ela não queria ser candidata a Miss Paripueira. Ela ficou satisfeita com a proposta e respondeu afirmativamente. Imediatamente, as jovens improvisaram uma fantasia com a faixa de miss e uma coroa, e colocaram-na num jipe sem capota, que seguia o caminhão da orquestra. Foi aclamada miss durante todo o percurso do corso. E, daí por diante, a Vizinha deixou de ser ‘beata’ e passou a ser Miss Paripueira”, escreveu Carlos Ramiro Basto.

Tomado pela vontade de registrar a história da Miss, o então diretor alagoano José Márcio Passos, 63, documentou em Super-8 o cotidiano da personagem. “Acompanhei o dia a dia dela. Desde o momento em que saía de casa, pedia dinheiro para as pessoas, era xingada pelas crianças. Todas as suas reações”, lembra.

“Miss Paripueira se considerava a mulher mais bonita da cidade. Era um delírio maravilhoso. E a convivência com ela foi fantástica”, conta Márcio Passos, lamentando a perda da única cópia do filme que tinha. O curta recebeu o terceiro lugar para Melhor Filme no Festival Nacional de Cinema de Aracaju (Fenaca), em 1978, e a mesma colocação no IV Festival do Cinema Brasileiro de Penedo.

O cineasta recorda alguns episódios engraçados protagonizados por Ambrosina, como quando falava sobre a paixão dela por um certo capitão Salgado, ou por um personagem da novela Antônio Maria, exibida pela TV Cultura, em 1985. Há quem diga que o tal capitão existiu e há quem afirme que era só mais uma invenção da sua cabeça. Ela também não descuidava da aparência, pois, caso contrário, Lulu da Barra, invejosa, poderia roubar a sua coroa e o seu título. Lulu, segundo Miss Paripueira, não sabia desfilar e nem tão pouco dançar o Carnaval. Somente ela conhecia o “passo da onça”, um estilo de dança com o qual pretendia desafiar a invejosa rival.

“Uma coisa que me chamou a atenção foi o fato dos moradores de Paripueira gostarem dela até certo ponto. Porque às vezes ela incomodava, tornava-se agressiva. Mas, na maioria das vezes, era dócil, animada e brincalhona”, afirma Passos, ressaltando uma cena que lhe marcou: “Certa vez, ao entrar numa casa onde os familiares estavam reunidos na varanda, Miss se dirigiu para cumprimentá-los. Mas eles não davam a mão para ela. Só as pontas dos dedos. Nunca me esquecerei disso”.

A artista alagoana Beta Basto também guarda lembranças da Miss. “As boas lembranças que tenho dela são do começo do seu reinado. Mas, infelizmente, ela, que antes era mimada pela turma que ia passar férias em Paripueira, tornou-se motivo de brincadeiras maldosas”, recorda.

Um dia, os jornais noticiaram a morte de Miss Paripueira, vítima de atropelamento, no Centro de Maceió. Todos lamentaram o desaparecimento daquela figura emblemática de Paripueira. Passado algum tempo, ela apareceria novamente nas ruas da cidade. Não era uma assombração: a reportagem havia publicado uma informação equivocada. Ela estava viva e apontou como responsável por espalhar aquela notícia inverídica a sua “arquirrival”, Lulu da Barra.

Ela continuou por mais alguns anos na sua peregrinação habitual pelas ruas do município de Paripueira, pedindo dinheiro para sua sobrevivência e defendendo o seu reinado de Miss. Até que, já debilitada pela idade avançada, abandonou suas andanças diárias. Mesmo assim, amigos e conhecidos continuaram contribuindo financeiramente e com doações. Quase duas décadas após sua morte, ocorrida em 1995, a Miss Paripueira permanece viva na memória dos alagoanos.

Trecho da matéria “Cortejo Fantástico”, publicada na revista Graciliano, n.º 20. 

Foto: Celso Brandão.

amaro

Comendador Amaro

Os encontros são inevitáveis e diários, por vezes mais de uma vez por dia. Pela manhã, se dirigindo ao local de trabalho, no meio da manhã para um café na copa, no almoço, no fim do expediente. Alguns combinam horários e quando não coincide de estarem no local ao mesmo tempo, sempre se perguntam um pelo outro:

— Fulano já subiu?

Amaro Inácio dos Santos, o seu Amaro, em sua cadeira, dentro do cubículo 100 x 900 cm, responde com seu melhor sorriso:

— Acabou de descer!

Dentro dos elevadores do Tribunal Regional do Trabalho de Alagoas há 18 anos, ele tem muitas histórias para contar. Embora encontre gente todos os dias, poucas já pararam para escutar o que ele diz ou para lançar um olhar mais atento sobre aquele homem de pele negra e cabelos brancos, de sorriso largo e afetuoso.

— Aprendi os horários de cada um, sei quem é cada pessoa, mas nem todos me cumprimentam.

Alguns funcionários, quando cumprimentam é com um pequeno movimento de cabeça, sem sequer balbuciar. Entram conversando, saem conversando e não interrompem o assunto um instante sequer para dirigir uma palavra, mas Amaro aprendeu a conviver com a indiferença e diz não se importar.

— Alguns entram mudos e saem calados e eu apenas aperto o botão. Acho que falta cordialidade nessas pessoas, mas isso é de cada um.

