abril 2014

ok3

Mãos de tinta

Espalhando um forte cheiro de tinta por onde passa, Seu Zezinho é um artista diferente. Ele não pinta em telas de tecido dependuras em chassis de madeira, suas telas são feitas de tijolo e concreto. É ele o responsável por dar vida às paredes de diversas casas alagoanas. Em sua assinatura trêmula não há espaço para Portinari, da Vinci ou Picasso, pois José Lourenço Muniz de Melo já é um nome volumoso demais pra quem tem o vocabulário tão pequeno quanto o corpo. Sua miudeza é tanta que de José, passou pra Zé e de Zé, passou pra Zezinho.

Apesar de ter nascido numa das regiões metropolitanas de Alagoas, em Rio Largo, José Lourenço Muniz de Melo é o típico sertanejo de Euclides da Cunha, um verdadeiro Hércules-Quasímodo: desgracioso, desengonçado. Torto torto. A famosa antítese formulada pelo escritor carioca descreve com perfeição o jeito Zezinho de ser: andar desaprumado, sem firmeza, postura abatida, dorso curvado. No entanto, apesar da aparência de fadiga constante, sua coragem e vigor são de fazer inveja a muitos jovens acomodados pela ideia de eternidade. Com a idade que carrega nas costas curvas, Zezinho já não se sente imortal e precisa provar para si mesmo, diariamente, que ainda está vivo.

Aos 63 anos, com a pele dobrada e os cabelos envelhecidos, Seu Zezinho, como é mais conhecido pela clientela, assobia pelos cantos do mundo como se não houvesse amanhã. Vez em quando encosta no muro pra tragar um cigarro e soltar fumaça. Fios e mais fios de fumaça. Sua natureza pacata desafia o temperamento agitado da nossa geração. Parece até que ele vive em outro mundo, num lugar avesso à urgência, ao imediatismo. A verdade é que Zezinho está em paz com o tempo e os dois caminham juntos, sem pressa.

Enquanto as horas passam calmas, ele arrasta as chinelas até a lata de tinta, molha o pincel e volta toda sua atenção para a parede, mofada, esburacada. Feia. Analisando qualquer possibilidade de fazer um trabalho bem feito, sem medo algum de ser ultrapassado pelos instantes, ele deixa a vida passar enquanto as cores melam suas mãos.

Até aí, Seu Zezinho poderia ser considerado o homem mais corajoso do mundo, afinal, o tempo, o tão temido tempo, não lhe mete medo. Mas existe algo que anula seu lugar no Livro dos Recordes e que deixa as pernas bambas de Zezinho ainda mais bambas. É a altura.

Zezinho garante que o medo de altura não chegou na porta de sua casa embrulhado num lindo papel de presente. A verdade é que, certa vez, quando foi contratado para impermeabilizar a caixa d’água da Infraero, no aeroporto de Rio Largo, Zezinho sentiu a morte alisar seus cabelos finos. Sem que ninguém tivesse a decência de lhe avisar, abriram as válvulas da caixa de 23 metros de altura e, nesse momento, litros e mais litros de água foram jorrados com uma força brutal, sacudindo cada centímetro daquela estrutura monstruosa. E Zezinho estava aonde? Lá no topo, lutando como um peão para se manter em cima do touro feroz.

– O rebuliço foi tão grande que eu senti vontade de pular. Mas me aguentei. Pensei que a caixa ia cair e que eu ia junto.

Traumatizado, agora seu Zezinho se arma de um cuidado exacerbado quando é chamado pra pintar prédios ou fazer qualquer trabalho que exija “enfrentar muita altura”.

Fobias à parte, com mais de quatro décadas se dedicando a embelezar paredes – ele é da época em que os pintores faziam as próprias tintas –, Zezinho ama sua profissão. Mesmo não sendo devidamente reconhecido, trabalha com entusiasmo e não abre mão do grau de excelência. Cuida dos mínimos detalhes. Nenhum buraco. Nenhum defeito. Nada pode ficar torto. Só sua coluna e as pernas cangalhas. Quando identifica um erro, logo articula os mais variados xingamentos contra a falha exposta. Quem vê de longe acha que ele está cantando, tamanha serenidade.

– Até nas horas de estresse, Zezinho?

– A vida deve ser assim, pacata. Faço tudo pensando sempre em seguir um caminho certo que é pra ter um lugar no céu.

Homem de fé e praticante da autoanálise, diz Seu Zezinho que falar sozinho é como uma terapia. Foi a forma que arranjou pra expulsar os demônios do passado de trabalho, do presente de trabalho e do futuro de trabalho. Hoje seus familiares podem e lhe oferecem ajuda, mas ele nega. Pudera. Quem passa a vida inteira na labuta, nada mais sabe fazer além de labutar. Verdade seja dita.

