junho 2014

dona tereza

A bela da tarde

É assustador perceber que somos finitos. Mais assustador ainda é saber que alguns veem nesse destino a única salvação para suas vidas. Uma espécie de vida através da morte.  Ninguém se desapega da vida de forma natural, ninguém parece conformado com essa perspectiva, com a possibilidade de dormir e não mais acordar ou quem sabe sair na rua e não saber se vai voltar pra casa. Alguns preferem não falar, outros têm medo, quase ninguém a admite como um processo natural da vida. Mas nada me surpreende mais que os idosos, em especial, alguns que desejam de forma muito íntima que suas horas sejam abreviadas.

– Dona Tereza, o que é envelhecer?

–  É uma angústia, um nó no peito, não sei bem explicar….

– A senhora é feliz?

– Sou, tenho que dizer que sou. Com 90 anos de idade não me restam muitas coisas, então ainda posso mentir que sou feliz.

– A senhora tem sonhos?

– Tenho não minha filha! Já passei dessa fase faz tempo…

– E medo da morte?

– Medo nenhum. Quero mais é que Deus se lembre de mim e me leve logo desse mundo.

Tereza Barbosa nasceu na praia de Boa Viagem. Em 1930 começava sua vida, ao lado de seus 3 irmãos, filhos de pai carpinteiro e mãe costureira. Era uma moça jovem, loira, de olhos azuis, que cabe perfeitamente na canção do poeta pernambucano Alceu Valença: Eu lembro da moça bonita da praia de boa viagem, a moça no meio da tarde de um domingo azul, azul era a belle de jour, era a bela da tarde…

Desde cedo aprendeu o ofício materno.  Era uma moça cheia de sonhos, sempre desejou ter sua própria família. E aos 20 anos de idade conheceu aquele que seria seu marido e veio com ele para Maceió. Teve dois filhos. Eduardo e Paulo.

Na capital alagoana, continuou trabalhando como costureira, trabalhando muito, na tentativa de dar uma vida digna para seu seus filhos. Fato que lhe rendeu problemas de coluna e uma aposentadoria por invalidez aos 40 anos de idade. Para o Estado era considerada inválida e por um bom tempo Tereza se sentiu assim. Inadequada, ainda jovem, mas sem um lugar no mundo.

A doença fez o espírito jovem e sonhador de Tereza se sentir menor. Ainda mais quando 10 anos depois seu companheiro morreu. Morte prematura, morte dolorida, daquelas que deixa a vida menos doce. Foi a segunda vez que Tereza lidou com a morte tão de perto, tristeza igual só sentiu quando seus pais foram embora.

Ainda tinha seus filhos e por eles iria viver. Eduardo se formou engenheiro e Paulo, dentista. “Eu tinha conseguido encaminhar bem os meninos, eles eram tudo pra mim, só queria que eles fossem felizes”, diz Tereza com um sorriso no rosto.

Paulo foi morar em São Paulo e Eduardo tinha ficado em Maceió. Tereza morou com Eduardo e a nora por um bom tempo, até que a terceira “morte” a atingiu. Teve um derrame que lhe roubou os movimentos das mãos e dos pés. Agora tinha uma alma presa a um corpo inerte. Além da doença, a velhice também chegou para Tereza. Seu rosto foi adquirindo cada vez mais cavidades e entradas. Os cabelos iam ficando brancos e apareciam a cada ano no mês de dezembro.

A vida ia ficando mais difícil. Todas as atividades básicas que costumava fazer com rapidez foram ficando cada vez mais penosas. Não podia comer sozinha, nem tomar banho e nem andar. Cansada de dar trabalho para seu filho, decidiu que era hora de partir. Iria para um abrigo.

A princípio seu filho não concordou, mas Tereza o convenceu que ele precisava viver a vida dele e que no abrigo iria ficar bem, teria alguém que cuidasse dela. Eduardo iria embora para Recife e Tereza achou melhor partir porque não queria dar trabalho e morria de medo de morar em apartamento. “Aquelas casinhas, uma em cima da outra, tão alto, tenho muito medo. E se cair?”, diz bem humorada.

Hoje, com 90 anos, Dona Tereza não tem mais sonhos, nem saúde. Vive em um abrigo, junto a outras senhoras. Umas mais moças, outras mais velhas, outras que não aguentaram esse mundo e sucumbiram à loucura, outras nem sequer sabem que ainda vivem, parecem à espera da morte com o olhar perdido no horizonte.