O elevador do Tribunal não demora mais que três minutos para fazer o transporte de pessoas em seus oito andares. O tempo é suficiente para Amaro brincar com as pessoas, perguntar como está sendo o dia, informar as novidades. Tudo isso, entre alguns abraços e sorrisos. Quem frequenta os elevadores do órgão sabe da energia boa que Amaro transmite.

A maneira carinhosa de trabalhar já impactou na vida dos funcionários e visitantes. “Uma vez uma senhora disse que estava triste, mas que se alegrou com meu bom-dia, ela tinha tido um dia difícil e meu gesto levou um pouco de conforto ao coração dela”, disse orgulhoso.

Com sua forma peculiar de prestar o serviço, Amaro conquistou o coração de todos, ganhando até um título, digamos incomum, de todos que trabalhavam no Tribunal. O título de Comendador, geralmente dado a reis e nobres como recompensa pelos bons serviços prestados à comunidade. O nobre coração de Amaro lhe rendeu esse reconhecimento. Mais que um simples funcionário, ele era a alegria diária de todos, que mesmo em meio às atribulações, sabiam que tinham uma dose de bom humor reservada dentro daqueles cubículos.

Nascido no povoado de Santa Luzia do Norte, Amaro garante que sua infância foi boa, apesar um pouco traumática quando, aos 10 anos, perdeu o pai, vítima de anemia e aos 11, a mãe, com câncer. Logo cedo, se viu só no mundo com seus irmãos menores. Amaro conta lacrimejando o que sentiu naquele dia que perdeu suas referências de vida. “Meu pai foi embora e depois veio buscar minha mãe, ela morreu em casa, junto de nós. Eu queria pensar que ela estava dormindo, mas ela tinha morrido, foi difícil aceitar”, conta.

Depois da morte da mãe, um dos episódios mais marcantes de sua infância, Amaro foi morar com a irmã mais velha e seus dois irmãos mais novos. Logo cedo começou a trabalhar “para não dar trabalho aos outros”. Tomou conta do galinheiro do vizinho, depois foi carregador de compras no mercado. Com 13 anos, virou ajudante de padeiro e com 14, garçom de um bar próximo ao edifício Brêda, no Centro de Maceió. Foi lá que Amaro conheceu Paulo, o dono do bar que o adotou como filho.

Paulo colocou Amaro para estudar, porque criança não podia ficar fora da escola. Terminou seus estudos no Colégio Cônego Machado, no bairro do Farol. Nessa época, Amaro não queria ser muita coisa, a não ser um adolescente barbudo de 18 anos para assistir filmes proibidos e se parecer com um homem mais velho Só aos 20 anos que ele escolheu uma profissão: queria ser economista!

— Era meu desejo, mas perdi no vestibular. Então decidi fazer curso técnico de contabilidade, aqui em Maceió mesmo, na Escola Técnica do Comércio de Maceió.

Amaro não conseguiu concluir o curso e acredita que o motivo de tudo foi ter encontrado uma namorada na mesma sala que estudava e que isso teria tirado sua concentração. “A gente saia muito da aula, quando chegava a hora da prova eu não sabia de nada. Perdi o ano e perdi a namorada também por outros motivos. Perdi tudo e depois nunca mais quis saber de estudo”. Descontraído e sempre com um sorriso no rosto como se as vicissitudes da vida não tivessem lhe atingido de nenhuma forma, Amaro sente pena de ter perdido os estudos, mas não a namorada.

Amaro foi trabalhar no Tribunal em 1996. A princípio iria fazer a limpeza do prédio, mas acabou ficando com a vaga de ascensorista. “Eu adoro minha profissão e faço tudo com prazer”, afirma sorridente. E antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta ele completa: “Quem chega aqui de cara emburrada não sabe viver, porque problemas devem ser deixados em casa. Eu faço isso e por isso só chego aqui de bom humor”.

O maior sonho do ascensorista é ter sua casa própria, pois o local que mora não lhe permite ter paz e tranquilidade. “As pessoas fazem muito barulho e brigam muito”, mas nem por isso Amaro se sente uma pessoa amargurada e infeliz. Pelo contrário, agradece a tudo que lhe foi dado e também ao que foi tirado, pois “tudo faz parte da vida”, como gosta de dizer.

O comendador chega em casa cansado do trabalho e diz que não tem tempo para refletir sobre o seu dia a dia. Apenas vive, como se uma força o movesse. Nem no futuro ele pensa. O único medo que ele tem é o da morte. “Eu moro só. Já pensou se morro fechado em casa e ninguém me encontra?”, Amaro prefere deixar a possibilidade da morte em um horizonte distante.

Sobre a felicidade, Amaro acredita que só estar vivo já uma felicidade. Não liga para posses, dinheiro ou status. Sente-se realizado sendo exatamente quem é, desde que tenha saúde, paz e trabalho para se ocupar.

Comendador Amaro, altaneiro, exibe com orgulho sua farda e seu bótom. Tem até diploma na parede com o título. Se ele ganhou dinheiro com isso?

— Nada, nem ganhei dinheiro, nem tenho vaidade com isso, to até querendo vender, se tiver alguém interessado troco por uma casa – Responde sempre bem humorado.

Para ele, o segredo da felicidade está na forma como lidamos com as dificuldades. E não há nenhuma fórmula mágica. Aliás, a única receita é resolver os problemas que tem solução, e os que não têm a gente coloca no fundo da gaveta e continua vivendo.