Aos 7 anos, quando seu pai morreu, Zezinho já auxiliava no sustento da família. Ele e suas duas irmãs tinham que sair de casa antes de o sol nascer pra ajudar a mãe a vender mangalhos na feira de Rio Largo. Para os que não sabem, mangalho, no interior do Nordeste, é todo produto caseiro ou agrícola vendido em feiras livres e mercados populares. Quer dizer… acho melhor Zezinho explicar:

– Naquela época se chamava “mangaio”, mas hoje tem outros nomes. Com o tempo, as coisas vão ficando mais sofisticadas, sabe? É assim mesmo. Acho pura besteira, porque, se juntar tudo, no fim vai ter o mesmo significado. Você não acha?

E quem vai duvidar de uma pessoa que já pintou casas, apartamentos, shoppings e até mansões? Seu Zezinho é pintor de mão cheia e tem clientes espalhados em toda Alagoas. Não se duvida de alguém com sua importância.

A depender do tempo que lhe dão pra entregar o trabalho, o senhor baixinho de andar arrastado promete virar o dia alisando paredes. Às oito horas da matina já está batendo ponto e só sai no alvorecer do dia seguinte. Polivalente, ele trabalha também como marceneiro, carpinteiro, eletricista, pedreiro e encanador. Além disso, o pintor faz todo tipo de aplicação de textura: espalmada, escamada, brilhante, rústica, diamante. Aplica tinta Epóxi e ainda pinta azulejos. A concorrência que se cuide!

E não para por aí. Zezinho ainda conseguiu tempo pra formar um filho engenheiro civil, que hoje trabalha para a Petrobrás, e o outro médico clínico geral, graduado também em Farmácia. Os dois, Alexandre e Luciano, são a prova de que o grande Zezinho – não em tamanho, mas em humanidade – realizou um trabalho perfeito, como sempre buscou fazer. Um trabalho que honrou e dignificou a vida de seus filhos e, consequentemente, a sua.

Zezinho talvez não soubesse, mas, enquanto pintava as paredes alheias, sempre com honestidade e dedicação, cuidava também de sua própria casa. Não é à toa que hoje ele olha para trás e se sente feliz, realizado por suas conquistas. Conquistas construídas com atitudes, as mais nobres atitudes e quase nenhum dinheiro. Ainda assim não se considera superior a ninguém. Ele é apenas um homenzinho moreno de voz aguda que, se lhe fosse permitido, pintaria o mundo com as melhores tintas, usando as cores mais vivas e pincéis de cerdas mais macias.

Quem conhece sabe que, se permitido fosse, Zezinho pintaria os aromas mais suaves e as canções mais estonteantes pra não correr o risco de se apagarem da memória. Cobriria de azul turquesa todos os momentos de consolo no colo de sua querida mãe e as “conversas de homem” com o falecido, e não menos querido, pai. Zezinho pincelaria delicadamente cada sílaba do primeiro “eu te amo” e acentuaria a cor rosada das maçãs do rosto de sua amada. O cheiro do café quentinho e o barulho da chuva que reúnem toda família também seriam alvos de seu pincel mágico.

Se lhes permitissem, o pequeno homem de passos mansos daria cor à invisibilidade de sua alma e rebocaria cada falha que o entristece e angustia. Envernizaria sua ignorância e aplicaria cores fortes às mais longínquas e enfraquecidas lembranças. Se possível fosse, seu Zezinho consertaria o mundo a seu modo, colorindo de vermelho vivo todos os corações desbotados.

abencoado

O Abençoado do Mediterrâneo

“Virou a casaca?!”, me pergunta o Abençoado em tom de galhofa logo quando cheguei, dois meses depois, de uma viagem à Argentina. Respondi que ter virado a casaca não era bem a expressão, mas que não poderia mentir pra ele. Confessei em interrogação: O que posso fazer eu com metade do meu coração branco e azul? Pintar de verde e amarelo de novo?” Sorrimos. Me segredou saudade. Eu também.

Isaías José Vilela da Hora era um dos quatro porteiros do edifício onde moro. Mas foi transferido. O Abençoado – como toda a gente aqui do Mediterrâneo o chama – agora está como auxiliar de limpeza. Antes de vir pra cá, há 3 anos, trabalhava com obras. Limpar toda a sujeirada de dois blocos, cada um com 6 andares e 3 apartamentos por piso, não é bem o que gosta de fazer, mas me assegura que tem gente em situação muito pior.