Tudo ali tem aquele cheiro característico dos idosos, tudo ali cheira a saudade, a tempo, a lembranças. Cada pedaço daquela casa traz alegria e tristeza em suas paredes. Cada olhar traz uma história. Tereza é mais um pedaço de solidão. Ela é mais uma. Como cada uma daquelas doces meninas. Todas já passaram dos 80. Algumas nem lembram mais quem são e nem qual seu lugar no mundo. Outras sabem no que acreditar, para elas ter fé é como um coringa, uma sorte, um privilégio.

Dona Margarida, Maria das Neves e Sandra são só algumas protagonistas dessa história. Cada uma com o rosto enrugado e com alma de menina. São mulheres que só procuram uma coisa: amor e carinho. Fazem festa quando chega visita, pedem abraço e afeto e uns minutos de atenção.

Entre elas ainda existe lucidez, mas nenhum apego à vida. Nem esperança. Seus mundos se resumem a esperar que a doce morte as levasse. Para elas, não é possível outra vida. É tudo uma espera, pelo momento em que seu dia chegará, onde a amarga morte as alcançaria com compaixão.

francisca croche

Francisca do Crochê

Independente de onde venho ou para onde vou, ela sempre está lá. Sentada no banco da padaria, ao lado da inseparável bengala, fazendo crochê, acompanhando com os olhos dezenas de gente passar e a vida também. Às vezes, quando vou comprar pão, deixo um “boa tarde!” com ela. Dona Francisca, por sua vez, deseja-me igualmente uma tarde boa. Mesmo ela me desejando um final do dia bastante afável, acabo sempre em estado de melancolia.

Outro dia a encontrei no ponto de ônibus. Ia ao médico. Sozinha. Perguntei se não tinha alguém para acompanhá-la. Dona Francisca respondeu que a filha era muito ocupada. No mundo, era só Chica, Deus e a solidão.

Nascida em Matriz do Camaragibe, município situado ao leste de Alagoas, faz mais de 30 anos que se mudou para Maceió. Veio morar na capital alagoana por intermédio da irmã, que tinha uma pensão na Rua do Sol, Centro de Maceió. Morou com ela durante 15 anos, até a vida lhe arrancar mais esse elo.

“Derradeira” de uma leva de quatro irmãs, a aposentada diz com a lágrima escorrendo pelos cantos das palavras que só sobrou ela “pra sofrer no mundo”.

Mãe de quatro filhos, ela tem duas netas: Jaqueline, 12, e Ana Quíria, 6. A Francisca que aprendeu a fazer crochê aos sete anos de idade, e graças a esse dom espantava todo mundo por tamanha habilidade, só estudou até o 4º ano. Dos filhos de Dona Francisca, restou apenas a mãe das suas netas.

A arte do crochê aprendeu com a tia. “Quando ela saía, eu desfazia os pontos. Um dia ela me deu uns cascudos, me colocou num canto e disse que da mesma forma que aprendi a desfazer, aprenderia a fazer”, rememorou ela, sem disfarçar saudade. No tempo de Dona Francisca, não tinha colégio na sua cidade natal, Matriz do Camaragibe. Mas se tivesse, teria se formado “para professora”. Me garantiu.

Baixinha dos olhos claros, sempre que pode reforça o desejo de viver num pensionato ou asilo para idosos. Não sabe direito onde fica o Abrigo Luisa de Marilac, onde ela sonha morar. A única coisa que Dona Francisca sabe é que no Luisa de Marilac até festejam o aniversário dos idosos, além de que seria um bom lugar para tecer os últimos dias de vida.

Morrer parece ser o segundo desejo de Francisca, depois de fazer do Asilo seu derradeiro lugar no mundo. “Eu acho lindo quando dizem que fulano de tal morreu. Quando eu morrer, vou de gosto e vontade”, desata, numa mistura de amargor e tristeza infinita por sentir que já viveu demais, enquanto os olhos se perdem na imagem fria e entardecida da rua. Eu me arrepio.

O crochê tem sido a salvação. O ponto de intersecção com o colorido dos dias. Tricota roupa, saia, “vestido de criança”, “chapéu de gente grande”, “toalha pra mesa de comer”, mochila, cocha de casal. “Mês passado entreguei uma. Tem até uma cocha encomendada por um rapaz solteirão”, conta meio surpresa. Pergunto se ele é solteiro mesmo ou disse ser apenas para abater o preço. “Bom, ele diz que é, né?!”, a gente ri da minha desconfiança tola.

Ela gosta muito de passear. Admite que é “andeira”. E tem mesmo que ser, apesar de uma atrofia no pé esquerdo. Quando menina, dona Francisca teve paralisia infantil. Agora, depois de velha, sofreu um derrame. “O médico disse que se eu não andar, vou parar numa cadeira de rodas, mas Deus não quer isso”, afirma Chica, crente na vontade divina.

A senhora do tricotado passa a maior parte do tempo sozinha. “Minha filha tem os problemas dela pra resolver”. O preço dessa vida tão corrida, quem quita ao final de cada dia, é dona Francisca. Ela já perdeu quase tudo e quase tudo na vida é pai, mãe, irmãs e o marido. Quando conheceu o pai de sua filha, ela já tinha 40 anos. “Donzela honrada, virgem”. Ri, sem demonstrar acanhamento por conta daquela condição.

O marido tinha lá seus 60 anos de idade quando se conheceram. Até aposentado era. “Fui dá um passeio na casa da Tia Júlia no Rio de Janeiro, quando cheguei lá, eu gostei dele, ele gostou de mim e vivemos 15 anos juntos só”. O companheiro de Francisca partiu cedo demais. Não deu tempo de completar sequer as Bodas de Crochê.

“Antes tivesse ido eu. Ele era meu pai, minha mãe. Tudo pra mim!”, lamenta. “Eu tô aqui vivendo, já devia ter indo mimbora pra lá- pro cemitério. Não tô fazendo nada aqui, se não fosse esse crochê”, chora como se isso fosse a única coisa que ela podia fazer por ela mesma àquela altura do tricô.

Já passava da tardinha quando Jandira Cavalcante, 70, aparece em cena trazendo consigo uma boa notícia. Na última segunda-feira, dia 9, Francisca teria uma entrevista no Abrigo Luisa Marilac. A filha da ex-funcionária pública contribui há mais de 5 anos com o abrigo. Me ocorreu, naquele instante, que se passassem mais uns dias eu teria perdido a chance de conhecer os pontos que tecem a vida daquela mulher. Fiquei feliz por vê-la sorrir com a mesma vontade que diz não querer mais viver.

Jandira mora nas proximidades, assim como eu; e reclama do abandono em que vive dona Francisca. Disse já ter tentado falar com a filha dela, mas nunca a encontra em casa. Disse, inclusive, que Dona Francisca já caiu da escada duas vezes. Ela mora no segundo andar. Diante disso, resolveu ajudar a senhorinha dos tricores a realizar esse que parece ser seu último pedido.

– “Dona Francisca, o que sua filha diz sobre isso? Ela quer que a senhora vá?”, indago.

– “Não, ela é do contra. Mas eu sou a mãe dela, ela é minha filha. Quem manda nela sou eu. Filho não me governa, só Deus!”, responde altiva. “Se eu não gostar, saio.”

Vaidosa, as orelhas nunca ficaram despidas dos brincos bonitos. “Minha irmã mais velha que me deu e colocou há 40 anos… Quando eu morrer é da Ana!”. Ana é a neta mais nova de Dona Francisca. É esse o tipo de lembrança que ela quer deixar para a menina: duradoura e resistente ao tempo, como os brincos cobertos de afeto e que um dia serão de Ana.

A escuridão da noite já era pano de fundo pra nossa conversa. As luzes agora eram de padaria. O tempo de relógio já anunciava que era hora de Dona Francisca entrar e assistir as “notícias da Globo”. A neta mais nova brinca com a toca no cabelo grisalho da avó.

Antes de nos despedirmos, assegura não amargurar nenhum arrependimento. “Tudo que fiz foi bom”.

Ela elogia meu nome. Revelo que é uma homenagem de minha mãe a minha bisavó. Chica achou bonito esse gesto. Roga aos céus que ele me abençoe e me promete que amanhã mesmo comprará uma linha só para fazer uma lembrança de crochê para mim. Qualquer cor menos branca, pontua. “Porque suja muito” e já bastam as nódoas que a tessitura da vida deixa no tecido-pele da gente. “Não sei o que vou fazer ainda pra você, mas vou”, me garante.

Agradeço antecipadamente pelo presente. Não sabe ela que já havia me regalado em quase duas horas de Francisca, que chora no banco da vida como se fosse um bordado desfeito ou cozido de pontos quebrados.

São muitos os desalinhos naquele tricô. Talvez, segunda-feira seja um dia de bordar contentamento. Eu fui embora torcendo para que ao menos esse ponto seja inteiro.