Como seu próprio sobrenome entrega, e até seu apelido carinhoso, ele é gente boa. Suponho que de um metro e meio não passa. Cabe no abraço, acompanhado de cafuné, do Seu Macena – um dos condôminos do meu bloco. Diverte-se quando o velho cheio de saúde lhe afasta em gracejo: “Sai pra lá, coisa ruim!”, que de ruim não tem nada. “É uma benção”, como todos os filhos “Dele” e o mundo que enxerga com bondade.

Mulato de olhos verdes, prestativo, sorridente, bem-humorado. Para o Abençoado “boa praça”, “da hora”, como em gíria juvenil, parece que o tempo não passa de um tempo bom. Às 7h30, ele já está de pé. Ao meio-dia para. Almoça e volta pra continuar removendo a imundície, como se fosse possível limpar todo o lixo da vida de tanta gente e pior: em um dia. E pior ainda! Como se ele tivesse esse poder, mas ele tenta, apesar de ninguém nunca estar satisfeito, “falam de todo jeito”, desabafa no eco da escadaria.

Aos 38 anos, tem dois filhos: Lucas (11) e Lilen (17), que pelo nome pensei ser do sexo feminino. Acontece! (Se você também pensou o mesmo, caro leitor, acho que não pensa mais!) Está casado há 12 anos. Conheceu a amada num banquinho de praça, quando tinha duas vezes seis anos de idade. Um dos filhos mora com a sogra e sobre ele prefere pular o assunto. Seguimos então com meu interrogatório, anunciado há 2 semanas, depois de descer e subir as escadas dos blocos A e B umas 7 vezes. (Adíos, sedentarismo!)

No momento da entrevista, Isaías estava recolhendo o lixo e colocando sacolas novas. Não podia parar o trabalho pra ficar de papo comigo. Eu o entendi, claro. Decidi ir junto feito sombra. O odor das caixas de pizza, restos de comida, garrafas de plástico, utensílios de casa, estava quase insuportável, mas se o Abençoado aguentava, eu também podia. “Essa Glorinha é fogo”, ria de riso cheio. Embebedamos o prédio ao som de “Deus é fiel” de Samuel Ariano.

Importante dizer: Isaías é evangélico, como sua esposa e um de seus filhos, para sua “honra e glória”. Conta com uma leve gagueira que “a juventude hoje não quer nada com Deus”, como um de seus filhos. Isso o entristece. Apaga o sorriso do homem que acredita que o filho ser crente é uma boa. Porque o resto, “o resto Deus manda”. Pergunto a ele quando se converteu.

Diz que há 10 anos “Ele tocou no meu coração, mudou a minha vida…” Me inquieto. Ainda não me dei por satisfeita e complemento:

– Ninguém te convidou para ir à igreja?

– Não, fui sozinho.

– Sozinho? Assim? Do nada? Resolveu um dia ir lá e pronto?

– Às vezes você num tem vontade de ir prum canto e vai?

– Sim, às vezes a gente tem vontade de ir. E pura e simplesmente vai…

Morava na Barra de São Miguel, mas veio novo, “de fralda”, para Maceió. Tem tanto irmão que até perdeu as contas e solicitou a ajuda dos dedos. Oito. Oito irmãos, fora os hermanos da graça “Dele”. Só pode estudar até a 4ª série. Teve que escolher entre o trabalho e o estudo. Optou pelo primeiro, porque não dava pra começar a ganhar dinheiro depois. A família era grande e Isaías nunca quis nada mesmo, além de trabalhar. Nem mesmo viver “no mundo da lua”, como eu ao lhe contar que já quis ser astronauta quando menina.

Ele sonha em ajeitar a casa. Falta pouco, assim me conta. À noite até trabalha na construção dela às vezes. E acha que a vida dele não tem nada de mais, enquanto vai me dizendo pra anotar tudo. “A minha vida é simplicidade”, desata – como se isso não fosse nem bom, nem ruim. Cheio dos dizeres bíblicos é um homem também do mar. Adora pescar sempre. Mas adverte:

“Sempre é sempre quando posso. Anote aí!”, sobrevoa ele com seus olhos cor de esmeralda no meu bloco para ter a certeza de estar anotado.

Adora criança. Brinca, abraça, bagunça o cabelo do garotinho que chega da escola tagarelando que teve circo no colégio dele hoje. Contenta-se com a inocência do pequenino, que parece lhe adorar também. (E quem não o adora? Sei que sou suspeita pra falar!)

E antes que nos despeçamos, até o próximo “Bom dia/Boa tarde/Boa noite, Abençoada (o)!”, ele me desafia a falar mexicano com o Davi- outro porteiro do prédio. Tentei negociar com o meu castelhano, mas japonês é demais pra mim. Rimos. A vida parecia boa, “uma benção”, diria Isaías.